Arquivos do Blog

A Consciência Negra e a Busca de uma Verdadeira Humanidade – por Esteve Biko

A Consciência Negra e a Busca de uma Verdadeira Humanidade

Este Biko

Historicamente, a “Teologia Negra” é um produto norte-americano, proveniente da situação dos negros nos Estados Unidos. No início dos anos 70, seu expoente mais representativo era o Dr. James H. Cone, professor de teologia no Seminário Teológico da União, em Nova York, e autor de Black Theology and Black Power (Teologia Negra e Poder Negro) – (Seabury, 1969) e de God of the oppressed (Deus dos oprimidos) – (Seabury, 1975; SPCK, 1977).
Em meados de 1970, o UCM nomeou Sabelo Stanley Ntwasa como secretário itinerante para o ano de 1971, com o encargo específico de incentivar a reflexão e a produção de textos sobre a Teologia Negra. O livro Black Theology: the South African voice (Teologia Negra: a voz da África do Sul), editado por Basil Moore (C. Hurst and Co., London, 1973), é o resultado dos esforços feitos naquele ano, e o trabalho que se segue, escrito por Steve, é talvez a contribuição mais eloqüente para o livro – na opinião de quem aqui escreve, o melhor escrito que ele produziu.

Escrevo o que eu quero.

A Consciência Negra e a busca de uma verdadeira humanidade

Talvez seja conveniente começar examinando por que é preciso pensarmos coletivamente sobre um problema que nunca criamos. Ao fazer isso, não quero me ocupar desnecessariamente com as pessoas brancas da África do Sul, mas para conseguir as respostas certas precisamos fazer as perguntas certas; temos de descobrir o que deu errado – onde e quando; e precisamos verificar se nossa situação é uma criação deliberada de Deus ou uma invenção artificial da verdade por indivíduos ávidos pelo poder, cuja motivação é a autoridade, a segurança, a riqueza e o conforto. Em outras palavras, a abordagem da Consciência Negra seria irrelevante numa sociedade igualitária, sem distinção de cor e sem exploração.

Ela é relevante aqui porque acreditamos que uma situação anômala é uma criação deliberada do homem.
Não há dúvida de que a questão da cor na política da África do Sul foi introduzida originalmente por razões econômicas. Os líderes da comunidade branca tinham de criar algum tipo de barreira entre os negros e os brancos, de modo que os brancos pudessem gozar de privilégios à custa dos negros e ainda se sentirem livres para dar uma justificativa moral para a evidente exploração, que incomodava até as mais empedernidas consciências dos brancos. No entanto, diz a tradição que, sempre que um grupo de pessoas experimenta os agradáveis frutos da riqueza, da segurança e do prestígio, começa a achar mais confortável acreditar numa mentira óbvia e aceitar como normal que só ele tenha direito ao privilégio. Para acreditar seriamente nisso, o grupo precisa se convencer da veracidade de todos os argumentos que sustentam essa mentira. Portanto, não é de estranhar que na África do Sul, depois de séculos de exploração, as pessoas brancas em geral tenham chegado a acreditar na inferioridade do negro, a tal ponto que, embora o problema racial tenha começado como conseqüência da ganância econômica demonstrada pelos brancos, agora transformou-se num problema sério em si mesmo. As pessoas brancas agora desprezam as pessoas negras, não porque precisam reforçar sua atitude e, assim, justificar sua posição privilegiada, mas porque de fato acreditam que o negro é inferior e mau. Esse é o fundamento sobre o qual os brancos atuam na África do Sul e é isso o que faz com que a sociedade sul-africana seja racista.
O racismo que encontramos não existe apenas numa base individual; ele também é institucionalizado, para que pareça ser o modo de vida sul-africano. Embora ultimamente tenha havido uma tentativa frágil de encobrir os elementos abertamente racistas no sistema, ainda é verdade que esse mesmo sistema é sustentado pela existência de atitudes antinegro na sociedade.

Para dar uma vida ainda mais longa à mentira, é necessário que se negue aos negros qualquer oportunidade de provar acidentalmente que são iguais aos brancos. Por essa razão, há reserva de emprego, falta de treinamento em tarefas especializadas e um círculo restrito de possibilidades profissionais para negros. Absurdamente, o sistema retruca afirmando que os negros são inferiores porque entre eles não há economistas, não há engenheiros etc, embora os negros tenham sido impossibilitados de adquirir esses conhecimentos.
Para dar autenticidade à sua mentira e demonstrar a retidão de suas pretensões, os brancos vêm desenvolvendo esquemas detalhados para “resolver” a questão racial neste país. Desse modo, foi criado um pseudo-Parlamento para os “mestiços”, e vários “Estados bantus” estão em vias de ser estabelecidos. Estes são tão independentes e afortunados que não precisam gastar nem sequer um centavo em sua defesa, pois não têm nada a tremer da parte da África do Sul branca, que sempre virá socorrê-los em caso de necessidade. É impossível não ver a arrogância dos brancos e seu desprezo pelos negros, mesmo em seus esquemas de dominação modernos e bem planejados.


A estrutura de poder branco vem obtendo sucesso total em conseguir unir os brancos em torno da defesa do status quo. Jogando de modo habilidoso com o espantalho imaginário – o swart gevaar -, conseguiu convencer até os liberais obstinados de que há algo a temer na idéia de o negro assumir seu lugar legítimo no leme do barco sul-africano. Assim, após anos de silêncio, podemos ouvir a voz familiar de Alan Paton dizendo, lá longe, em Londres: “Talvez valha a pena tentar-se o apartheid”. “À custa de quem, Dr. Paton?”, pergunta um inteligente jornalista negro. Por isso os brancos em geral se apóiam mutuamente – embora se permitam algumas desavenças moderadas – quanto aos detalhes dos esquemas de dominação. Não há dúvida de que não questionam a validade dos valores brancos.

Não enxergam nenhuma anomalia no fato de estarem discutindo sozinhos sobre o futuro de 17 milhões de negros – numa terra que é o quintal natural do povo negro. Quaisquer propostas de mudança provenientes do mundo negro são encaradas com a maior indignação. Até mesma a assim chamada oposição, o Partido Unido, tem a ousadia de dizer aos mestiços que eles estão querendo demais. Um jornalista de um jornal liberal como o Sunday Times, de Johannesburgo, descreve um estudante negro – que está apenas dizendo a verdade – como um jovem militante impaciente.
Não basta aos brancos estar na ofensiva. Acham-se de tal modo mergulhados no preconceito que não acreditam que os negros possam formular os próprios pensamentos sem a orientação e a tutela dos brancos. Assim, até mesmo os brancos que vêem muitos erros no sistema tornam para si a responsabilidade de controlar a reação dos negros à provocação. Ninguém está sugerindo que não é responsabilidade dos brancos liberais se opor a tudo o que há de errado. No entanto, parece coincidência demais que os liberais – poucos como são – não apenas estejam determinando o modus operandi dos negros que se opõem ao sistema, como também se achem em sua liderança, apesar de envolvidos com o sistema. Para nós, seu papel define a abrangência da estrutura do poder branco: embora os brancos sejam o nosso problema, são outros brancos que querem nos dizer como lidar com esse problema. Eles fazem isso procurando desviar nossa atenção de inúmeras maneiras. Dizem-nos que a situação é mais a de uma luta de classes que uma luta racial. Eles que procurem Van Tonder no Free State e digam isso a ele. Nós acreditamos que sabemos qual é o problema e vamos continuar fiéis à nossas conclusões.
Quero aprofundar um pouco mais nessa discussão porque está na hora de acabar com essa falsa coalizão política entre negros e brancos enquanto estiver fundamentada numa análise errônea de nossa situação, é preciso lutar para acabar com ela.

Quero acabar com ela por outra razão: porque, no momento, constitui o maior obstáculo à nossa união. Ela acena aos negros ávidos por liberdade com promessas de um grande futuro, para o qual ninguém nesses grupos parece trabalhar com muito afinco.
Os brancos liberais apontam o apartheid como o problema fundamental da África do Sul. Argumentam que, para lutarmos contra ele, é necessário que formemos grupos não raciais. Entre esses dois extremos, proclamam, encontra-se a terra do leite e do mel pela qual estamos trabalhando. Alguns grandes filósofos consideram a tese, a antítese e a síntese os pontos cardeais em torno dos quais gira qualquer revolução social. Para os liberais, a tese é o apartheid, a antítese é o não racismo, mas a síntese é muito mal definida. Querem dizer aos grupos que encontram na integração a solução ideal. A Consciência Negra, no entanto, define a situação de maneira diferente: a tese na verdade é um forte racismo por parte do branco e, portanto, sua antítese precisa ser, ipso facto, uma forte solidariedade entre negros, a quem esse racismo branco pretende espoliar. A partir dessas duas situações, então, podemos ter a esperança de chegar a algum tipo de equilíbrio – uma verdadeira humanidade, onde a política de poder não tenha lugar. Tal analise define a diferença entre a velha e a nova abordagem. O fracasso dos liberais se encontra no fato de que sua antítese já é uma versão diluída da verdade, cuja proximidade da tese vai anular o equilíbrio pretendido. Isso explica o malogro das comissões do Sprocas que não conseguiram nenhum progresso, porque já estão procurando uma “alternativa” aceitável para os brancos. Todos os que integram as comissões sabem o que está certo, mas todos eles procuram o modo mais conveniente de se esquivar da responsabilidade de dizer o que está certo.
Enxergar essa diferença é bem mais importante para os negros que para os brancos.

Precisamos aprender a aceitar que nenhum grupo, por melhores intenções que tenha, poderá um dia entregar o poder aos vencidos, numa bandeja. Precisamos aceitar que os limites dos tiranos são determinados pela resistência daqueles a quem oprimem. Enquanto nos dirigirmos ao branco mendigando, com o chapéu na mão, nossa emancipação, estaremos lhe dando mais autorização para que continue com seu sistema racista e opressor. Precisamos nos conscientizar de que nossa situação resulta de um ato deliberado da parte dos brancos, e não de um engano, e que nem milhares de sermões morais podem persuadir o branco à “corrigir” esse estado de coisas. O sistema não concede nada a não ser que seja exigido, porque formula até seu método de ação com base no fato de que o ignorante aprenderá, a criança se transformará em adulto e, portanto, as exigências começarão a ser feitas. O sistema se prepara para resistir às reivindicações da maneira que lhe parecer adequada. Quando alguém se recusa a fazer essas exigências e prefere ir a uma mesa-redonda mendigando sua libertação, está atraindo o desprezo daqueles que têm poder sobre ele. Por esse motivo precisamos rejeitar as táticas de mendigos que estamos sendo forçados a usar por aqueles que querem aplacar nossos senhores cruéis. É aqui que a mensagem e o grito da SASO: “Negro, você está por conta própria!” se torna relevante.
O conceito de integração, cujos méritos são muitas vezes elogiados nos círculos de brancos liberais, está cheio de suposições não questionadas que seguem os valores brancos. É um conceito que há muito tempo foi definido pelos brancos e que os negros nunca examinaram. Baseia-se na suposição de que o sistema caminha muito bem, exceto por um certo grau de má administração exercida por conservadores irracionais da cúpula. Até mesmo os que argumentam em favor da integração muitas vezes se esquecem de escondê-la sob sua pretensa capa de harmonia. Dizem uns aos outros que, não fosse pela reserva de empregos haveria um excelente mercado a ser explorado.

Esquecem que estão se referindo a seres humanos. Consideram os negros apenas alavancas adicionais para algumas máquinas industriais complicadas. É esta a integração do honrem branco – uma integração baseada nos valores de exploração, em que o negro competirá com o negro, um utilizando o outro como a escada que o conduzirá aos valores brancos. É uma integração na qual o negro terá que provar a si mesmo em termos desses valores antes de merecer a aceitação e a assimilação final, e na qual os pobres se tornarão mais pobres, e os ricos mais ricos, num país em que os pobres sempre foram negros. Não queremos ser lembrados de que somos nós, o povo nativo, que somos pobres e explorados na terra em que nascemos. Estes são conceitos que a abordagem da Consciência Negra quer arrancar da mente dos negros, antes que nossa sociedade seja conduzida ao caos por pessoas irresponsáveis provenientes do contexto cultural da Coca-Cola e do hambúrguer.
A Consciência ‘Negra é uma atitude da mente e um modo de vida, o chamado mais positivo que num longo espaço de tempo vimos brotar do mundo negro. Sua essência é a conscientização por parte do negro da necessidade de se unir a seus irmãos em torno da causa de sua opressão – a negritude de sua pele – e de trabalharem como um grupo para se libertarem dos grilhões que os prendem a uma servidão perpétua. Baseia-se num auto-exame que os levou finalmente a acreditar que, ao tentarem fugir de si mesmos e imitar o branco, estão insultando a inteligência de quem quer que os criou negros. A filosofia da Consciência Negra, portanto, expressa um orgulho grupal e a determinação dos negros de se levantarem e conseguirem a auto-realizacão desejada. A liberdade é a capacidade de autodefinição de cada um. Tendo como limitação de suas potencialidades apenas a própria relação com Deus e com o ambiente natural, e não o poder exercido por terceiros.

O negro quer, por tanto, explorar por conta própria o ambiente em que vive e testar suas potencialidades – em outras palavras, conquistar a liberdade por quaisquer meios que considerar adequados. Na essência desse pensamento está a compreensão dos negros de que a arma mais poderosa nas mãos do opressor é a mente do oprimido. Se dentro de nosso coração estivermos livres, nenhuma corrente feita pelo homem poderá nos manter na escravidão; mas se nossa mente for manipulada e controlada pelo opressor a ponto de fazer com que o oprimido acredite que ele é uma responsabilidade do homem branco, então não haverá nada que o oprimido possa fazer para amedrontar seus poderosos senhores. Por isso, pensar segundo a linha da Consciência Negra faz com que o negro se veja como um ser completo em si mesmo. Torna-o menos dependente e mais livre para expressar sua dignidade humana. Ao final do processo, ele não poderá tolerar quaisquer tentativas de diminuir o significado de sua dignidade humana.
Para que a Consciência Negra possa ser usada de modo vantajoso como uma filosofia a ser aplicada as pessoas que estão numa situação como a nossa, é necessário observar alguns aspectos. Como pessoas existindo numa luta contínua pela verdade, precisamos examinar e questionar velhos conceitos, valores e sistemas. Tendo encontrado as respostas certas, iremos então trabalhar para que todas as pessoas sejam conscientizadas, a fim de que tenhamos a possibilidade de caminhar no sentido de pôr em prática essas respostas. Nesse processo, precisamos desenvolver nossos próprios esquemas, nossos modelos e estratégias, adequados para cada necessidade e a situação, mantendo sempre em mente nossos valores e crenças fundamentais.
Em todos os aspectos do relacionamento entre negros e brancos, agora e no passado, vemos uma tendência constante por parte dos brancos de descrever o negro como alguém que tem um status inferior.

Nossa cultura, nossa história, na verdade todos os aspectos da vida do negro foram danificados até quase perderem sua forma no grande choque entre os valores nativos e a cultura anglo-bôer.
Os missionários foram os primeiros que se relacionaram com os negros da África do Sul de um modo humano. Pertenciam à vanguarda do movimento de colonização para “civilizar e educar” os selvagens e apresentar-lhes a mensagem cristã. A religião que trouxeram era completamente estranha para o povo negro nativo. A religião africana em sua essência não era radicalmente diferente do cristianismo. Nós também acreditávamos num só Deus, tínhamos a nossa comunidade de santos por meio da qual nos relacionávamos com nosso Deus, e não considerávamos que era compatível com nosso modo de vida prestar a Deus um culto separado dos vários aspetos de nossa vida. Por isso o culto não era uma função especializada que se expressava uma vez por semana num prédio especial, mas aparecia em nossas guerras, ao bebermos cerveja, em nossas danças, em nossos costumes em geral. Sempre que os africanos bebiam, primeiro se relacionavam com Deus derramando um pouco da cerveja como símbolo de sua gratidão. Quando algo ia mal em casa ofereciam a Deus um sacrifício para apaziguá-lo e para reparar seus pecados. Não havia inferno em nossa religião. Acreditávamos na bondade inerente do homem e, por isso, tínhamos certeza de que todas as pessoas, ao morrerem, se juntavam à comunidade dos santos – portanto, mereciam nosso respeito.
Foram os missionários que confundiram as pessoas com sua nova religião. Assustaram o nosso povo com suas histórias sobre o inferno. Descreveram o Deus deles como um Deus exigente que queria ser adorado, “senão…”. As pessoas tinham que pôr de lado suas roupas e seus costumes, para serem aceitas na nova religião.

Sabendo que os africanos são um povo religioso, os missionários incrementaram sua campanha de terror sobre as emoções das pessoas, com seus relatos detalhados a respeito do fogo eterno, do arrancar de cabelos e do ranger de dentes. Por alguma lógica estranha e distorcida, argumentavam que a religião deles era cientifica, e a nossa uma superstição – apesar da discrepância biológica que está na base da religião deles. Para o povo nativo essa religião fria e cruel era estranha e provocava freqüentes discussões entre os convertidos e os “pagãos”, porque os primeiros, tendo assimilado os falsos valores da sociedade branca, foram ensinados a ridicularizar e a desprezar aqueles que defendiam a verdade de sua religião nativa. Depois, com a aceitação da religião ocidental, nossos valores culturais foram por água abaixo!
Embora eu não deseje questionar a verdade fundamental que esta no centro da mensagem cristã, há um forte argumento em favor de um reexame do cristianismo. Tem provado ser uma religião muito adaptável que não procura acrescentar nada às ordens existentes, mas – como qualquer verdade universal – encontrar um modo de ser aplicada a uma situação específica. Mais que ninguém, os missionários sabiam que nem tudo o que faziam era essencial à propagação da mensagem. Mas a intenção básica ia muito além da mera propagação da palavra. Sua arrogância e seu monopólio sobre a verdade, sobre a beleza e o julgamento moral os fizeram desprezar os hábitos e as tradições dos nativos e procurar infundir seus próprios valores nessas sociedades.
Aqui temos, então, o argumento em favor da Teologia Negra. Como não quero discutir a Teologia Negra a fundo, basta que eu diga que ela procura relacionar mais uma vez Deus e Cristo com o negro e seus problemas cotidianos. Ela pretende descrever o Cristo como um Deus lutador, e não coma um Deus passivo que permite que uma mentira permaneça sem ser questionada. Ela enfrenta problemas existenciais e não tem a pretensão de ser uma teologia de absolutos.

Procura trazer Deus de volta para o negro e para a verdade e a realidade de sua situação. Este é um aspecto importante da Consciência Negra, pois na África do Sul existe um grande número de pessoas negras cristãs que ainda se encontram atoladas em meio à confusão, uma conseqüência da abordagem dos missionários. Portanto, todos os sacerdotes e ministros religiosos negros têm o dever de salvar o cristianismo, adotando a abordagem da Teologia Negra e, assim, unindo o negro outra vez a seu Deus.
Também é preciso examinar atentamente o sistema de educação para os negros. No tempo dos missionários, essa mesma situação tensa já existia. Sob o pretexto de cuidarem da higiene, de adquirirem bons modos e outros conceitos vagos, as crianças eram ensinadas a desprezar a educação que recebiam em casa e a questionar os valores e os hábitos de sua sociedade. O resultado foi o que se esperava: as crianças passaram a encarar a vida de um modo diferente dos pais e perderam o respeito por eles. Ora, na sociedade africana, a falta de respeito pelos pais é um pecado grave. No entanto, como se pode impedir que a criança perca esse respeito quando seus professores brancos, que sabem tudo, a encenam a desconsiderar os ensinamentos da família? Quem pode resistir e conservar o respeito pela tradição, se na escola todo o seu ambiente cultural é sintetizado numa só palavra: barbarismo?
Podemos, assim, ver a lógica de colocar os missionários na linha de frente do processo de colonização. Uma pessoa que consegue fazer um grupo de indivíduos aceitar um conceito estranho, no qual ela mesma é um perito, transforma esses indivíduos em estudantes perpétuos, cujo progresso nesse campo só pode ser avaliado por ele; o estudante precisa sempre se dirigir a ele para obter orientação e promoção. Ao serem obrigados a aceitar a cultura anglo-bôer, os negros permitiram que eles mesmos fossem colocados à mercê do branco e que tivessem o branco como seu eterno supervisor.

Só o branco pode nos dizer até que ponto estamos nos saindo bem, e instintivamente cada um de nós se esforça para agradar esse senhor poderoso que sabe tudo. É isso que a Consciência Negra procura arrancar pela raiz.
Segundo um escritor negro, o colonialismo nunca se satisfaz em ter o nativo em suas garras, mas, por uma estranha lógica, precisa se voltar para o seu passado e desfigurá-la e distorcê-la. Por esse motivo é muito desanimador ler a história do negro neste país. Ela é apresentada apenas como uma longa seqüência de derrotas. Os xhosas eram ladrões que iniciavam uma guerra por causa de propriedades roubadas; os bôeres nunca provocavam os xhosas, mas organizavam somente “expedições punitivas” para ensinar uma lição aos ladrões. Heróis como Makana, que foram essencialmente revolucionários, são apresentados como desordeiros supersticiosos que mentiam ao povo dizendo que as balas se transformavam em água. Grandes construtores da Nação, como Shaka, são apresentados como tiranos cruéis que frementemente atacavam tribos menores sem nenhuma razão, mas por um propósito sádico. Não apenas não há nenhuma objetividade na história que nos é ensinada, mas há muitas vezes uma terrível distorção de fatos, que enojam até um estudante desinformado.
Por isso, precisamos prestar muita atenção à nossa história se nós, como negros, quisermos nos ajudar mutuamente a nos conscientizarmos. Precisamos reescrever nossa história e apresentar nela os heróis que formaram o núcleo de nossa resistência aos invasores brancos. Mais fatos têem de ser revelados, assim como é preciso enfatizar as tentativas bem-sucedidas de construir uma nação, feita por homens como Shaka; Moshoeshoe e Hintsa. Diversos pontos requerem uma pesquisa minuciosa, para que possamos desvendar alguns importantes elos perdidos. Seríamos ingênuos demais se esperássemos que nossos conquistadores escrevessem sobre nós uma história não-tendenciosa, mas precisamos destruir o mito de que ela começou em 1652, ano em que Van Riebeeck chegou ao Cabo.

Nossa cultura precisa ser definida em termos concretos. Temos de relacionar o passado com o presente e demonstrar a evolução histórica do negro moderno. Existe uma tendência de considerar nossa cultura uma cultura estática, que foi detida em 1652 e desde então nunca se desenvolveu. O conceito de “voltar para o sertão” sugere que não temos nada de que nos gabar além de leões, sexo e bebida. Aceitamos o fato de que, quando uma civilização se estabelece, ela devora a cultura nativa e deixa atrás de si uma cultura bastarda que só pode se desenvolver no ritmo permitido pela cultura dominante. Mas também precisamos nos conscientizar de que os princípios básicos de nossa cultura conseguiram em grande parte resistir ao processo de abastardamento e que, mesmo agora, ainda podemos provar que apreciamos um homem por si mesmo. Nossa sociedade é autenticamente centrada no homem, e sua tradição sagrada é a partilha. Temos de continuar rejeitando o modo frio e individualista de encarar a vida que é a pedra fundamental da cultura anglo-bõer. É necessário devolver ao negro sua tradição de valorizar as relações humanas, de respeitar as pessoas, suas propriedades, a vida em geral. Com isso, visamos reduzir o triunfo da tecnologia sobre o homem e o espírito materialista que lentamente se insinua em nossa sociedade.
Estas são características essenciais de nossa cultura negra, às quais precisamos nos agarrar. Acima de tudo, a cultura negra implica a nossa liberdade de inovar sem recorrer aos valores brancos. Essa inovação faz parte do desenvolvimento natural de qualquer cultura. E uma cultura, em essência, é a resposta conjunta de uma sociedade aos vários problemas da vida. Todos os dias experimentamos novos problemas, e tudo o que fizermos aumenta a riqueza de nossa herança cultural, desde que tenha o homem colmo seu centro. A introdução de um teatro e de uma arte dramática negra é uma dessas inovações importantes que precisamos estimular e desenvolver. Sabemos que nosso amor pela música e pelo ritmo ainda hoje é importante.

Fazendo parte de uma sociedade exploradora, na qual muitas vezes somos o objeto direto da exploração, precisamos desenvolver uma estratégia em relação à nossa situação econômica. Temos consciência de que.Os negros ainda são colonizados, mesmo dentro das fronteiras da África do Sul. Sua mão-de-obra barata tem ajudado a fazer da África do Sul aquilo que é hoje. Nosso dinheiro. que vem das cidades segregadas, faz uma viagem só de ida para as lojas e para os bancos dos brancos, e a única coisa que fazemos durante toda a nossa vida é pagar para os brancos, seja com nosso trabalho, seja com nosso dinheiro. As tendências capitalistas de exploração, unidas à evidente arrogância do racismo branco, conspiram contra nós. Por esse motivo agora sai muito caro ser pobre na África do Sul. São os pobres que vivem mais longe da cidade, e por isso têm de gastar mais dinheiro com o transporte para ir trabalhar para os brancos; são os pobres que usam combustíveis dispendiosos e impróprios, como a parafina e o carvão, porque o branco se recusa a instalar eletricidade nas áreas dos negros; são os pobres que são governados por muitas leis restritivas mal definidas e que, por isso, têm de gastar mais dinheiro em multas por causa de transgressões “técnicas”; são os pobres que não têm hospitais e assim têm de procurar médicos particulares, que cobram honorários exorbitantes; são os pobres que usam estradas não asfaltadas, têm que andar longas distâncias e, por isso, têm de gastar muito com mercadorias como sapatos, que sofrem muitos estragos; são os pobres que precisam pagar pelos livros dos filhos, enquanto os brancos os recebem gratuitamente. Não é necessário dizer que são os negros que são pobres.
Portanto, temos de estudar de novo como usar melhor o nosso poder econômico, por menor que pareça ser. Precisamos examinar seriamente as possibilidades de criar cooperativas de negócios cujos lucros sejam reinvestidos em programas de desenvolvimento comunitário.

Deveríamos pensar em medidas como a campanha “Compre de Negros”, que certa vez foi sugerida em Johannesburgo, e estabelecer nossos próprios bancos em benefício da comunidade. O nível de organização entre os negros só é baixo porque permitimos que seja assim. Agora que sabemos que estamos por nossa própria conta, temos obrigação estrita de atender a essas necessidades.
O último passo da Consciência Negra é a ampliação da base de nossa atuação. Um dos princípios básicos da Consciência Negra é a totalidade do envolvimento. Isso significa que todos os negros precisam se posicionar como uma grande unidade, e nenhuma fragmentação ou desvio da corrente principal de acontecimentos pode ser tolerada. Por isso, precisamos resistir às tentativas dos protagonistas da teoria dos bantustões de fragmentar nossa abordagem. Somos oprimidos, não como indivíduos, não como zulus, xhosas, vendas ou indianos. Somos oprimidos porque somos negros. Precisamos usar esse mesmo conceito para nos unir e para dar uma resposta como um grupo coeso. Precisamos nos agarrar uns aos outros com uma tenacidade que vai espantar os que praticam o mal.
O fato de estarmos preparados para assumirmos nós mesmos as armas da luta nos levará a sair da crise. Precisamos eliminar completamente de nosso vocabulário o conceito de medo. A verdade tem que triunfar no fim sobre o mal, e o branco sempre alimentou sua ganância com esse medo básico que se manifesta na comunidade negra. Os agentes da Divisão Especial não farão com que a mentira se transforme em verdade e precisamos ignorá-los. Para uma mudança significativa da situação, precisamos arregaçar as mangas, estar preparados para perder nosso conforto e nossa segurança, nossos empregos e posições de prestígio, além de perder nossas famílias: assim como é verdade que “liderança e segurança são basicamente incompatíveis”, uma luta sem baixas não é luta. Temos de tomar consciência do grito profético dos estudantes negros: “Negro, você está por conta própria!”.

Alguns vão nos acusar de racistas, mas se utilizam exatamente dos valores que rejeitamos. Não temos o poder de dominar ninguém. Apenas respondemos à provocação do modo mais realista possível. O racismo não implica apenas a exclusão de uma raça por outra – ele sempre pressupõe que a exclusão se faz para fins de dominação. Os negros têm tido suficiente experiência como objetos de racismo para não quererem inverter as posições. Embora possa ser relevante falar agora a respeito do negro em relação ao branco, não podemos deixar que esta seja a nossa preocupação, pois pode ser um exercício negativo. A medida que avançarmos em direção à realização de nossos objetivos, falaremos mais sobre nós mesmos e nossa luta e menos sobre os brancos.
Saímos em busca de uma verdadeira humanidade e em algum lugar no horizonte distante podemos ver o prêmio a brilhar. Vamos caminhar para a frente com coragem e determinação, extraindo nossa força da difícil condição que partilhamos e de nossa fraternidade. Com o tempo, conseguiremos dar à África do Sul o maior presente possível: um rosto mais humano.

BIKO. E., Escrevo o que eu quero: uma Seleção dos principais textos do líder negro Esteve Biko. Trad. Grupo São Domingos. São Paulo: Ática, 1990. 184pgs

Negritude – Por Kabenguele Munanga

Nos Estados Unidos

 

Após séculos de imitação cega, alguns escritores negros tomam consciência de que, de todos os grupos étnicos povoando os Estados Unidos – anglo-saxões, italianos, alemães,poloneses, judeus etc. – eles são os únicos a sofrer uma lavagem cerebral, levando-os até a acreditar que são naturalmente inferiores e não têm história. Esses escritores preocuparam-se em estabelecer a verdade e exorcizar entre seus irmãos de raça o profundo complexo de rejeição inculcado durante séculos. Limitemo-nos apenas aos dois mais conhecidos, o Dr. Du Bois e Langston Hughes, o Pai da Negritude e o representante do movimento conhecido sob o nome de Renascimento Negro, respectivamente.

W.E.B. Du Bois (nascido em 1863) fez seus estudos nas Universidades de Fusk, Harvard e Berlim, onde se doutorou em Filosofia. Seus trabalhos como historiador revelaram aos companheiros negros um passado africano do qual não se deviam envergonhar.

Sou negro e me glorifico deste nome; sou orgulhosos do sangue negro que corre em minhas veias…

Declara ele, sem hesitação[1]. Em 1900, foi secretário do Primeiro Congresso Pan-Africano, convocado em Londres por um advogado de Trindade, Henry Sylvester Williams, movimento do qual se tornou presidente depois da morte deste último. É considerado o pai do pan-africanismo contemporâneo, que, antes dos africanos, protestou contra a política imperialista na África, em favor da independência, na perspectiva de uma associação de todos os territórios para defender e promover sua integridade.Sem pregar a volta para a África dos negros americanos, defendia os direitos destes enquanto cidadãos da América e exortava os africanos a se libertarem em sua própria terra. Por ter defendido a volta às origens, Du Bois merece também o nome de Pai da negritude.

Sua influência foi considerável sobre personalidades africanas de primeiro plano, tais como Asikiwe Nandi, futuro presidente da Nigéria, Kwame N‘ Krumah, primeiro presidente da República de Gana, cujo mito do pan-africanismo foi uma das idéias-força, Jomo Kenyatta, primeiro presidente da República do Quênia.

Du Bois exercerá também profunda ascendência sobre os escritores negros americanos. Seu livro almas negras tornou-se verdadeira bíblia para os intelectuais do movimento Renascimento negro (entre 1920 e 1940). Reagindo, por sua vez, contra os estereótipos e preconceitos inveterados circulando a respeito do negro, longe de lamentar-se de sua cor, como acontecia com alguns no passado, o movimento reivindica-a, encontrando nela fonte de glória. Tratava-se de ter a liberdade de expressar-se como se é, e sempre se foi; de defender o direito ao emprego, ao amor, à igualdade, ao respeito; de assumir a cultura, o passado de sofrimento, a origem africana.

Todo esse programa é revelado de forma concisa e sem arrogância num parágrafo célebre de um artigo da revista The Nation, de 23 de junho de 1926, considerado o manifesto do movimento, ou, ainda, a declaração de independência do artista negro:

 

Nós, criadores da nova geração negra, queremos exprimir nossa personalidade sem vergonha nem medo. Se i8sso agrada aos brancos, ficamos felizes. Se não, pouco importa. Sabemos que somos bonitos. E feios também. O tantã chora, o tantã ri. Se isso agrada à gente de cor, ficamos muito felizes. Se não, tanto faz. É para o amanhã que construímos nossos sólidos templos, pois sabemos edifica-los, e estamos erguidos no topo da montanha, livres dentro de nós.

 

Langston Hughes (nascido em 1902, de pai branco e mãe negra) foi também muito prestigiado pelos iniciadores da negritude. Quando foi a Paris, tornou-se amigo pessoal de Leon Damas e de Senghor. Não à vontade na civilização ocidental, segundo ele dura, forte e fria, seu coração bate nos tantãs africanos e contempla a sarabanda das luas selvagens.

 

Todos os tantãs do mato batem no meu sangue. Todas as luas selvagens e ferventes do mato brilham na minha alma.

 

No entanto, ele não procurou fugir do combate cotidiano do seu povo. É na América que ele ficará, pois escreverá: Eu também sou a América.

 

Na Europa

 

Quando os estudantes negros dos países colonizados começaram a povoar as universidades européias, particularmente as de Paris e Londres, perceberam aos poucos algumas contradições, notadamente em relação à política de assimilação e às rivalidades entre as potências. O mito da civilização ocidental como modelo absoluto, tal como era ensinando nas colôn9oas, começou a desfazer-se assim que os africanos pisaram o solo europeu.

 

Estávamos orgulhosos de sermos franceses, apesar de negros africanos.

 

Declarou Senghor.

 

Revoltamo-nos, às vezes, por sermos considerados apenas consumidores de civilizações. As contradições da Europa: a idéia não ligada ao ato, a palavra ao gesto, a razão ao coração e daí à arte. Estávamos preparados para gritar: hipocrisia!.

 

Era o desencanto.

 

Além do mais, os múltiplos contatos entre estudantes negros de diversas procedências abriam-lhes os olhos sobre a sorte reservada a seu povo em toda a parte. Assim, chegaram rapidamente a uma consciência racial (não-racista). Eles se convenceram de que a opressão sofrida não era apenas a de uma classe minoritária sobre uma outra majoritária inferiorizada, mas ao mesmo tempo a de uma raça, independentemente da classe social.

As duas guerras mundiais de que participaram os africanos permitiram-lhes tomar conhecimento das grandes divisões em que vivia a Europa e o mundo dito civilizado de modo geral. Os negros viram-se envolvidos nos conflitos de seus dominadores, com os quais nada tinham a ver diretamente. Perceberam que os brancos não eram super-homens, e sim homens capazes de barbaridades pavorosas. Ocorreu, com elas, uma verdadeira desmistificação.

A Segunda Guerra Mundial serviu como ponto de partida da descolonização, ou seja, da luta de libertação. A esse respeito, o pastor Sithole, criticando o Império Britânico na África austral escreveu:

Vocês disseram que os alemães não têm o direito de dominar o mundo. Os ingleses também não têm o direito de manter os africanos na sua dependência.[2]

A experiência das duas guerras, o desencanto dos intelectuais negros nas metrópoles e os escritos das personalidades negras americanas já mencionados são fatos, entre outros, que explicam a negritude na diáspora européia, particularmente na francofonia.

Entre os precursores, duas personalidades marcantes: René Maran (1887-1960) e o Dr. Price-Mars, do Haiti (1876-1969).

René Maran, nascido na Martinica de pais guianenses, foi criado na França, considerando-se inteiramente francês. Engajado na administração colonial francesa, trabalhou em Obanguichari (antigo império centro-africano), onde morou treze anos. Familariaziou0se com a população negra dessa região, cuja língua aprende. De suas observações e anotações publicou um romance, Batouala, considerado um verdadeiro romance negro de excelente qualidade literária (1921). Batouala é um relato objetivo sobre a vida de um chefe de etnia. Os negros nele descritos têm qualidades e defeitos. Além do mais, Maram mostra que eles observam, pensam e criticam seus mestres europeus com uma lógica implacável, e que suas queixas têm fundamento. Por fim, o autor convidava com urgência os seus colegas escritores franceses a ficarem cada vez mais de olho no que estava sendo feito na África em nome da civilização. Infelizmente, seu apelo não foi atendido. Pelo contrário, perdeu sua carreira na administração colonial, acusado de calúnia e de ódio.

Etnógrafo, professor e diplomata, o Dr. Price-Mars publicou, em 1928, o livro Ainsi parla l’oncle (Assim falou o tio). Nele denuncia as fraquezas das produções culturais de imitação francesa, revaloriza o folclore haitiano, o dialeto crioulo, a religião vodu, reconhecendo oficialmente as ori8gens negras africanas da cultura haitiana, o que é uma maneira de devolver a memória a seu povo.

 

Temos a chance de sermos nós mesmos, a condição de não recusarmos nenhuma parte de nossa herança cultural, que constitui 80% da África.

 

Um tal programa era, sem dúvida nenhuma, mais um prenúncio à negritude e caminhava na mesma direção da obra de Du Bois e dos defensores do Renascimento negro. A convergência era certamente generalizada. Em 1956, quando do Primeiro congresso dos Escritores e Artistas Negros em Paris, Price-Mars foi eleito por unani8midade presidente da Associação Africana de Cultura. Como Du Bois, é visto como grande pensador do mundo negro.

 

No Quartier Latin

 

Os estudantes negros de Paris reencontram a memória do passado africano não só mediante os relatos negros americanos, Maran e o renascimento literário haitiano animado por Price-Mars, mas também por iniciativa própria, pelos etnólogos e artistas europeus de boa vontade e por alguns africanos com estudos feitos no fim do século XIX.

Em 1906, o cientista alemão Leo Frobenius escreve sobre a existência real de uma civilização africana, caracterizada pelo que ele mesmo chamou de estilo africano,  dominando todo o continente, como expressão de seu ser. Esse jeito manifesta-se nos gestos de todos os povos negros, na sua plástica, dança, máscaras, crenças religiosas, formas sociais, no seu destino etc. Neste sentido, a idéia de uma África com negros bárbaros era uma invenção européia.

A arte negra, considerada até o fim da Primeira Guerra Mundial, primitiva e inferior, é redescoberta por uns poucos artistas, que vêem nela os modelos clássicos que lhes foram negados. Os pintores cubistas da escola francesa, ao entrarem em contato com essa iconografia, por volta de 1907, constatam que a sua pretensa inovação artística já era realizada na África. As obras não se preocupam em mostrar as impressões visuais, elas expressam a idéia que o artista tem de um objeto ou de uma pessoa. Daí a expressão arte abstrata relacionada a Picasso e raque, que sem dúvida nenhuma se inspiraram na estatuária africana.

Para os criadores da negritude. Repetimos, a convergência de eventos na América e na Europa foi particularmente importante. Reapareceram a memória e a dimensão histórica amputadas. Certamente, seus pés e mãos ainda estavam presos às amarras coloniais, mas eles tinham o que dizer e responder nos debates que animaram o Quartier Latin, na década de trinta, sobre temas literários e políticos, debates nos quais foi-lhes dito que não tinham nenhuma civilização original e nada traziam à história do mundo. Eles tinham o que responder e começaram. As glórias passadas da África, as riquezas, o diário necessário ao equilíbrio do mundo futuro, os tantãs e as danças, a emoção, a intuição, enfim, tudo o que podia ser expresso.

Um novo nome, um conceito, todo um vocabulário nasce nesse contexto, para onde se canalizavam os debates: a negritude, quer dizer, a personalidade negra, a consciência negra.

Em junho de 1932 publicou-se Legitime Défense (legítima Defesa), uma revista que teve só um número. A iniciativa foi de alguns estudantes negros antilhanos (Étienne Léro, René Menil, Jules Monnero e outros). Nela criticavam os escritores de seu país, que sempre plagiaram os modelos literários franceses. Como Price-Mars, no Haiti, essa equipe defendida a personalidade antilhana esmagada durante os trezentos anos de escravidão e de colonização: pregava não apenas a libertação do estilo e da forma, mas também a da imaginação e do temperamento negros. Mirando-se no exemplo dos escritores americanos ligados ao movimento Renascimento, os moços acreditavam que o intelectual devia assumir cor, raça e tornar-se o porta-voz das aspirações do povo oprimido, em vez de escrever livros onde a sua pigmentação não pudesse ser adivinhada. Tal era a mensagem da Legitime Défense, título sugestivo que despertaria a consciência sonolenta de muitos jovens antilhanos e africanos.

Depois da morte da revista, em 1934, dois anos passados, nasce uma ova revista, retomando a mesma bandeira e reagrupando todos os estudantes negros em Paris, sem distinção de origem, por isso foi batizada de Étudiant Noir (Estudante Negro).

Opondo-se também à política de assimilação cultural, o pessoal da Étudiant Noir reivindica a liberdade criadora do negro e condena a imitação ocidental. Aponta como meios de libertação a volta às raízes africanas, o comunismo e o surrealismo. Sendo as duas últimas  consideradas ideologias européias, decide-se por despoja-las de seu caráter doutrinal, transformando-as em ferramentas ou técnicas. Dava-se um grande passo em relação à Legitime Défense, pois, segundo Leon Damas, co-definidor da negritude, a Étudiant Noir nunca consentiu em seguir sem reserva os mestres europeus, modernos ou antigos.

O grupo da revissta era dominado por três personalidades marcantes: o martiniquense Aimé Cesiare, que criou a palavra negritude, o guianense Leon Damas e o senegalês Léopold Sedar Senghor, cercados de Léonar Sainville, Aristide Maugée, Birago Diop, Ousmane Soce e dois irmãos Achille. A eles se devem as grandes obras da literatura negra africana de expressão francesa, e podem ser considerados os fundadores do movimento da negritude.

 

Objetivos da negritude

 

O exame da produção discursiva dos escritores da negritude permite levantar três objetivos principais: buscar o desafio cultural do mundo negro (a identidade negra africana), protestar contra a ordem colonial, lutar pela emancipação de seus povos oprimidos e lançar o apelo de uma revisão das relações entre os povos para que se chegasse a uma civilização não universal como a extensão de  uma regional imposta pela força – mas uma civilização do universal, encontro de todas as outras, concretas e particulares.

 

O desafio, a questão da identidade

 

Entre os três objetivos que acabamos de levantar, o que impressiona imediatamente por sua amplitude e pela variedade das disciplinas mobilizadas à sua compreensão é a afirmação e a reabilitação da identidade cultural, da personalidade própria dos povos negros. Poetas, romancistas, etnólogos, filósofos, historiadores etc. quiseram restituir à África o orgulho de seu passado, afirmar o valor de suas culturas, rejeitar uma assimilação que teria sufocado a sua personalidade. Tem-se a tendência, sob várias formas, de fazer equivaler os valores das civilizações africanas e ocidental. É a esse objetivo fundamental que correspondem as diversas manifestações do conceito de negritude.

Para Césaire, a negritude é o simples reconhecimento do fato de ser negro, a aceitação de seu destino, de sua história, de sua cultura. Mas tarde, Césaire irá redifini-la em três palavras: identidade, fidelidade, solidariedade.

A identidade consiste em assumir plenamente, com orgulho, a condição de negro, em dizer, cabeça erguida: sou negro. A palavra foi despojada de tudo o que carregou no passado, como desprezo, transformando este último numa fonte de orgulho para o negro.

A fidelidade repousa numa ligação com a terá-mãe, cuja herança deve, custe o que custar, demandar prioridade.

A solidariedade é o sentimento que nos liga secretamente a todos os irmãos negros do mundo, que nos leva a ajudá-los e a preservar nossa identidade comum. Césaire rejeita todas as máscaras brancas que o negro usava e faziam dele uma personalidade emprestada.

Senghor entende identidade própria como o conjunto dos valores culturais do mundo negro, exprimidos na vida, nas instituições, nas obras. É a proclamação-celebração sobre todos os tons da identidade, da personalidade coletiva, visando o retorno às raízes do negro côo condição de um futuro diferente da redução presente. Os negros decidem assumir o desprezo para fazer dele fonte de orgulho. Tal reação devia, para ser adequada, retomar os mesmos termos da agressão cultural, neutralizá-los, desenvenena-los antes de recarregá-los de um novo sentido. A negritude aparece aqui como uma operação de desintoxicação semântica e de constituição de um novo lugar de inteligibilidade da relação consigo, com os outros e com o mundo.

De seu lado, o eminente historiador Joseph Ki-Zerbo exorta os africanos a estudarem em sua história confiscada em proveito de seus mestres europeus, corrigindo o que foi escrito sem e contra eles. Com outros historiadores do mundo, sublinha a importância da memória, necessária às operações do espírito e indispensável à coesão da personalidade individual e coletiva.

 

Pegue uma pessoa, despojando-a brutalmente de todos os dados gravados em sua cabeça. Inflija-lhe, por exemplo, uma amnésia total. Essa pessoa torna-se um ser errante num mundo onde não compreende mais nada. Despojada de sua história, ela estranha a si mesma, aliena-se. A história é a memória das nações. Os povos e as coletividades são frutos da história.[3]

 

Para Cheik Anta Diop, a identidade cultural de qualquer povo corresponde idealmente à presença simultânea de três componentes: o histórico, o lingüístico e o psicológico. No entanto, o fator histórico parece o mais importante, na medida em que constitui  o cimento que une os elementos diversos de um povo, através do sentimento de continuidade vivido pelo conjunto da coletividade. O essencial para cada comunidade é reencontrar o fio condutor que a liga a seu passado ancestral, o mais longínquo possível. Nesse sentido, segundo o autor, o estudo da história permite ao negro receptar a sua nacionalidade e tirar dela o benefício moral necessário para reconquistar seu lugar no mundo moderno.

Os historiadores negros africanos esmiúçam os grandes impérios e reinos de ontem, mostrando a África negra não como uma tabula rasa, e sim como um teatro de brilhantes culturas e civilizações, cujos atuais vestígios desmentem as teses colonialistas. Afirmam, ainda, que, a partir das descobertas arqueológicas a paleontológicas mais recentes, a África é o berço da humanidade. Estabelecem uma relação marcante centre as civilizações negras africanas e a do Egito faraônico, enfatizando sua origem negra, contrariamente ao que certa egiptologia tendenciosa considerava uma verdadeira falsificação moderna da história.

As pesquisas de Yoro Diaw, no Senegal, Sarbah, Casely Hayford, Aggrey, S. Johnson e N. Azikiwe, na Nigéria, L. Dube, na África do Sul, e Apolo Kaguwa, na África oriental, situam-se na mesma perspectiva. Elas exprimem uma preocupação de afirmação baseada num passado que, graças aos seus impérios, instituições e figuras épicas, em nada fica a dever ao conquistador (Sow et alii, 1980, p. 146).

As análises do pensamento africano moderno põem claramente em evidência todo este esforço, centrado na valorização do passado e na vontade de construir ideologias, baseadas na reconquista de identidade, fazendo história como sujeito dela.

 

Luta pela emancipação

 

Identidade, fidelidade e solidariedade constituem como já vimos, três aspectos de uma só personalidade cultural negra africana, tal como a perceberam os protagonistas da negritude. Cerca-la, celebra-la, reivindica-la contra a máscara branca imposta pela teoria da assimilação, era o principal objetivo do movimento da negritude, praticamente o único antes da última guerra.

Mas durante a Segunda Guerra e depois dela (desde 1943), o movimento ganhou uma dimensão política, aproximando-se da proposta essencial do pan-africanismo. Na atmosfera internacional dessa guerra, um esforço esmagador foi exigido dos colonizados para salvar uma civilização em chamas. A crise desperta no negro um desejo de afirmação cada vez maior. Ultrapassando os limites da literatura, a negritude aspira ao poder, anima a ação política e a luta pela independência. A criação poética torna-se um ato político, uma revolta contra a ordem colonial, o imperialismo e o racismo. O movimento da negritude deu um vigoroso impulso às organizações políticas e aos sindicatos africanos, esclarecendo-os na sua caminhada à independência nacional. Conquistadas as soberanias, continuou a servir na causa da unidade africana, ao mesmo tempo em que oferecia uma quadro ideológico a partir do qual seus protagonistas, tornados homens de Estado, iam pensar o desenvolvimento econômico e social e abordar o sistema da representação dos valores culturais de seus respectivos países.

Esse pensamento, representado particularmente pelo presidente-poeta Senghor e seus ministros, não convenceu a todos. Embora a busca da identidade diante da assimilação colonial pudesse conciliar todos os negros, não era fácil, no entanto, realizar um acordo sobre questões de opção e orientação política, escolha do modelo de desenvolvimento e do tipo de relação a se manter com as antigas metrópoles e os grandes blocos ideológicos. Nesse  sentido, críticas foram feitas ao presidente Leópold Sedar Senghor, principalmente à sua atitude em relação à francofonia. Entendida como a política da promoção e expansão da língua dos deuses, o francês reagruparia países diversos, os mais desenvolvidos e os mais pobres, numa aliança ambígua e ameaçadora ao futuro das línguas negras africanas. M. Towa, filósofo da República dos Camarões, diagnosticando a armadilha do neocolonialismo escreveu:

 

L. S. Senghor, em nome da negritude, propõe-nos a francofonia, isto é, o  fortalecimento e o desenvolvimento do francês como ideal e fundamento da nossa política e cultura. A negritude senghoriana manifesta assim abertamente sua verdadeira natureza: é a ideologia quase oficial do neocolonialismo, o cimento da prisão onde quer deixar-nos trincados e que devemos quebrar[4].

 

Outras análise mostraram também como, através da francofonia, poder-se-ia manter e consolidar a influência da língua francesa nos novos países, as antigas colônias, consolidação essa que se realizaria com o consentimento dos líderes africanos. Daí a expressão neocolonialismo lingüístico, que é a vertente cultural da dominação econômica.

Um grande descrédito caiu sobre a negritude. No entanto, não podemos desconsiderar todo o movimento por causa da posição pessoal de Senghor.

 

Repúdio ao ódio: diálogo com outras culturas

 

Além da busca da identidade cultural e da ação política, o terceiro objetivo fundamental da negritude é o repúdio ao ódio, procurando o diálogo com outros povos e culturas, visando a edificação daquilo que Senghor chamou civilização do universal. Este aspecto parece-nos já atingido pelo terceiro componente da definição da negritude de Césaire: a solidariedade. Primordialmente, os negros apóiam-se no mundo inteiro. Mas o negro não quer isolar-se do resto do mundo. A questão é contribuir para a construção de uma nova sociedade onde todos os mortais poderão encontrar seu lugar.

 

Diferentes acepções e rumos da negritude

 

Há cerca de cinqüenta anos nascia a negritude enquanto conceito e movimento ideológico. Durante esse meio século muito se escreveu sobre o assunto. Várias interpretações, às vezes ambíguas, foram formuladas, de acordo com o dinamismo da realidade do mundo negro no continente africano e na diáspora.

Percorrendo a história do conceito, poder-se-ia descobri-las. Segundo Bernard Lecherbonnier[5], as diversas definições da negritude giram entre duas interpretações antinômicas: uma mística e outra ideológica. A primeira chama a si, em função da descoberta do passado africano anterior à colonização, a perenidade de estruturas de pensamento e uma explicação do mundo, almejando um retorno às origens para revitalizar a realidade africana, perturbada pela intervenção ocidental. A segunda propõe esquemas de ação, um modo de ser negro, impondo uma negritude agressiva ao branco, resposta a situações históricas, psicológicas e outras, comuns a todos os negros colonizados. As duas concepções são coerentes. No entanto, a mítica seria interpretada como uma marginalização do gruo negro, podendo levá-lo, a médio ou longo prazo, ao desaparecimento. A ideológica conduziria a uma fusão da problemática negra com a dos colonizados de todas as origens, aproximando-se, portanto, da teoria marxista.

Enquanto mito, interpreta-se a negritude como realidade voltada ao passado, sonhadora e contemplativa, ególatra e auto-suficiente, e não de combate, projetada para o futuro. Evidentemente, há um certo perigo em se confundir os meios e as finalidades. Mas acredita-se que o mito é importante, na medida em que ajuda a nova ideologia a se estabelecer. As linhas-força que serão pensadas para a frente e justificadas pela análise da situação presente pertence à ideologia (de luta), mas podem ter sucesso quando apoiadas por uma vontade coletiva, reflexo de um passado real ou mítico.

Entre as duas interpretações, existe uma variedade de definições.

 

 

MUNANGA, Kabengele. Negritude. Usos e sentidos. 2 ed.  São Paulo: Ática, 1988, p. 32-51.


[1]           DU BOIS, W. E. B. Ames noires. In BIMWENYI-KWESHI, p. 140.

[2] BIMWENYI-KWESHI, º op. cit., p. 138.

[3] KI-ZERBO, Joseph. Apud BIMWENYI-KWESHI,  Op. cit., p. 151

[4] TOWA, M. Lépoldo Sedar Senghor: negritude ou servitude? Yaondé: editions Clé, 1971, p. 99-115.

[5] Initiation a la littérature negro-africaine. Paris: Fernand Nathan, 1977, p. 105.

Quilombagem, Quilombismo e Pan-Africanismo

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 27 outros seguidores