Cultura e colonização por Aime Cesaire

texto extraído do site: http://www.buala.org/pt/mukanda/cultura-e-colonizacao

Desde há alguns dias que muito nos temos interrogado sobre o sentido deste Congresso2.

Interrogámo-nos em particular sobre qual o denominador comum a uma assembleia que une homens tão diversos, como africanos da África negra e norte-americanos, antilhanos e malgaxes.

A resposta parece-me evidente: esse denominador comum é a situação colonial.

É um facto que a maior parte dos países negros vive sob o regime colonial. Mesmo um país independente como o Haiti é, com efeito, em muitos aspectos, um país semi-colonial. E mesmo os nosso irmãos americanos estão colocados, através do jogo da discriminação racial, de um modo artificial e no seio de uma grande nação moderna, numa situação que só se compreende por referência a um colonialismo que foi certamente abolido, mas cujas sequelas não deixam de ressoar no presente.

Que significa isto? Significa que, por muito que desejemos preservar toda a serenidade durante os debates neste Congresso, não podemos, se nos quisermos manter próximos da realidade, deixar de abordar o problema daquilo que, actualmente, condiciona, em particular, o desenvolvimento das culturas negras: a situação colonial. Dito de outro modo, queira-se ou não, não se pode colocar actualmente o problema da cultura negra, sem colocar ao mesmo tempo o problema do colonialismo, pois todas as culturas negras se desenvolvem no momento actual dentro deste condicionamento particular que é a situação colonial ou semi-colonial ou para-colonial.

***

Mas, dir-me-ão, o que é a cultura? Importa defini-la para dissipar um certo número de mal-entendidos e responder de maneira muito precisa a um certo número de preocupações que foram exprimidas por alguns dos nossos adversários, mesmo por alguns dos nossos amigos.

Por exemplo, houve quem se interrogasse acerca da legitimidade deste Congresso. Se é verdade, como se disse, que não há cultura a não ser a nacional, falar de cultura negro-africana não será falar de uma abstracção?

Mas quem não vê que o melhor meio de resolver o impasse é definir com cuidado as palavras que utilizamos?

Penso que é bem verdade que apenas existe cultura nacional.

Mas é evidente que as culturas nacionais, por muito particulares que sejam, se agrupam por afinidades. E esses grandes parentescos de cultura, essas grandes famílias de culturas, têm um nome: são civilizações. Dito de outra forma: se é evidente que há uma cultura nacional francesa, uma cultura nacional italiana, inglesa, espanhola, alemã, russa etc., não é menos evidente que todas estas culturas apresentam, a par de diferenças reais, um certo número de semelhanças gritantes que fazem com que, se se pode falar de culturas nacionais, particulares a cada um dos países que acabei de enumerar, também se pode falar de uma civilização europeia.

Do mesmo modo pode falar-se de uma grande família de culturas africanas que merece a designação de civilização negro-africana e que cobre as diferentes culturas próprias a cada um dos países da África. E sabe-se que as transformações históricas fizeram com que o campo dessa civilização, a área dessa civilização, exceda em muito a África; e é nesse sentido que se pode dizer que há no Brasil ou nas Antilhas, tal como no Haiti e nas Antilhas Francesas ou mesmo nos Estados Unidos, se não focos, pelo menos franjas, dessa civilização negro-americana.

Não se trata de uma visão que invento por necessidade da causa, é uma perspectiva que me parece estar implícita na abordagem sociológica e científica do problema.

O sociólogo francês Marcel Mauss definiu a civilização como “um conjunto de fenómenos suficientemente numerosos e importantes que se alargam a uma extensão considerável de território”. Pode daí inferir-se que a civilização tende à universalidade e que a cultura tende à particularidade; que a cultura é a civilização enquanto própria de um povo, de uma nação, partilhada por mais nenhuma, e que transporta, indelével, a marca desse povo e dessa nação. Se a quisermos descrever do exterior, diremos que é o conjunto dos valores materiais e espirituais criados por uma sociedade no decurso da sua história – e, bem entendido, por valores é necessário entender elementos tão diversos como a técnica ou as instituições políticas, uma coisa tão fundamental como a língua e uma coisa tão fugaz como a moda; tanto as artes, como a ciência ou formas de relacionamento.

Se, pelo contrário, a quisermos definir em termos de finalidade e apresentá-la no seu dinamismo, diremos que a cultura é o esforço de toda a colectividade humana para se dotar da riqueza de uma personalidade.

Quer dizer que civilização e cultura definem dois aspectos de uma mesma realidade: a civilização define o contorno extremo da cultura, aquilo que a cultura tem de mais exterior e de mais geral; a cultura constitui, por seu lado, o núcleo íntimo e irradiante, o aspecto, em todo o caso, mais singular da civilização.

Sabe-se que Mauss, ao buscar as razões da compartimentação do mundo em “áreas de civilização” claramente definidas, as encontrava numa qualidade profunda, comum, segundo ele, a todos os fenómenos sociais e que definia com uma palavra: o arbítrio. “Todos os fenómenos sociais”, precisava, “são em certa medida, obra da vontade colectiva, e quem diz vontade humana, diz escolha entre diversas opções possíveis… Decorre desta natureza das representações e das práticas colectivas que a área da sua extensão, enquanto a humanidade não formar uma sociedade única, é necessariamente finita e relativamente fixa.”

Assim, toda a cultura seria específica. Específica, porque obra de uma vontade particular, única, porque escolhendo entre opções diferentes.

(…)

pode continuar a ler em  MALHAS QUE OS IMPÉRIOS TECEM. TEXTOS ANTI-COLONIAIS, CONTEXTOS PÓS-COLONIAIS


Quem é Aimé Césaire.

Martinica (1913 – 2008). Ideólogo do conceito de negritude, defensor maior das raízes africanas e militante anti-colonialista, Césaire foi ainda um dos maiores poetas surrealistas do mundo, de acordo com André Breton.
Depois de se destacar com um aproveitamento escolar brilhante na Martinica, conquista uma bolsa que lhe dá acesso a Paris, onde rapidamente se interessa e escreve sobre as raízes africanas. Na capital da colónia do seu país funda o jornal L’Étudiant noir, em 1934. É nesta publicação que aparece, pela primeira vez, o conceito de negritude que irá influenciar tanto políticos como intelectuais por todo o mundo numa defesa crítica da África negra e sua independência. Em 1937 regressa a Martinica, onde casa, lecciona na área de Letras e funda a revista Tropiques, que configura mais um esforço na defesa e identificação da identidade da Martinica. Durante a II Guerra Mundial, André Breton desloca-se ao arquipélago caribenho onde trava contacto pessoal com Césaire, por cuja poesia fica fascinado, prefaciando o seu livro Les Armes Miraculeuses. Após uma viagem ao primeiro país libertado do colonialismo, que conquistou a sua independência por uma revolta dos escravos, o Haiti, Aimé Césaire dedica-se à política praticamente até ao fim da sua vida: é eleito presidente da câmara de Fort-de-France e deputado, entre 1945 e 2001, primeiro pelo Partido Comunista Françês e, depois da desilusão com a União Soviética, em 1956, pelo Partido Progressista da Martinica de que é fundador e cujo programa prevê a libertação do jugo francês e a instauração de um socialismo autónomo na Martinica fora da esfera soviética.
Apesar de, em 1946, ser o relator da lei que eleva à categoria de Departamentos Franceses várias das colónias francesas (o que representou alguma autonomia real mas que lhe mereceu duras críticas dos independentistas), Césaire vai manter até ao fim da sua vida uma forte e radical oposição ao colonialismo e ao racismo europeus, encabeçando várias lutas políticas e intelectuais nesse sentido.
Sempre ligado ao surrealismo, Césaire produz uma extensa obra poética traduzida em diversos países, sem nunca deixar de tratar, em diversas publicações, as questões da negritude, colonialismo, racismo e identidade africana. Sobre o homem, o poeta e o político foram produzidas imensas obras, desde filmes a biografias e ensaios sobre os livros.

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Publicado em 5 de julho de 2011, em LEITURA OBRIGATÓRIA e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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