Arquivos do Blog

Negritude – Por Kabenguele Munanga

Nos Estados Unidos

 

Após séculos de imitação cega, alguns escritores negros tomam consciência de que, de todos os grupos étnicos povoando os Estados Unidos – anglo-saxões, italianos, alemães,poloneses, judeus etc. – eles são os únicos a sofrer uma lavagem cerebral, levando-os até a acreditar que são naturalmente inferiores e não têm história. Esses escritores preocuparam-se em estabelecer a verdade e exorcizar entre seus irmãos de raça o profundo complexo de rejeição inculcado durante séculos. Limitemo-nos apenas aos dois mais conhecidos, o Dr. Du Bois e Langston Hughes, o Pai da Negritude e o representante do movimento conhecido sob o nome de Renascimento Negro, respectivamente.

W.E.B. Du Bois (nascido em 1863) fez seus estudos nas Universidades de Fusk, Harvard e Berlim, onde se doutorou em Filosofia. Seus trabalhos como historiador revelaram aos companheiros negros um passado africano do qual não se deviam envergonhar.

Sou negro e me glorifico deste nome; sou orgulhosos do sangue negro que corre em minhas veias…

Declara ele, sem hesitação[1]. Em 1900, foi secretário do Primeiro Congresso Pan-Africano, convocado em Londres por um advogado de Trindade, Henry Sylvester Williams, movimento do qual se tornou presidente depois da morte deste último. É considerado o pai do pan-africanismo contemporâneo, que, antes dos africanos, protestou contra a política imperialista na África, em favor da independência, na perspectiva de uma associação de todos os territórios para defender e promover sua integridade.Sem pregar a volta para a África dos negros americanos, defendia os direitos destes enquanto cidadãos da América e exortava os africanos a se libertarem em sua própria terra. Por ter defendido a volta às origens, Du Bois merece também o nome de Pai da negritude.

Sua influência foi considerável sobre personalidades africanas de primeiro plano, tais como Asikiwe Nandi, futuro presidente da Nigéria, Kwame N‘ Krumah, primeiro presidente da República de Gana, cujo mito do pan-africanismo foi uma das idéias-força, Jomo Kenyatta, primeiro presidente da República do Quênia.

Du Bois exercerá também profunda ascendência sobre os escritores negros americanos. Seu livro almas negras tornou-se verdadeira bíblia para os intelectuais do movimento Renascimento negro (entre 1920 e 1940). Reagindo, por sua vez, contra os estereótipos e preconceitos inveterados circulando a respeito do negro, longe de lamentar-se de sua cor, como acontecia com alguns no passado, o movimento reivindica-a, encontrando nela fonte de glória. Tratava-se de ter a liberdade de expressar-se como se é, e sempre se foi; de defender o direito ao emprego, ao amor, à igualdade, ao respeito; de assumir a cultura, o passado de sofrimento, a origem africana.

Todo esse programa é revelado de forma concisa e sem arrogância num parágrafo célebre de um artigo da revista The Nation, de 23 de junho de 1926, considerado o manifesto do movimento, ou, ainda, a declaração de independência do artista negro:

 

Nós, criadores da nova geração negra, queremos exprimir nossa personalidade sem vergonha nem medo. Se i8sso agrada aos brancos, ficamos felizes. Se não, pouco importa. Sabemos que somos bonitos. E feios também. O tantã chora, o tantã ri. Se isso agrada à gente de cor, ficamos muito felizes. Se não, tanto faz. É para o amanhã que construímos nossos sólidos templos, pois sabemos edifica-los, e estamos erguidos no topo da montanha, livres dentro de nós.

 

Langston Hughes (nascido em 1902, de pai branco e mãe negra) foi também muito prestigiado pelos iniciadores da negritude. Quando foi a Paris, tornou-se amigo pessoal de Leon Damas e de Senghor. Não à vontade na civilização ocidental, segundo ele dura, forte e fria, seu coração bate nos tantãs africanos e contempla a sarabanda das luas selvagens.

 

Todos os tantãs do mato batem no meu sangue. Todas as luas selvagens e ferventes do mato brilham na minha alma.

 

No entanto, ele não procurou fugir do combate cotidiano do seu povo. É na América que ele ficará, pois escreverá: Eu também sou a América.

 

Na Europa

 

Quando os estudantes negros dos países colonizados começaram a povoar as universidades européias, particularmente as de Paris e Londres, perceberam aos poucos algumas contradições, notadamente em relação à política de assimilação e às rivalidades entre as potências. O mito da civilização ocidental como modelo absoluto, tal como era ensinando nas colôn9oas, começou a desfazer-se assim que os africanos pisaram o solo europeu.

 

Estávamos orgulhosos de sermos franceses, apesar de negros africanos.

 

Declarou Senghor.

 

Revoltamo-nos, às vezes, por sermos considerados apenas consumidores de civilizações. As contradições da Europa: a idéia não ligada ao ato, a palavra ao gesto, a razão ao coração e daí à arte. Estávamos preparados para gritar: hipocrisia!.

 

Era o desencanto.

 

Além do mais, os múltiplos contatos entre estudantes negros de diversas procedências abriam-lhes os olhos sobre a sorte reservada a seu povo em toda a parte. Assim, chegaram rapidamente a uma consciência racial (não-racista). Eles se convenceram de que a opressão sofrida não era apenas a de uma classe minoritária sobre uma outra majoritária inferiorizada, mas ao mesmo tempo a de uma raça, independentemente da classe social.

As duas guerras mundiais de que participaram os africanos permitiram-lhes tomar conhecimento das grandes divisões em que vivia a Europa e o mundo dito civilizado de modo geral. Os negros viram-se envolvidos nos conflitos de seus dominadores, com os quais nada tinham a ver diretamente. Perceberam que os brancos não eram super-homens, e sim homens capazes de barbaridades pavorosas. Ocorreu, com elas, uma verdadeira desmistificação.

A Segunda Guerra Mundial serviu como ponto de partida da descolonização, ou seja, da luta de libertação. A esse respeito, o pastor Sithole, criticando o Império Britânico na África austral escreveu:

Vocês disseram que os alemães não têm o direito de dominar o mundo. Os ingleses também não têm o direito de manter os africanos na sua dependência.[2]

A experiência das duas guerras, o desencanto dos intelectuais negros nas metrópoles e os escritos das personalidades negras americanas já mencionados são fatos, entre outros, que explicam a negritude na diáspora européia, particularmente na francofonia.

Entre os precursores, duas personalidades marcantes: René Maran (1887-1960) e o Dr. Price-Mars, do Haiti (1876-1969).

René Maran, nascido na Martinica de pais guianenses, foi criado na França, considerando-se inteiramente francês. Engajado na administração colonial francesa, trabalhou em Obanguichari (antigo império centro-africano), onde morou treze anos. Familariaziou0se com a população negra dessa região, cuja língua aprende. De suas observações e anotações publicou um romance, Batouala, considerado um verdadeiro romance negro de excelente qualidade literária (1921). Batouala é um relato objetivo sobre a vida de um chefe de etnia. Os negros nele descritos têm qualidades e defeitos. Além do mais, Maram mostra que eles observam, pensam e criticam seus mestres europeus com uma lógica implacável, e que suas queixas têm fundamento. Por fim, o autor convidava com urgência os seus colegas escritores franceses a ficarem cada vez mais de olho no que estava sendo feito na África em nome da civilização. Infelizmente, seu apelo não foi atendido. Pelo contrário, perdeu sua carreira na administração colonial, acusado de calúnia e de ódio.

Etnógrafo, professor e diplomata, o Dr. Price-Mars publicou, em 1928, o livro Ainsi parla l’oncle (Assim falou o tio). Nele denuncia as fraquezas das produções culturais de imitação francesa, revaloriza o folclore haitiano, o dialeto crioulo, a religião vodu, reconhecendo oficialmente as ori8gens negras africanas da cultura haitiana, o que é uma maneira de devolver a memória a seu povo.

 

Temos a chance de sermos nós mesmos, a condição de não recusarmos nenhuma parte de nossa herança cultural, que constitui 80% da África.

 

Um tal programa era, sem dúvida nenhuma, mais um prenúncio à negritude e caminhava na mesma direção da obra de Du Bois e dos defensores do Renascimento negro. A convergência era certamente generalizada. Em 1956, quando do Primeiro congresso dos Escritores e Artistas Negros em Paris, Price-Mars foi eleito por unani8midade presidente da Associação Africana de Cultura. Como Du Bois, é visto como grande pensador do mundo negro.

 

No Quartier Latin

 

Os estudantes negros de Paris reencontram a memória do passado africano não só mediante os relatos negros americanos, Maran e o renascimento literário haitiano animado por Price-Mars, mas também por iniciativa própria, pelos etnólogos e artistas europeus de boa vontade e por alguns africanos com estudos feitos no fim do século XIX.

Em 1906, o cientista alemão Leo Frobenius escreve sobre a existência real de uma civilização africana, caracterizada pelo que ele mesmo chamou de estilo africano,  dominando todo o continente, como expressão de seu ser. Esse jeito manifesta-se nos gestos de todos os povos negros, na sua plástica, dança, máscaras, crenças religiosas, formas sociais, no seu destino etc. Neste sentido, a idéia de uma África com negros bárbaros era uma invenção européia.

A arte negra, considerada até o fim da Primeira Guerra Mundial, primitiva e inferior, é redescoberta por uns poucos artistas, que vêem nela os modelos clássicos que lhes foram negados. Os pintores cubistas da escola francesa, ao entrarem em contato com essa iconografia, por volta de 1907, constatam que a sua pretensa inovação artística já era realizada na África. As obras não se preocupam em mostrar as impressões visuais, elas expressam a idéia que o artista tem de um objeto ou de uma pessoa. Daí a expressão arte abstrata relacionada a Picasso e raque, que sem dúvida nenhuma se inspiraram na estatuária africana.

Para os criadores da negritude. Repetimos, a convergência de eventos na América e na Europa foi particularmente importante. Reapareceram a memória e a dimensão histórica amputadas. Certamente, seus pés e mãos ainda estavam presos às amarras coloniais, mas eles tinham o que dizer e responder nos debates que animaram o Quartier Latin, na década de trinta, sobre temas literários e políticos, debates nos quais foi-lhes dito que não tinham nenhuma civilização original e nada traziam à história do mundo. Eles tinham o que responder e começaram. As glórias passadas da África, as riquezas, o diário necessário ao equilíbrio do mundo futuro, os tantãs e as danças, a emoção, a intuição, enfim, tudo o que podia ser expresso.

Um novo nome, um conceito, todo um vocabulário nasce nesse contexto, para onde se canalizavam os debates: a negritude, quer dizer, a personalidade negra, a consciência negra.

Em junho de 1932 publicou-se Legitime Défense (legítima Defesa), uma revista que teve só um número. A iniciativa foi de alguns estudantes negros antilhanos (Étienne Léro, René Menil, Jules Monnero e outros). Nela criticavam os escritores de seu país, que sempre plagiaram os modelos literários franceses. Como Price-Mars, no Haiti, essa equipe defendida a personalidade antilhana esmagada durante os trezentos anos de escravidão e de colonização: pregava não apenas a libertação do estilo e da forma, mas também a da imaginação e do temperamento negros. Mirando-se no exemplo dos escritores americanos ligados ao movimento Renascimento, os moços acreditavam que o intelectual devia assumir cor, raça e tornar-se o porta-voz das aspirações do povo oprimido, em vez de escrever livros onde a sua pigmentação não pudesse ser adivinhada. Tal era a mensagem da Legitime Défense, título sugestivo que despertaria a consciência sonolenta de muitos jovens antilhanos e africanos.

Depois da morte da revista, em 1934, dois anos passados, nasce uma ova revista, retomando a mesma bandeira e reagrupando todos os estudantes negros em Paris, sem distinção de origem, por isso foi batizada de Étudiant Noir (Estudante Negro).

Opondo-se também à política de assimilação cultural, o pessoal da Étudiant Noir reivindica a liberdade criadora do negro e condena a imitação ocidental. Aponta como meios de libertação a volta às raízes africanas, o comunismo e o surrealismo. Sendo as duas últimas  consideradas ideologias européias, decide-se por despoja-las de seu caráter doutrinal, transformando-as em ferramentas ou técnicas. Dava-se um grande passo em relação à Legitime Défense, pois, segundo Leon Damas, co-definidor da negritude, a Étudiant Noir nunca consentiu em seguir sem reserva os mestres europeus, modernos ou antigos.

O grupo da revissta era dominado por três personalidades marcantes: o martiniquense Aimé Cesiare, que criou a palavra negritude, o guianense Leon Damas e o senegalês Léopold Sedar Senghor, cercados de Léonar Sainville, Aristide Maugée, Birago Diop, Ousmane Soce e dois irmãos Achille. A eles se devem as grandes obras da literatura negra africana de expressão francesa, e podem ser considerados os fundadores do movimento da negritude.

 

Objetivos da negritude

 

O exame da produção discursiva dos escritores da negritude permite levantar três objetivos principais: buscar o desafio cultural do mundo negro (a identidade negra africana), protestar contra a ordem colonial, lutar pela emancipação de seus povos oprimidos e lançar o apelo de uma revisão das relações entre os povos para que se chegasse a uma civilização não universal como a extensão de  uma regional imposta pela força – mas uma civilização do universal, encontro de todas as outras, concretas e particulares.

 

O desafio, a questão da identidade

 

Entre os três objetivos que acabamos de levantar, o que impressiona imediatamente por sua amplitude e pela variedade das disciplinas mobilizadas à sua compreensão é a afirmação e a reabilitação da identidade cultural, da personalidade própria dos povos negros. Poetas, romancistas, etnólogos, filósofos, historiadores etc. quiseram restituir à África o orgulho de seu passado, afirmar o valor de suas culturas, rejeitar uma assimilação que teria sufocado a sua personalidade. Tem-se a tendência, sob várias formas, de fazer equivaler os valores das civilizações africanas e ocidental. É a esse objetivo fundamental que correspondem as diversas manifestações do conceito de negritude.

Para Césaire, a negritude é o simples reconhecimento do fato de ser negro, a aceitação de seu destino, de sua história, de sua cultura. Mas tarde, Césaire irá redifini-la em três palavras: identidade, fidelidade, solidariedade.

A identidade consiste em assumir plenamente, com orgulho, a condição de negro, em dizer, cabeça erguida: sou negro. A palavra foi despojada de tudo o que carregou no passado, como desprezo, transformando este último numa fonte de orgulho para o negro.

A fidelidade repousa numa ligação com a terá-mãe, cuja herança deve, custe o que custar, demandar prioridade.

A solidariedade é o sentimento que nos liga secretamente a todos os irmãos negros do mundo, que nos leva a ajudá-los e a preservar nossa identidade comum. Césaire rejeita todas as máscaras brancas que o negro usava e faziam dele uma personalidade emprestada.

Senghor entende identidade própria como o conjunto dos valores culturais do mundo negro, exprimidos na vida, nas instituições, nas obras. É a proclamação-celebração sobre todos os tons da identidade, da personalidade coletiva, visando o retorno às raízes do negro côo condição de um futuro diferente da redução presente. Os negros decidem assumir o desprezo para fazer dele fonte de orgulho. Tal reação devia, para ser adequada, retomar os mesmos termos da agressão cultural, neutralizá-los, desenvenena-los antes de recarregá-los de um novo sentido. A negritude aparece aqui como uma operação de desintoxicação semântica e de constituição de um novo lugar de inteligibilidade da relação consigo, com os outros e com o mundo.

De seu lado, o eminente historiador Joseph Ki-Zerbo exorta os africanos a estudarem em sua história confiscada em proveito de seus mestres europeus, corrigindo o que foi escrito sem e contra eles. Com outros historiadores do mundo, sublinha a importância da memória, necessária às operações do espírito e indispensável à coesão da personalidade individual e coletiva.

 

Pegue uma pessoa, despojando-a brutalmente de todos os dados gravados em sua cabeça. Inflija-lhe, por exemplo, uma amnésia total. Essa pessoa torna-se um ser errante num mundo onde não compreende mais nada. Despojada de sua história, ela estranha a si mesma, aliena-se. A história é a memória das nações. Os povos e as coletividades são frutos da história.[3]

 

Para Cheik Anta Diop, a identidade cultural de qualquer povo corresponde idealmente à presença simultânea de três componentes: o histórico, o lingüístico e o psicológico. No entanto, o fator histórico parece o mais importante, na medida em que constitui  o cimento que une os elementos diversos de um povo, através do sentimento de continuidade vivido pelo conjunto da coletividade. O essencial para cada comunidade é reencontrar o fio condutor que a liga a seu passado ancestral, o mais longínquo possível. Nesse sentido, segundo o autor, o estudo da história permite ao negro receptar a sua nacionalidade e tirar dela o benefício moral necessário para reconquistar seu lugar no mundo moderno.

Os historiadores negros africanos esmiúçam os grandes impérios e reinos de ontem, mostrando a África negra não como uma tabula rasa, e sim como um teatro de brilhantes culturas e civilizações, cujos atuais vestígios desmentem as teses colonialistas. Afirmam, ainda, que, a partir das descobertas arqueológicas a paleontológicas mais recentes, a África é o berço da humanidade. Estabelecem uma relação marcante centre as civilizações negras africanas e a do Egito faraônico, enfatizando sua origem negra, contrariamente ao que certa egiptologia tendenciosa considerava uma verdadeira falsificação moderna da história.

As pesquisas de Yoro Diaw, no Senegal, Sarbah, Casely Hayford, Aggrey, S. Johnson e N. Azikiwe, na Nigéria, L. Dube, na África do Sul, e Apolo Kaguwa, na África oriental, situam-se na mesma perspectiva. Elas exprimem uma preocupação de afirmação baseada num passado que, graças aos seus impérios, instituições e figuras épicas, em nada fica a dever ao conquistador (Sow et alii, 1980, p. 146).

As análises do pensamento africano moderno põem claramente em evidência todo este esforço, centrado na valorização do passado e na vontade de construir ideologias, baseadas na reconquista de identidade, fazendo história como sujeito dela.

 

Luta pela emancipação

 

Identidade, fidelidade e solidariedade constituem como já vimos, três aspectos de uma só personalidade cultural negra africana, tal como a perceberam os protagonistas da negritude. Cerca-la, celebra-la, reivindica-la contra a máscara branca imposta pela teoria da assimilação, era o principal objetivo do movimento da negritude, praticamente o único antes da última guerra.

Mas durante a Segunda Guerra e depois dela (desde 1943), o movimento ganhou uma dimensão política, aproximando-se da proposta essencial do pan-africanismo. Na atmosfera internacional dessa guerra, um esforço esmagador foi exigido dos colonizados para salvar uma civilização em chamas. A crise desperta no negro um desejo de afirmação cada vez maior. Ultrapassando os limites da literatura, a negritude aspira ao poder, anima a ação política e a luta pela independência. A criação poética torna-se um ato político, uma revolta contra a ordem colonial, o imperialismo e o racismo. O movimento da negritude deu um vigoroso impulso às organizações políticas e aos sindicatos africanos, esclarecendo-os na sua caminhada à independência nacional. Conquistadas as soberanias, continuou a servir na causa da unidade africana, ao mesmo tempo em que oferecia uma quadro ideológico a partir do qual seus protagonistas, tornados homens de Estado, iam pensar o desenvolvimento econômico e social e abordar o sistema da representação dos valores culturais de seus respectivos países.

Esse pensamento, representado particularmente pelo presidente-poeta Senghor e seus ministros, não convenceu a todos. Embora a busca da identidade diante da assimilação colonial pudesse conciliar todos os negros, não era fácil, no entanto, realizar um acordo sobre questões de opção e orientação política, escolha do modelo de desenvolvimento e do tipo de relação a se manter com as antigas metrópoles e os grandes blocos ideológicos. Nesse  sentido, críticas foram feitas ao presidente Leópold Sedar Senghor, principalmente à sua atitude em relação à francofonia. Entendida como a política da promoção e expansão da língua dos deuses, o francês reagruparia países diversos, os mais desenvolvidos e os mais pobres, numa aliança ambígua e ameaçadora ao futuro das línguas negras africanas. M. Towa, filósofo da República dos Camarões, diagnosticando a armadilha do neocolonialismo escreveu:

 

L. S. Senghor, em nome da negritude, propõe-nos a francofonia, isto é, o  fortalecimento e o desenvolvimento do francês como ideal e fundamento da nossa política e cultura. A negritude senghoriana manifesta assim abertamente sua verdadeira natureza: é a ideologia quase oficial do neocolonialismo, o cimento da prisão onde quer deixar-nos trincados e que devemos quebrar[4].

 

Outras análise mostraram também como, através da francofonia, poder-se-ia manter e consolidar a influência da língua francesa nos novos países, as antigas colônias, consolidação essa que se realizaria com o consentimento dos líderes africanos. Daí a expressão neocolonialismo lingüístico, que é a vertente cultural da dominação econômica.

Um grande descrédito caiu sobre a negritude. No entanto, não podemos desconsiderar todo o movimento por causa da posição pessoal de Senghor.

 

Repúdio ao ódio: diálogo com outras culturas

 

Além da busca da identidade cultural e da ação política, o terceiro objetivo fundamental da negritude é o repúdio ao ódio, procurando o diálogo com outros povos e culturas, visando a edificação daquilo que Senghor chamou civilização do universal. Este aspecto parece-nos já atingido pelo terceiro componente da definição da negritude de Césaire: a solidariedade. Primordialmente, os negros apóiam-se no mundo inteiro. Mas o negro não quer isolar-se do resto do mundo. A questão é contribuir para a construção de uma nova sociedade onde todos os mortais poderão encontrar seu lugar.

 

Diferentes acepções e rumos da negritude

 

Há cerca de cinqüenta anos nascia a negritude enquanto conceito e movimento ideológico. Durante esse meio século muito se escreveu sobre o assunto. Várias interpretações, às vezes ambíguas, foram formuladas, de acordo com o dinamismo da realidade do mundo negro no continente africano e na diáspora.

Percorrendo a história do conceito, poder-se-ia descobri-las. Segundo Bernard Lecherbonnier[5], as diversas definições da negritude giram entre duas interpretações antinômicas: uma mística e outra ideológica. A primeira chama a si, em função da descoberta do passado africano anterior à colonização, a perenidade de estruturas de pensamento e uma explicação do mundo, almejando um retorno às origens para revitalizar a realidade africana, perturbada pela intervenção ocidental. A segunda propõe esquemas de ação, um modo de ser negro, impondo uma negritude agressiva ao branco, resposta a situações históricas, psicológicas e outras, comuns a todos os negros colonizados. As duas concepções são coerentes. No entanto, a mítica seria interpretada como uma marginalização do gruo negro, podendo levá-lo, a médio ou longo prazo, ao desaparecimento. A ideológica conduziria a uma fusão da problemática negra com a dos colonizados de todas as origens, aproximando-se, portanto, da teoria marxista.

Enquanto mito, interpreta-se a negritude como realidade voltada ao passado, sonhadora e contemplativa, ególatra e auto-suficiente, e não de combate, projetada para o futuro. Evidentemente, há um certo perigo em se confundir os meios e as finalidades. Mas acredita-se que o mito é importante, na medida em que ajuda a nova ideologia a se estabelecer. As linhas-força que serão pensadas para a frente e justificadas pela análise da situação presente pertence à ideologia (de luta), mas podem ter sucesso quando apoiadas por uma vontade coletiva, reflexo de um passado real ou mítico.

Entre as duas interpretações, existe uma variedade de definições.

 

 

MUNANGA, Kabengele. Negritude. Usos e sentidos. 2 ed.  São Paulo: Ática, 1988, p. 32-51.


[1]           DU BOIS, W. E. B. Ames noires. In BIMWENYI-KWESHI, p. 140.

[2] BIMWENYI-KWESHI, º op. cit., p. 138.

[3] KI-ZERBO, Joseph. Apud BIMWENYI-KWESHI,  Op. cit., p. 151

[4] TOWA, M. Lépoldo Sedar Senghor: negritude ou servitude? Yaondé: editions Clé, 1971, p. 99-115.

[5] Initiation a la littérature negro-africaine. Paris: Fernand Nathan, 1977, p. 105.

O Neo Colonialismo em África por Kwame Nkrumah

 

1O maior perigo que a África enfrenta actualmente é o neo-colonialismo, cujo principal instrumento é a balcanização. Este termo define de modo particularmente correcto a fragmentação da África em estados pequenos e fracos; foi inventado para designar a política das grandes potências que dividiram a parte europeia do antigo Império Turco e criaram na península balcânica vários Estados dependentes e rivais entre si. O resultado desta política foi criar um barril de pólvora que qualquer faísca podia fazer explodir. De facto, a explosão produziu-se em 1914, com o assassinato do arquiduque austríaco em Sarajevo. Como os países balcânicos estavam estreitamente ligados às grandes potências e às suas rivalidades, o assassinato teve como consequência a primeira guerra mundial, a maior desencadeada até então.

 

Uma guerra mundial poderia também rebentar facilmente no nosso continente, se os estados africanos realizassem alianças políticas, económicas ou militares com potências exteriores seus rivais. Vários comentadores políticos têm afirmado que a África se tornou o novo e vasto campo de batalha da guerra fria.

À medida que a luta nacionalista se intensifica nos países colonizados e a independência surge no horizonte, as potências imperialistas, pescando nas águas turvas do tribalismo e dos interesses particulares, tentam criar cisões na frente nacionalista para conseguir a sua fragmentação. A Irlanda e a Índia são exemplos clássicos. Os Franceses desmembraram a Federação da África Ocidental e a da África Equatorial. A Nigéria foi dividida em regiões, prevendo-se novas separações. O Ruanda-Burundi foi fragmentado com a independência. No Gana, como não conseguiram dividir-nos antes da independência, os ingleses impuseram-nos uma constituição destinada a provocar a desintegração da nossa unidade nacional. O Congo, declarado independente com um apressado e malicioso calculismo, tornou-se imediatamente o campo de batalha da divisão fomentada pelos imperialistas.

Tudo isto faz parte da política de balcanização intencional, com o qual o neo-colonialismo procura manipular a África; de facto, esta política pode ser mais perigosa para a nossa legitima aspiração à independência económica e política que um controle político directo. Lenine, por exemplo, afirma:

Portugal apresenta uma forma de dependência financeira e diplomática acompanhada de independência política. Portugal é um Estado independente e soberano, mas, na realidade, há mais de dois séculos (desde a guerra da Sucessão de Espanha de 1701 a 1714) que é um protectorado inglês. A Grã-Bretanha protegeu Portugal e as suas colónias visando fortalecer as suas próprias posições na luta contra os seus rivais: a Espanha e a França. Recebeu em troca vantagens comerciais, condições preferenciais para as suas exportações de mercadorias e, sobretudo, de capitais, para Portugal e para as suas colónias, o direito de utilizar os portos e as ilhas de Portugal, os seus cabos telegráficos, etc.. etc.2

 

A forma que o neo-colonialismo apresenta hoje em África reveste-se de alguns destes traços. Actua encoberto, manobrando homens e governos, liberto do estigma da dominação política. Cria Estados-clientes, que são independentes no papel mas que, na realidade, continuam a ser dominados pela própria potência colonial que supostamente lhes deu a independência. É uma das “diversas espécies de países independentes que, no plano político, gozam de uma independência formal, mas que, de facto, estão encurralados na rede da dependência financeira e diplomática”3. As potências europeias impõem certos pactos aos países balcanizados, assegurando o controle da sua política externa. Frequentemente, estes Estados garantem-lhes também bases militares permanentes no seu território. A independência destes Estados é apenas nominal; na verdade, perderam a sua liberdade de acção.

A França nunca pensou em conceder a independência às suas colónias; manteve-as sempre ciosamente guardadas. Quando se tornou evidente que já não era possível continuar a privá-las da soberania nacional, o terreno estava já preparado para manter os jovens Estados independentes na órbita da França. Continuariam a ser fornecedores de matérias-primas baratas e de alimentos tropicais, servindo simultaneamente de mercados reservados para os produtos franceses.

Pouco depois da segunda guerra mundial, a França criou dois organismos financeiros para “auxílio ao desenvolvimento económico” dos seus territórios ultramarinos: o F. I. D. E. S. (Fonds d’ Investissement et de Developpement Économique et Sócial) e a C. C. O. M. (Caisse Centrale de la France d’ Outre-Mer).

As subvenções da C. C. O. M. eram concedidas às antigas colónias francesas para ajudar a suportar as despesas com a administração pública e a manutenção de forças francesas nos seus territórios. O investimento no sector do desenvolvimento económico e social destes territórios era em larga medida um eufemismo, destinado a fazer entrar fundos nas ex-colónias para os fazer voltar à França. Calculou-se que 80% desses “investimentos” voltavam à França sob a forma de pagamento de materiais, serviços, comissões, juros bancários do pessoal francês. Os projectos empreendidos relacionavam-se principalmente com os serviços públicos e a agricultura. Eram terrivelmente inadaptados e mal concebidos, sem consideração pela situação e pelas necessidades locais. Não se procurou lançar as bases de um desenvolvimento industrial ou de uma diversificação da agricultura. O F. I. D. E. S. e a C. C. O. M. deram lugar ao F. A. C. (Fonds d’ Aide et de Cooperation) e à C. C. C. E. (Caisse Centrale de Coopération Économique). Mas estas novas instituições têm exactamente as mesmas funções que as suas predecessoras. O investimento continua a apoiar a produção de culturas exportáveis e as empresas francesas ou firmas que se abastecem de produtos franceses. Os banqueiros e os grandes interesses financeiros franceses, ligados aos maiores transformadores de matérias-primas, são encorajados a intensificar a exploração de minérios nas ex-colónias para os exportar na sua forma bruta.

Assim, embora nominalmente independentes, estes países continuam a viver na relação clássica da colónia com o seu “patrão” metropolitano, isto é, a produzir matérias-primas e a servir-lhe de mercado exclusivo. A única diferença é que agora essa relação está encoberta por uma aparência de ajuda e solicitude, uma das formas mais subtis do neo-colonialismo. Como a França considera que só se poderá desenvolver perpetuando a sua relação actual com os países subdesenvolvidos que se mantêm na sua órbita, isto significa que o fosso entre aquela e estes se irá alargando. Para que este possa vir a ser diminuído, ou mesmo anulado, será necessário renunciar completamente à actual relação de patrão a cliente.

 

(…)

pode continuar a ler aqui: 

MALHAS QUE OS IMPÉRIOS TECEM. TEXTOS ANTI-COLONIAIS, CONTEXTOS PÓS-COLONIAIS 2

 

Kwame Nkrumah.(Gana -1909 – Bucareste -1972) Líder político do Gana independente que chegou a auto-declarar primeiro-ministro vitalício, Kwame Nkrumah foi, para muitos, essencialmente, um grande lutador e divulgador do pan-africanismo, numa permanente luta contra o que considerava a “balcanização” de África, ou seja, a sua fragmentação em pequenos Estados, como estratégia imperialista de dominação sobre o continente. Esta tese é apresentada profundamente desenvolvida em África deve unir-se (Lisboa, Ulmeiro, 1977). Nkrumah recebe uma educação privilegiada para a época passando pelas mais prestigiadas escolas de Acra. Em 1935 ruma aos Estados Unidos da América onde estuda e se diploma em áreas como arte, teologia, filosofia ou educação. Com um percurso académico notável, desdobra-se em palestras no âmbito da ciência política na Universidade Lincoln. Por essa altura é eleito presidente da Organização dos Estudantes Africanos dos Estados Unidos e Canadá. Em 1945, ajudou a organizar o sexto Congresso Pan-Africano em Manchester.Em 1947 regressa ao Gana para assumir o cargo de Secretário-Geral da Convenção da Costa do Ouro Unida, uma organização partidária da independência das colónias. Nesta nova fase, dedica-se exclusivamente à política e faz um longo périplo pela Serra Leoa, Libéria e Costa do Marfim. Um ano depois, na sequência de protestos contra a carestia de vida, um pouco por todo o território Ganês, é preso por suspeita de envolvimento no processo. Este encarceramento dá uma grande visibilidade a Nkurumah, o que lhe confere, após a libertação pouco tempo depois, o estatuto de líder do movimento juvenil anti-colonial ganês. Passa então muito tempo a viajar dentro do país e utiliza o seu prestígio para trazer para a causa independentista produtores de cacau, mulheres e sindicalistas. Em 1949, depois de todos estes contactos e recrutamentos, une diversos grupos num mesmo partido: a Convenção do Partido Popular. Após muitas negociações infrutíferas com o colono britânico, o novo partido partido põe de lado a táctica diplomática e organiza greves, boicotes e outras tácticas de desobediência civil, o que leva, em 1950, o líder do partido a ser novamente preso. Devido às fortes pressões internacionais e internas decorrentes da repressão e do colonialismo, a Inglaterra abandona o Gana. Dá-se a independência do Gana (1957), e partido de Nkurumah vence com uma expressão esmagadora as primeiras eleições e o seu líder irá chefiar os destinos do país. Procurou ajuda no bloco comunista. Em 1962 foi-lhe atribuído o Prémio Lenine da Paz. Em 1966 o Gana sofre um golpe de Estado militar apoiado pelo Reino Unido, enquanto estava em Hanoi, no Vietnam do Norte.

Nkrumah nunca voltou a Gana, tendo se exilado na Guiné.

É autor de vários livros: Africa Must Unite (1963), African Personality (1963), Consciencism (1964), Handbook for Revolutionary Warfare (1968) e Class Struggle in Africa (1970).

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 25 outros seguidores