A alegoria dos eunucos negros – por Edridge Cleaver

A Alegoria dos Eunucos Negros

Eldridge Cleaver, em Alma no Exílio

Sentei-me para comer o feijão numa mesa de quatro com dois de meus antigos colegas de prisão: jovens, fortes e superlativos Eunucos Negros em toda a sua plenitude. Pouco depois, um Lázaro velho e gordo, de cabelos grisalhos, lisos e lustrosos, artificialmente esticados, com um sorriso agitado e alegre, que o fazia parecer um chocolate da marca Papai Noel, convidou-se para a nossa mesa e sentou-se na cadeira em frente à minha. Sorrisos irônicos acenderam nossas faces negras e um fogo intenso ardia em nossos olhos enquanto examinávamos aquele Lázaro intrometido.

Uns poucos minutos se passaram em silêncio.

Eu e meus colegas tínhamos um pensamento a respeito de negros velhos como aquele ali, sentado bem na minha frente. Havia alguma coisa em seu tipo, a maneira como se comportava, que desprezávamos. Nós o classificávamos como um Tio Tom – não que o tivéssemos visto curvando-se e lambendo os sapatos do homem branco, mas sabíamos que os rebeldes negros de sua idade não mais caminhavam pelas ruas da América: ou estavam mortos, presos, ou exilados em outro país. Ou qualquer outra coisa. Assim, já tínhamos uma opinião formada sobre ele, um tipo fingido que prolifera no gueto negro. Apesar de não ser um opositor passivo (e não se tratava de um não-violento), estava morto dentro de outro negro; e, apesar do homem branco lhe ter arrancado toda a vida, toda a raça, permanecia falando a respeito do que faria se o homem branco lhe tivesse feito alguma coisa pessoalmente. Se apenas falar derrubasse um governo, ele já estaria no poder. De um certo ponto de vista, odiávamos este negro, mas no fundo ficávamos fascinados com os curiosos termos aos quais ele chegara em sua relação com o mundo.

Pouco depois, e sem nenhuma provocação aparente, o jovem Eunuco do meu lado esquerdo, batendo com a mão fechada sobre a mesa para dar mais ênfase, esbravejou:

– Velho Lázaro, como é que você ainda está vivo?

– O quê? – perguntou o Infiel, surpreso mais pela maneira súbita e o tom ameaçador em que lhe foi feita do que pela própria pergunta. (Afinal, toda a sua geração fora interrogada com a mesma pergunta, de milhões de maneiras diferentes: Charlie Parker perguntou a Lester Young, Dizzy Gillespie a Louis Armstrong, Mao Tsé-Tung a Chiang Kai-Shek, Fidel Castro a Batista, Malcolm X a Martins Luther King. Robert F. Williams a Roy Wilkins, Norman Mailer aos Quadrados Totalitários.) A pergunta foi penetrando vagarosamente e, enquanto isso, o sorriso de Papai Noel transformava-se , mostrando sinais de pânico, numa contração no canto esquerdo de sua boca oleosa. Seus olhos, escuros, pequenos e redondos, saltaram e fixaram-se no interrogador.

– Perguntei-lhe por que ainda não está morto? – repetiu o Eunuco à minha esquerda.

– Porque eu deveria estar morto? Eu não enten…

– Se você tivesse sacrificado a vida – o Eunuco interrompeu-o – poderíamos pelo menos respeitá-lo. Poderíamos, pelo menos, dizer que você foi um homem – um grande homem. Pelo menos poderíamos apontar para o seu túmulo como um sinal, um modelo, com orgulho – com reverência! Mas não, seu retardatário bajulador, você se atreveu a manter-se apegado à sua miserável vida, a envelhecer e ficar com os cabelos brancos, gorduchão e acovardado!

O Acusador parou de falar e começou a comer o feijão com ar de vingança, como se cada grão fosse um homem branco, esmagando-os com a colher.

– O que há de errado com esse sujeito, hoje? – perguntou o Acusado, com o rosto deformado pela perplexidade e nervosismo.

– Está doente – tentei eu, para ver como o Infiel reagiria.

– Deve estar doente – disse o Acusado, mexendo o café timidamente. – Toda esta conversa estúpida sobre morte e morrer.

– Sim, estou doente! – descarregou o Acusador, quase sufocado, falando entre os feijões. – Você me faz ficar doente, Matusalém! O que está tentando fazer, ganhar uma competição de longevidade? Como é que conseguiu esses cabelos brancos? Como se arrumou para sobreviver? É, sim. Estou doente, doente, doente.

– Eu também – disse o Eunuco à minha direita, falando pela primeira vez. – Estou doente, doente, doente.

– Eu também estou – acompanhei.

– Qual é o nome desta brincadeira? – perguntou o Lázaro, tentando, na surdina, dar uma nota de frivolidade. – É nova para mim.

Era algo cruel que estávamos fazendo e nós o sabíamos, porque havíamos feito o mesmo antes com outros. Em certo sentido, estávamos apenas brincando com ele, testando-o, examinando-o, estudando-o, mas em outro plano falávamos a sério. O Lázaro, percebendo a ambigüidade, ficou confuso.

– Você sabe qual a diferença entre um gorila e um guerrilheiro? – o Eunuco à minha direita perguntou ao Acusado.

O Lázaro parecia estar procurando uma resposta.

– Vou tornar as coisas mais fáceis para você – prosseguiu o Eunuco. – Você é um gorila, e um guerrilheiro é tudo aquilo que você não é.

O Acusado abriu a boca para responder, mas o Eunuco à minha esquerda, que atirara a primeira pedra, cortou-o.

– Um guerrilheiro  é um homem – disse com impertinência, os olhos brilhando – mas você é uma espécie de aberração da natureza!

Seguiu-se um silêncio em que todos procuravam e interrogavam a si próprios. Alguém pensou em sangue, revólver e facas, chicotes, cordas, correntes e árvores, gritos, linchamento, medo, cassetetes, cães policiais e mangueiras de bombeiros, incêndios, feridas e bombas, mulheres sofrendo e jovens desonradas, mentiras, zombarias, garotos gelados de frio e rapazes castrados, velhos indefesos, moças fisicamente viciadas e psicologicamente massacradas…

Passados alguns momentos, perguntei ao Acusado, em voz neutra:

– Você já trepou com uma mulher negra?

Como se ele tivesse um interruptor ligado rapidamente, sus olhos acenderam, ansioso pelo que pensava ser uma mudança de assunto. O Lázaro mordeu a isca. O brilho de seus olhos tornou-se maligno no momento em que se debruçou sobre a mesa e me disse, confidencialmente:

– Quisera ter um níquel por cada puta que levou uma pirocada minha! Seria tão rico agora que vocês, seus atrofiados, teriam de fazer seus pedidos com seis meses de antecedência para conseguirem apenas me ver.Vamos ficar sozinhos. Sentem-se numa mesa comigo.

– Uma porrada bem dada no seu pescoço com uma cimitarra é a solução para todos os seus problemas, Lázaro! – disse com um silvo o Acusador, o Eunuco à minha esquerda, com os lábios tremendo de raiva.

– O que quer dizer com isso? – disse o Eunuco à minha direita. – Que durante quatrocentos anos você teve medo do feitor, mas chegou a hora de conhecer o medo de sua própria espécie.

– Ufa! – bufou o Acusado, e levou uma colher cheia de feijão à boca, mastigando-o distraidamente. Passados alguns minutos, voltou a falar. – As mulheres negras tomam a afeição por fraqueza. Dêem-lhe a mínima liberdade e ela os crucificará. Tenho ódio das putas negras. Não se pode confiar nelas como nas mulheres brancas, e se a gente tenta, elas não dão valor e não sabem como agir. É a mesma coisa que tentar mimar uma cobra. Intimamente, todas gostam do homem branco; algumas lhe dirão isso na cara, outras através de ações e palavras. Vocês nunca repararam que, assim que uma mulher negra tem êxito na vida, casa-se com um homem branco? E falo por experiência própria. Cconheço uma puta negra que sempre diz que não existe nada que um homem negro possa fazer por ela, exceto deixá-la a sós ou buscar ou levar um bilhete para o homem branco.

– Não existe amor entre um homem negro e uma mulher negra. Vejam eu, por exemplo. Amo as mulheres brancas e odeio as negras. Está dentro de mim, tão profundo que já não tento mais arrancar. Eu pularia em cima de dez putas crioulas apenas para conseguir uma mulher branca. E não tem esse negócio de mulher branca feia. A mulher branca é bonita mesmo que seja careca e tenha apenas um dente… Não é apenas o fato de ela é uma mulher de quem gosto; admiro a sua pele lisa, macia, pele branca. Fico satisfeito só de lamber sua pele branca como se brotasse mel dos seus poros, e acariciar seus cabelos longos, sedosos e macios. Existe uma suavidade envolvendo a mulher branca, algo delicado e suave no seu interior. Mas uma puta negra me parece feita de aço, dura e resistente como pedra, sem a suavidade e docilidade da mulher branca. Não há nada mais maravilhoso do que os cabelos de uma branca sendo soprados ao vento. A mulher branca é mais do que uma mulher para mim… É como uma deusa, um símbolo. Meu amor por ela é religioso e vai além da imaginação. Eu a adoro. E adoro as calcinhas sujas de uma branca.

– Algumas vezes, penso que o meu sentimento pelas mulheres brancas deve ter sido herdado de meu pai, e do pai do meu pai, e do pai… o mais distante que possamos retroceder na escravidão. Devo ter herdado de todos esses homens negros parte do meu desejo pela mulher branca, porque o meu amor por ela é maior do que o que qualquer homem possa ter tido. É verdade, desejo todas as mulheres brancas que eles desejaram, mas que nunca foram capazes de conseguir. Eles foram passando este desejo para mim, e realmente o passaram; é como um tumor corroendo meu coração e devorando meu cérebro. Nos meus sonhos, vejo mulheres brancas pulando uma cerca como delicados carneirinhos; e, cada vez que uma delas salta, os cabelos são soprados ela brisa e espalham-se por trás da cabeça como a crina de um garanhão Palomino: louras, ruivas, morenas, louras avermelhadas, louras sujas, louras oxigenadas, louras platinadas – todos os tipos. Elas são as cores dos meus pesadelos. Será que isto está parecendo invenção minha, gente moça?

Ele fez sinal para mim; dirigia-me a pergunta. Levei algum tempo para responder. Preferia ficar calado. Mas disse:

– Por que você mentiria para nós? Quero dizer, ninguém pode ser completamente verdadeiro em tudo que diz, e você me deu a impressão de estar falando francamente…

Por dentro ele ria, e eu podia ver nos seus olhos. Então, voltou a falar:

– Bem, fiquei matutando sobre isto durante anos. A gente tem de tentar compreender o que está nos incomodando, entendeu? Mas, realmente, não acredito que possa compreender algo de alguma coisa e menos ainda quando se tem que ordenar tudo. Mas eu me embeicei comigo mesmo e passei a aceitar os meus próprios pensamentos. Por exemplo, não sei exatamente como a coisa funciona, quero dizer, não consigo analisar, mas sei que o homem branco fez da mulher negra o símbolo da escravidão e da mulher branca o símbolo da liberdade. Todas as vezes que abraço uma mulher negra estou abraçando a escravidão, e quando envolvo em meus braços uma mulher branca, bem, estou apertando a liberdade. O homem branco proibiu-me de possuir a mulher branca sob a pena de morte. Literalmente, se tocar a mulher branca, vou pagar com a vida. Os homens morrem pela liberdade, mas os homens negros morrem pela mulher branca, que é o símbolo da liberdade. Este foi o desejo do homem branco e, enquanto ele tiver o poder de impor sua vontade sobre mim, de forçar-me a aceitar o seu desejo, neste assunto ou em outro qualquer, não serei livre. E não serei livre enquanto não puder ter uma mulher branca em minha cama e enquanto o homem branco não se preocupar com suas próprias questões. Até este dia chegar, toda a minha existência estará contaminada, envenenada e corrompida; e eu continuarei sendo um escravo – e assim continuará a mulher branca.

– Você pode não acreditar nisto… quando vou para a cama com uma puta crioula, fecho os olhos e me concentro, e logo começo a acreditar que estou trepando com uma daquelas louras curvilíneas. Conto-lhe a verdade, esta é a única maneira de “traçar” uma negra, fechando os olhos e pensando que ela é Jezebel. Se olhar para baixo e vir debaixo de mim, ou se minha mão tocar em seu cabelo crespo, isto seria o fim, estaria tudo acabado. O melhor seria eu me levantar e cair fora, porque não terminaria mais nada, mesmo se ficasse a noite inteira montado nela. O homem negro que disser que não trepa com a sua Jezebel é um mentiroso deslavado. Acredito que se um líder desejasse unir os negros num bloco sólido, poderia fazê-lo facilmente. Tudo que teria a fazer era prometer a cada homem negro uma mulher branca e a cada mulher negra um homem branco. Teria tantos seguidores que não saberia o que fazer com tanta gente. Acredite-me.

– E vou dizer mais a vocês, gente moça; algo de que não gosto de falar. Detesto falar a respeito destas merdas… Vocês aí, meus chapas, estão muito cheios de si. Pensam que sabem muita coisa sobre vocês, mas realmente não sabem nada, nem de vocês, nem de suas mulheres, nem a respeito da gente branca. Provavelmente, vocês não acreditarão no que eu vou dizer: é algo que incomodará o ego de vocês. Mas, de qualquer maneira, vou lhes contar.

O Lázaro fez uma pausa e contorceu-se, como se tentasse acomodar melhor o traseiro da cadeira. Quando falou novamente, sua voz estava trêmula:

– Aquele que adora a Virgem Maria cobiçará a linda loura. Aquela que anseia ser arremessada nos braços de Jesus, ficará excitada com os olhos azuis e os braços brancos do rapaz tipicamente americano.

A essa altura, Lázaro parou e ficou procurando nossas faces. Mas nossos rostos eram máscaras impenetráveis e, assim, não lhe demos o menor sinal.

– A guerra que está sendo travada entre o homem negro e o homem branco – prosseguiu – não é a única.  A vida está cheia de guerrinhas e a gente combate em todas ao mesmo tempo. É necessária uma grande estratégia para enfrentar todas as hostilidades, precisa-se ter um estilo, e se há alguém fazendo guerra contra você sem que você saiba, bem, você está em maus lençóis, está completamente perdido… Está sendo travada uma guerra entre o homem e a mulher negra, que a transforma numa aliada silenciosa, indireta mas efetivamente, do homem branco. A mulher negra é uma aliada inconsciente e talvez nem perceba isto, mas o homem branco certamente percebe. Esta é a razão, em toda a história, de ter ele feito com que ela subisse economicamente acima de vocês e de mim, para fortalecer a sua mão contra nós. Mas o homem branco é um idiota porque também está travando uma guerra com a mulher branca. E não termina aqui: os homens brancos se combatem entre si.

– O mito da mulher negra robusta é a outra face do mito da loura maravilhosa e estúpida. O homem branco transformou a mulher branca num delicado objeto de cabeça oca e corpo frágil, uma jarra do sexo, e colocou-a sobre um pedestal; e transformou a mulher negra numa Amazona forte autoconfiante para depositá-la em sua cozinha; este é o segredo do avental da Tia Jemina. O homem branco transformou-se no Administrador Onipotente e estabeleceu-se no Primeiro Posto. E transformou o homem negro no Criado Supermasculino, chutando-o para os campos. O homem branco deseja ser o cérebro e quer que sejamos os músculos, o corpo. Tudo isto está entrelaçado de uma maneira louca, que jamais consegui esclarecer. Às vezes, parece-me absolutamente clara e, outras, não acredito. Lembra-nos dois pares de algemas prendendo a nós quatro, reunindo toda a carne branca e negra num certo molde. Daí se explica, quando se desce ao nível mais profundo, o porquê do homem branco não querer que o homem negro, a mulher negra ou a mulher branca, tenham uma educação mais aprimorada. A ilustração destes seria uma ameaça à sua onipotência.

– Vocês nunca perceberam por que o homem branco normalmente aplaude o negro que se destaca com o corpo no terreno do esporte, enquanto odeia ver um homem negro se destacar com o cérebro? A mecânica do mito exige que o Cérebro e o Corpo, como o leste e o oeste, nunca se encontrem, especialmente em competições do mesmo nível. Dentro desta mecânica, o Cérebro e o Corpo são mutuamente exclusivos. Não pode haver uma verdadeira competição entre superiores e inferiores. Por isso tem sido tão penoso para os negros, historicamente, romper a barreira da cor no esporte. Uma vez rompida, a magia evapora-se; e, quando o homem negro começa a tomar vantagem num determinado esporte, a pergunta começa a flutuar em todos os lugares: “O boxe está morrendo? O beisebol está por baixo? O que aconteceu com o futebol? Para onde está indo o basquete?” Na verdade, o novo símbolo da supremacia branca é o golfe, porque ali o Cérebro domina o Corpo. Mas, tão logo o Corpo começa a arrebanhar alguns troféus, a pergunta voltará a ser feita: “O que aconteceu ao golfe?”

– Tudo isto ficou claro quando Joe Louis destruiu Max Schmeling na segunda luta. Schmeling era o tipo do ídolo que o homem branco acalentava e venerava em seu coração. Mas os brancos aplaudiram Joe por esmagar Schmeling. Por quê? Por que a vitória de Joe sobre Schmeling simbolizou o triunfo da democracia capitalista sobre o nazismo? Não! Ttalvez isto tenha pesado um pouco, mas intimamente eles aplaudiram Joe pela mesma razão que desprezaram Ingemar Johansson, embora o tenham recompensado generosamente, por nocautear Floyd Patterson. A vitória de Joe sobre Scchmeling, confirmou, apesar da derrota de Floyd contradizer, a imagem que o homem branco tem do Negro como Criado Supermasculino, a personificação da força bruta irracional, o escravo perfeito. E Sonny Liston, o Corpo irracional, é enaltecido em relação ao barulhento e falagrossa Cassius Clay, porque, afinal, é preciso pelo menos um cérebro de passarinho para dirigir um fala-grossa, e o homem branco despreza esse pouquinho de cérebro num homem negro. E quando Clay, o grosseirão barulhento, abdicou de sua imagem como Corpo e tornou-se Muhammad Ali, o Cérebro, os branquelas não puderam suportar sua impertinência! O homem branco gosta do Criado Supermasculino: John Henry, o homem guiado pelo aço, todo Corpo, posto de joelhos pela Máquina, que é o símbolo fálico do Cérebro e o supremo ideal do Administrador Onipotente. Para a maneira de pensar do homem branco, este era o sistema perfeito das imagens sociais. Mas, como todos os sistemas perfeitos, tem uma gigantesca brecha bem no centro.

– O Administrador Onipotente concedeu ao Criado Supermasculino todos os atributos da masculinidade associados com o Corpo: vigor, força bruta, músculos, e até mesmo a beleza do corpo bruto. Exceto um. Havia um único atributo da masculinidade ao qual ele não desejava renunciar, embora este predicado particular fosse a essência e a sede da masculinidade: o sexo. O pênis. O pênis do homem negro era a chave-inglesa perdida nas engrenagens da máquina perfeita do homem branco. O pênis, virilidade, é do Corpo. Não é do Cérebro: o Cérebro é neutro, HOMO, MÁQUINA. Mas na partilha que o homem branco impôs ao homem negro, este recebeu o Corpo como seu domínio, enquanto ele se apropriava antecipadamente do Cérebro. Pouco tempo depois, o Administrador Onipotente descobriu que, na impetuosidade do seu ardil, ele se confundira e se privara do pênis (Reparem a imagem minúscula que o homem branco faz de seu pênis. Ele o chama de “pica”, “piroca”, “rola”). Assim, ele renegou a barganha. Chamou de volta o Criado Supermasculino e disse: – Olha, rapaz, temos um pequeno ajuste final a fazer. Eu continuo sendo o Cérebro e você o Corpo. Mas, a partir de agora, você cuidará do batente e eu cuidarei das trepadas. O Cérebro precisa controlar o Corpo. Para provar minha onipotência, preciso corneá-lo e agrilhoar suas “bolas” de touro. Restringirei o raio de ação de sua “vara” e limitarei o seu alcance. Minha “pica” sobrepujará sua “vara”. Já fiz os cálculos e terei a liberdade sexual. Vou controlar sua “vara” com minha vontade onipotente, e impor limitações às suas aspirações; e, se violá-las, você estará sujeito à pena de mote… Terei acesso à mulher branca e à mulher negra. A mulher negra terá acesso a você – mas também a mim. A mulher branca terá acesso a mim, o Administrador Onipotente, mas não permitirei que ela chegue até você, o Criado Supermasculino. Sujeitando sua masculinidade ao controle de minha vontade, estarei também lhe controlando. A haste do Corpo, o pênis, deve submeter-se ao desejo do Cérebro.

– Era a solução perfeita, apenas não funcionava. Soment conseguiu ocultar a verdade. Na verdade, não se pode dissociar o pênis do Corpo! Nem mesmo o Cérebro, o Administrador Onipotente, pode fazer isto! Mas pode-se capturar o corpo num momento de excitação, numa frustração violenta e cheia de ódio por esta grande brecha do plano perfeito, esta chave-inglesa da máquina perfeita, amarrar o Corpo na árvore mais próxima e arrancar o seu estranho fruto, conservando-o numa garrafa e levando-o para casa para entregá-lo à linda loura estúpida e, depois, regozijar-se na mentira de que não o Corpo, mas o Cérebro é o homem.

O Lázaro parou de falar e ficou sentado com a boca aberta. Sua respiração estava acelerada, como se tivesse corrido e ficado sem fôlego. O Eunuco à minha esquerda arregalara os olhos e ficara fitando o espaço, o que fazia deliberadamente para evitar que alguém percebesse o ar de espanto que, eu sabia, seus olhos certamente refletiam. Os pensamentos recusaram cristalizar-se em minha mente; despejei mais café na minha xícara e assim que a aproximei dos lábios soprei suavemente a superfície espumosa e escura, e fiquei olhando por sobre a borda da xícara para o Infiel, que permanecia sentado com o rosto contorcido, mordendo seu grande lábio inferior como se estivesse lutando para lembrar-se de alguma coisa, ou talvez para compreender ou imaginar algo. Parecia confuso. O Eunuco à minha direita permanecia contemplando o prato de feijão.

De repente, o Infiel levantou os olhos e encarou-me. Via-se no seu olhar uma expressão cruel e mortificada. Eu podia sentir como era grande a sua dor e aflição. Aquilo me fez ter medo – não tanto do Infiel mas de mim mesmo, da minha geração, dos meus colegas, porque não tinha certeza se eu, nós, sabíamos o que fazer ou se aprenderíamos antes que fosse muito tarde, e se seríamos capazes de escapar, algum dia, àquela mesma dor profunda, de mim, de nós mesmos. Parecia-me, naquele momento, e sabia que o mesmo pensamento corria através das mentes de meus colegas Eunucos, que qualquer destino, a morte, a câmara de gás, a cadeira elétrica, o pelotão de fuzilamento, a heroína, o suicídio – qualquer coisa, enfim, seria melhor que submeter-se à terrível e insuportável dor à qual o Infiel aprendera a acostumar-se. Senti um calor latejando em meus culhões. Instintivamente, e com uma sensação de pânico, levei a mão até o meio das coxas quase temendo que minha “vara” tivesse desaparecido, mas ela estava lá, ereta, e apertei-a. Uma onda de vigor rolou pelo meu corpo. Senti-me potente e sabia do que seria capaz, caso nunca traísse a lei da minha “vara”. O Infiel sorriu e, então, tive certeza que ele lera meus pensamentos. Respirou forte e recostou-se na cadeira, começando a falar com voz pausada, quase monótona:

– Certa ocasião, tive uma mulher – não, uma puta! – que tinha um soco como o de Sugar Ray Robinson. Eu era obrigado a nocauteá-la todas as noites de sábad. Começava sempre uma discussão e, depois, avançava contra mim, igual a um homem. Como você pensaria em tratar um puta que não pode viver com você sem brigar? E ela não precisava se enervar comigo para começar a briga. Fiz a experiência. Limitei-me, um dia, a ficar de pé, olhando-a de modo a fazê-la entender que eu não me importava com o que ela dizia, da mesma forma como se lhe dissesse: “Olha, menina, isso é com você. O que quer que possa acontecer, você será a culpada”. PUM! Ela atingiu-me na boca. Foi então que cheguei à conclusão de que ela não podia aceitar-me como homem, a menos que agisse como o Corpo, exercendo força física. Não revidei o soco. Fiquei furioso, com a maior raiva que já senti na vida. Na verdade, acho que fiquei momentaneamente fora de mim. Agarrei-a pelo braço, puxei meu canivete de mola – com uma lâmina de oito polegadas – armei-o e obriguei-a a sentar-se no sofá. No momento, podia ver que pensava que tudo estava acabado para ela. Seus olhos ficaram tão grandes quanto os de uma vaca e ela estava realmente apavorada. Coloquei o canivete na mão dela e forcei-a a ficar com ele. Deixei então os braços caírem em torno do seu corpo e pousei a cabeça sobre seu colo. A mulher ficou furiosa. Ameaçou cortar a minha jugular se não saísse dali. Não era meu hábito e tampouco tinha a intenção de levantar-me. Parecia que, se eu o fizesse, não teria o prazer de viver outro segundo. Esta foi a sensação que senti; se me levantasse e a deixasse agir ou tentasse me proteger de qualquer maneira do canivete, não teria outra oportunidade de continuar vivendo. Assim, fiquei prostrado naquela posição com a jugular exposta para ela e para o canivete. Tentei dormir. A princípio, ela tentou tirar minha cabeça do seu colo, depois parou e, então, começou a chorar. Eu podia sentir os soluços sacudindo o seu corpo. Mas mantive os olhos fechados e continuei tentando dormir. Não tive sonhos nem nada. Foi um sono profundo, pacífico e suave. Posso ainda lembrar o êxtase daquele sono. Nunca na minha vida experimentara coisa tão igual, tão cheia de felicidade. Quando acordei, ela segurava minha cabeça deitada no seu colo e seu rosto possuía um brilho virtuoso e maravilhoso, uma expressão extremamente estranha em comparação com tudo que eu vira antes. Então, lembrei-me do canivete e um grande temor se apoderou de mim. Saltei para o chão e olhei ao redor. Ela fechara o canivete, quebrara a lâmina e o atirara no chão do quarto. Meu estômago tremeu quando imaginei a grande chance que eu tivera.

– Afinal, ficamos em paz durante cerca de um mês. Nossas relações foram insufladas com nova vida e vitalidade. Durante aquele tempo não tivemos uma única briga, nenhuma palavra áspera passara entre nós. Aquela pedra, aquele aço (que eu odeio na puta negra!) desaparecera. E, estranhamente, senti-me agindo com naturalidade, sem pretensões a respeito dela. Parecia, naqueles dias, como se estivéssemos dançando, perfeitamente, no ritmo e no passo um do outro. Um dia, então, estávamos passeando de automóvel e avancei um sinal amarelo um pouco tarde demais, e logo um tira de motocicleta veio ao meu encalço.

– Hê, rapaz – disse ele para mim. – Você não sabe distinguir cores?

Não queria uma multa e, portanto, decidi falar com ele francamente. Fiz a minha parte, dei-lhe um grande sorriso e expliquei que realmente lamentava o ocorrido, que pensara poder ultrapassar o sinal a tempo, mas meu carro era muito velho e vagaroso. Ele falou rispidamente comigo, e lançou-se em um longo discurso sobre a importância de saber obedecer às leis e regulamentos e da impossibilidade de uma sociedade ser controlada e administrada sem obediência às leis. Limitei-me a dizer uma porção de “Sim, Senhor” e “Não, senhor”, e ele mandou que eu fosse andando e que me comportasse como um bom menino. Quando arranquei, lancei o olhar para minha mulher e vi que estava de mau humor. Aquela doçura do mês anterior desaparecera e eu podia sentir novamente a pedra e o aço. Quando chegamos em casa, ela começou a discutir comigo, mas recusei-me a responder.  Sem dizer nada, arrumou e empacotou seus pertences e deu no pé. A puta me virou pelo avesso. Nunca fora deixado daquela maneira tão repentina! Ela arrumou um outro macho. E costumavam brigar até na rua. O cara se acostumou a gostar de brigar tanto quanto ela. Foram muito felizes juntos. Mais tarde, ela matou o sujeito. Enfiou-lhe umas balas no corpo em plena rua, como se fosse um cachorro – e, por fim, venceu a questão no tribunal. Consideraram homicídio justificável.

– Então, a puta mudou de nome e começou a cantar como profissional. Cantava bem mesmo, e o seu nome e retrato estavam em todas as revistas e jornais. Eu costumava ver suas apresentações nos night-clubs. Aí, adivinhem o que ela fez. Casou-se com um homem branco! O cara era um duro, um vagabundo, não tinha nada vezes nada. Não tinha nem um tostão quando casou-se. Ela lhe dava todo o dinheiro. Ele controlava sua conta bancária e comprou um grande e extravagante cabaré. Depois, divorciou-se dela. A puta perdeu a bossa artística e começou a cair, cair, cair. Seu potencial de ganhar dinheiro reduziu-se. E pôs a vida totalmente de lado e começou a cantar músicas de igreja. O spiritual. Entrou para a igreja e tornou-se uma verdadeira religiosa. Todos dizem que ela se apaixonou por Jesus e que encontrou nele, finalmente, seu homem certo. E é onde ela está neste momento, naquela igreja.

– Desde então, passei a acreditar que, para uma mulher negra, casar com um homem branco é como acrescentar a estrela final à sua coroa. É o ápice da realização a seus olhos e aos de suas irmãs. Reparem quantas celebridades negras casaram com homens brancos. Todas as mulheres negras que não são celebridades desejam sê-lo também para que possam casar com homens brancos. O branquela é o seu príncipe encantado. Quando elas beijam você não é realmente você que estão beijando. Fecham os olhos e imaginam seu príncipe encantado branco. Ouçam este segredo… Jesus Cristo, o puro, é o noivo psíquico da mulher negra. Você aprenderá antes de morrer que, durante a cópula e no momento do orgasmo, a mulher negra, nas primeiras convulsões de seu espasmo, grita o nome de Jesus. “Oh, Jesus, estou terminando!”, grita ela no auge da excitação. Isto, para você, é uma dor. É como uma faca atravessando seu coração. É o mesmo que sua mulher, durante o orgasmo, gritar o nome de um cara mesquinho que mora no mesmo quarteirão.

– Agora, há uma coisa que quero dizer e que está diretamente relacionada com isto. Para ser franco, nunca compreendi isso e não acredito que jamais consiga. Mas eu vi o negócio funcionando e pode ser que vocês, irmãos, compreendam, o que lhes será útil e os auxiliará. Existe uma doença nos brancos que se localiza no centro de sua loucura e os faz agir de maneiras diferentes. Mas existe uma destas maneiras que os obriga a agir de tal modo que parece contradizer tudo que conhecemos a respeito dos branquelas, e que choca muitos negros quando os encontram… Existem homens brancos que lhes pagarão para que trepem com suas esposas. Eles se aproximam de você, e dizem: “gostaria de foder uma mulher branca?” “O que quer dizer?” Você pergunta. “NO toma lá, dá cá”, ele garante. “É muito simples. Ela é minha mulher. E precisa de vara de negro, é tudo. E precisa mesmo. É como um remédio ou uma droga para ela. Precisa mesmo. Eu pagarei. É tudo no sério, nada de truques. Interessado?” E você vai até a casa dele. Os três vão para o quarto. Há um certo tipo que deixa você e a mulher dele sozinhos, e ainda pese que você lhe dê uma boa surra de pica. Quando tudo termina, ele lhe paga e o leva de automóvel para onde você quiser ir. Também há aquele tipo que gosta de espreitar pelo buraco da fechadura para ver voc~e trepar a mulher dele. Ou, então, fica espreitando pela janela, ou pede para ficar deitado embaixo da cama para ouvir o ranger das molas enquanto você come mulher. Há um outro tipo que adora trepar com a esposa depois de você ter terminado o serviço. E há aquele que quer que você trepe com ela só um pouco, o tempo suficiente para que ela dê a partida, engrene o motor e esquente a máquina; e depois pede que você largue o osso rapidamente para que, então, ele salte sobre ela e, juntos, façam o resto sozinhos.

Não me ocorreu ainda dizer nada; e eu não sabia o que dizer. Estava indignado com o Infiel e senti repulsa pelo seu monólogo e pela importância que pareceu dar a essas questões. Meus sonhos pairaram em outros lugares e não conseguia avaliar as coisas que me falara. Continuei sentado, saboreando a estranha qualidade da emoção que tomara conta de mim. Não me recordo de quando o Eunuco à minha esquerda começou a falar, pois a princípio sua voz era para mim apenas um som, um som nebuloso e incoerente, e somente mais tarde comecei a distinguir as palavras:

-… já estou cheio! Seu velho Lázaro. Tudo o que você disse foi enrolação, tudo já morreu e está fedendo, tudo foi desvirtuado e desordenado, sem pé nem cabeça.

O Eunuco tinha um jeito desafiador, com o maxilar retesado.

-Sim, eu sei – disse o Infiel – e vocês, gente moça, vêem aproximar-se a grande oportunidade para mudar tudo isto. Todo o homem com um plano fantástico vê sua chance próxima… Mas, mesmo assim, você tem de admitir que o homem branco é cheio de merdinhas. Ele nos depena ou não, bah? Por acaso não toma conta do negócio? Preocupa-se com os negócios que são bons para ele, fica empolgado e limpa todo mundo, inclusive ele próprio. Agora me digam, não é uma vergonha do caralho?

O infiel olhou para um de nós. Ninguém lhe respondeu. Apenas o encaramos, seu rosto, seus olhos, sua pele de chocolate mole. Então, ele caiu na risada, dando gargalhadas até estremecer sua estrutura obesa. Ninguém sabia porque ele estava rindo. Aquilo partia do interior dele, mas seu rosto parecia estar sofrendo como se não estivesse gozando o sorriso. Várias vezes tentou dizer alguma coisa, mas sempre era dominado pelas gargalhadas. Finalmente, deixou escapar:

-… vocês foram obrigados a reconhecer as qualidades de uma pessoa que detestam – e continuou em outro espasmos de grunhidos e risos abafados.

Quando a gargalhada morreu, ele começou a batucar sobre a mesa com seus dedos pequenos e gordos.

– Certa vez, eu tinha um grande amigo – disse. – Crescemos juntos… e não importa em que lugar. Ele foi o melhor amigo que tive, mais íntimo do que um irmão. Éramos mais apegados que dois peixinhos num aquário, um sempre atrás do outro. Quando éramos garotos fizemos um juramento de irmãos de sangue, como os guerreiros índios. Só eu e ele. Fizemos um pacto nos comprometendo a ser camaradas a vida inteira.

Sua lembrança hesitou um momento. Minúsculas gotas de suor brotaram em sua testa.

– Mas alguma coisa aconteceu e eu… eu… fui embora… não o vi nem ouvir falar dele durante muitos e muitos anos. Então, finalmente. Voltei… para aquele lugar. Eu tinha de rever mais uma vez a velha cidade. E resolvi sair a procura do meu grande  amigo. Depois de muito procurar, vim a saber que ele se encontrara numa instituição. Uma instituição para doentes mentais. Ele estava lá desde a minha partida, durante todos aqueles anos. Assim fui vê-lo. Mudara completamente, tanto que não acreditei que pudesse reconhecê-lo, se não fosse pelos seus olhos. Jamais esqueceria aqueles olhos, jamais. Tinha os olhos como, segundo dizem, os de Jomo Kenyatta, o olhar firme que atravessa uma parede de tijolos.

O infiel levantou uma das mãos e apontou para o Eunuco à minha esquerda.

– Meu amigo  tinha seus olhos, justamente como os desse irmão aqui – disse ele.

Seu rosto mostrou uma fisionomia confusa e temerosa por alguns momentos, mas ele rapidamente dominou-a. O Eunuco à minha esquerda mudava a toda hora de posição na cadeira. –Mas ele reconheceu-me, meu amigo reconheceu-me – disse o infiel. – Imediatamente lembrou-se de quem eu era. Não me apagara em sua memória, como se poderia pensar depois de todos aqueles anos. No memento em que eles o trouxeram até mim na sala de visitas, pude ver que ele me reconhecera, embora não tivesse dito o meu nome, Sentamo-nos numa pequena mesa e ele disse: “Ah, nunca pensei que você viesse aqui! Agora podemos começar nosso grande empreendimento! Transformaremos toda Europa orgulhosa num bordel internacional, e os homens de todas a partes da terra farão sua peregrinação até lá, e fertilizarão o exaurido solo humano com sua rica e variada semente!” Eu nada lhe disse, e  nada podia dizer. Apenas ouvia. Ele falou e falou. Transportou-me longe, bem longe no tempo. Chegou então a hora de ir-me embora,.  Prometi-lhe que voltaria no dia seguinte. Eles o levaram. Eu nunca voltei. Mesmo quando lhe prometi, sabia que nunca mais voltaria, nunca mais.

O infiel fês uma pausa e respirou fundo. Lutava consigo mesmo, lutava para manter sob controle algo muito poderoso e impetuoso. Podia-se sentir a força terrível da agonia varando-lhe o interior do corpo.

– Ele morreu duas semanas depois, meu amigo se matou… ferindo-se propositalmente, batendo com a cabeça contra a quina de concreto.

Durante alguns minutos, ninguém falou. Cada um estava submerso nos próprios pensamentos. Finalmente, o Eunuco à minha esquerda, em tom frio, gelado, disse:

– você, seu Lazaro porco. Você o matou. Você o assassinou. Você o traiu!

O infiel fez como se fosse responder, mas o esforço morreu. O Eunuco à minha esquerda disse para o Infiel:

– Seu problema, meu velho Lázaro, é que você não pode suportar a visão do sangue do feitor.

O Infiel olhou surpreso.

-O mundo – disse ele vagarosamente – não pode suportar outro banho de sangue.

– O mundo é hemofílico – retrucou o Eunuco. – Veja bem! Quando foi que o mundo parou de sangrar? Nunca; nem por um momento deixou de sangrar; e está sangrando em algum lugar neste exato momento. Agora mesmo, enquanto estamos sentados aqui conversando, alguém  em algum lugar está se precavendo de alguém, de algum inimigo. Na África, Ásia, Europa, América do Sul, e bem aqui no bom e velho Estados Unidos da América, o sangue está sendo derramado. Vá ouvir o rádio ou a televisão neste momento e as primeiras noticias que ouvir serão de sangue, de total de mortos. Vá pegar um jornal ou uma revista e as  mesmas estarão encharcadas de sangue. O sangue pinga do vídeo da TV. Então porque fica chocado em ouvir falar de sangue?

-Sim, o mundo está sangrando – disse o Infiel – mas está sangrando para morrer. Quanto tempo vai durar?

Estremeceu com a própria pergunta.

– O sangue é um lubrificante – disse o Eunuco à minha esquerda. – Amacia a passagem e permite que um povo escape do laço mais apertado. Você não esburaca uma represa, homem, você a dinamita!

-Você está sedento de sangue! Observou o infiel falando diretamente ao Eunuco à minha esquerda. – Mas isto não será assim!

– Sim! – respondeu o Eunuco. Estou sedento de sangue… de sangue do homem branco. E, quando eu beber, quero beber bastante porque tenho uma grande sede a saciar. Quero beber por cada homem, mulher e criança negras arrastadas das costas da África para o matadouro, por casa um dos meus irmãos e irmãs que  sofreram desamparadamente nos porões imundos dos desgraçados navios negreiros… por seu amigo que esmigalhou o cérebro naquela casa de loucos… quero beber o sangue do homem branco por casa grama da minha carne e sangue que ele esmagou e rasgou nas ilhas do Caribe, por todas as almas de gente negra dilacerada nos campos fétidos do Velho Sul – e do Norte, do Leste e do Oeste, quintos dos infernos da América do Norte! Apenas o sangue do homem branco pode lavar a for que sinto. Você se encolhe quando se fala em derramar o sangue do homem branco seu velho Lázaro, mas eu lhe digo que o dia está próximo em que marcharei sobre o legislativo de Mississipi com uma metralhadora fervendo em minhas mãos e os bolsos de granadas. Já que terei de morrer, então certamente vou matar.

– Não – disse o Infiel. – Não. Mais sangue apenas acrescentará um crime ao outro. Não!

Levantou-se subitamente da mesa, olhou para cada um de nós como se estivesse rogando, como um criminoso diante do júri que ele sabe estar na iminência de mandá-lo para a câmara da morte. Respirou profundamente como fizeram antes, e deixou os ombros caírem.

– Sangue em cima de sangue; crime em cima de crime; tijolo de sangue em cima de tijolo de sangue de uma nova e louca Torre de Babel que, também, desmoronará… Não pode haver triunfo no sangue.

Depois, o Infiel virou-se e afastou-se da mesa aos tropeções, balbuciando alguma coisa.

Observamos sua partida. Parou e olhou para trás, em nossa direção como se esperasse ou tivesse a esperança de que nós o chamássemos de volta. Então, tornou a virar-se e desapareceu de nossas vistas, de nossas vidas.

CLEAVER, Edridge – A alegoria dos Eunucos Negros, Alma no Exílio – Civilização Brasileira – ed brás 1971 pp 145-164

Grupos de estudos KILOMBAGEM www.kilombagem.org

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Publicado em 5 de julho de 2011, em LEITURA OBRIGATÓRIA e marcado como , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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