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Minhas experiências com o “Caso Pinheirinho”

Por Felipe Choco (Grupo Kilombagem)    

 Se fossemos categorizar o que humanamente representa um choque, poderemos dizer que temos dois tipos, ou duas fases: há aquele choque que de tão forte, nos gruda, nos derrete, nos paralisa. Outro tipo é o choque que nos expele, quase como em uma catapulta, que consciente ou inconscientemente nos mobiliza, tira-nos da inércia do corpo parado, sem movimento.

     A invasão das polícias e guardas locais e estaduais de São Paulo no bairro Pinheirinho em São Jose dos Campos (SJC) foi um Choque para além da Tropa. Mentiras, conversas e informações desencontradas, traições criminosas por parte do governo do Estado, quebra de pacto federativo, documentos judiciais praticamente adulterados, arbitrariedade e declaração de guerra, dentro do que foi calculado como um “estupro social” e a nítida expressão do “ódio ao povo trabalhador, pobre”.

credito: Roosevelt Cassio

     O que dizer a uma criança que aos 10 anos vê o seu querido cachorro de estimação ser alvejado a sangue frio por um homem de farda, respaldado por poderes inimagináveis pela mente infantil? Aos dez anos de vida pouco importam as razões para tal. Algo que se tinha afeto morreu. E de forma brutal.

     O que dizer sobre a impotência de um adolescente de 13 anos ao tentar defender o teto de sua família, seu espaço onde “cair vivo”, portando apenas um estilingue com uma mochila cheia de pedras, contra 2.000 policiais, dois helicópteros, sprays de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo, armas menos letais – com balas de borracha – e armas extremamente letais– com balas de ferro e pólvora?

credito: andre nery folha pe

     Oito anos de construção da vida – no bairro. Oito mil pessoas – no barro. Oito dias após esse ataque de guerra do governo de São Paulo em 22 de Janeiro de 2012, contra o fruto do desenvolvimento desigual e combinado do sistema do capital, netos da Lei de Terras e do pós-abolição, 507 relatos foram colhidos dos moradores socializados na igualdade de estarem sem moradias, por homens e mulheres embebidos da inércia do corpo em movimento, após o choque da invasão. Bom, seja a parcela que tomou posição a favor ou contrária à invasão orquestrada pelo maestro Geraldo Alckmin, o que é fato é que não se pode ficar indiferente. “É a ideologia, estúpido!”, nos diria Slavoj Zizek no seu livro “Primeiro como Tragédia, Segundo como Farsa”. Há ainda quem duvide disto?

     Se engana quem pensa que a justiça é cega. Cega ela nunca foi, porque sempre olhou muito bem para seus protegidos. Classista, pró proprietários. Mudam-se os nomes e ramos dos beneficiados, porém, a parte que os cabem nesse latifúndio está, na maior parte das vezes, muito bem protegida. Donos de terras, bancos e empresas. Vários. Empresários!

     O senhor Naji Nahas, libanês com cidadania brasileira, grande especulador financeiro, pivô da quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1989, dono da Selecta, conglomerado de 27 empresas, estranha proprietária da área que compreende o que restou do bairro Pinheirinho, sabe bem o que é justiça. Como não saberia, já que mais uma vez a justiça lhe devolveu o que é seu, digamos, pelo Direito. Com a reintegração da posse do terreno – que inicialmente a polícia disse aos moradores que era apenas uma operação “pente fino”, até acionarem o “pente do chumbo grosso” – esse senhor ganha e muito com a venda do mesmo, para que se desconte da dívida com a prefeitura, parte de sua massa falida. Aliás, o que são 1.600 famílias de trabalhadores, perto de um empresário e dos possíveis rendimentos dessas terras?

     Bom, palavras são coisas, são representações do real; e no momento o que é comum aos refugiados do Pinheirinho é que todos ficaram sem palavras!  

creditos: anderson barbosa

     Com o objetivo de ir contra esse fator, que retomo a ideia posta acima sobre a coleta dos relatos da ação criminosa, a fim de apurar os fatos, a partir de quem vivenciou e estava desarmado nisso tudo. Dentro de uma ação respeitosamente articulada pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE), durante praticamente toda a segunda-feira do dia 30 de Janeiro de 2012, em SJC, onde voluntários doaram seu tempo para o objetivo de apurar a verdade do que ocorreu, tendo como ponto máximo a Audiência Pública na Câmara dos Vereadores da cidade, a qual contou com a presença e de relatos que chocavam a cada palavra desde pessoas até então anônimas para a nossa república federativa, até representantes do movimento dos moradores, parlamentares e representantes diretos do governo federal.

     Até um procurador da república, secretário nacional de articulação social, relatou em referência ao dia da invasão covarde, que estava no local pelo motivo de ter uma reunião agendada as 09:00h com os interessados no futuro da área e das famílias em questão, crente de que estava vigorando a liminar que dava mais 15 dias de respiro para os moradores, teve de correr dos policiais durante a invasão e retornar com a lembrança de seu próprio ferimento causado por um tiro de arma menos letal – de bala de borracha.

     Ouvir que a ordem dada aos funcionários do Hospital Público Municipal de São José dos Campos era de receber todos os feridos enquanto indigentes e liberá-los enquanto indigentes, dói aos ouvidos e causa um rebuliço no estômago. Mesmo quando já esperamos tal atitude.

     Saber que guardas civis municipais deram tiros com armas de fogo em direção da população, sem distinção, da mesma forma em que o sistema do capital abstrai a individualidade dos indivíduos que produzem as riquezas sociais, e exploram sem distinção desde que a valorização do valor (capital) seja garantida, nos demonstra que naquele momento, qualquer bala perdida encontrada no corpo de qualquer ser humano indesejável cumpriria sua função. Nisso, um corajoso indivíduo de nome David, encontra-se num hospital se recuperando do resultado de uma dessas balas sem distinção que atingiram ligamentos de seu corpo próximo à região da coluna vertebral, deixando-o com a perna esquerda sem os movimentos. Fato que ocorreu quando tentava proteger a vida de seu filho.

     Ouvir relatos de pessoas dizendo que perderam seus empregos por terem faltado apenas um dia para o exercício de sua função, em razão da confusão que gerou a reintegração, simplesmente por serem “descobertos” como “ex-moradores do Pinheirinho”, no momento em que mais necessitam de uma seguridade financeira, é de balançar qualquer estrutura emocional! O emprego a ser perdido deveria ser dos mandantes e executores dessa barbárie.

     Por parte do governo federal, espera-se mais que a lamentação, sobre o que em 1977 Fela Kuti cantou em referência ao fruto da invasão da polícia nigeriana à Comuna de Kalakuta, isto é, tristeza, lágrimas e sangue (sorow, tears and blood). Desapropriar o terreno e atrelá-lo a um projeto habitacional passa a ser a medida cabível e legalmente possível. Primeira dose do remédio anti-trauma. Inclusive, muitos apontaram que tal medida já está atrasada. Pois poderia ter evitado esse episódio catastrófico.

creditos: Reuters - roosevelt cassio

     Se para Gyorgy Lukács o ponto mais alto do ser humano é a arte, por expressar o empírico da existência individual vivida no cotidiano, em conexão com a experiência humana genérica, geral nas suas relações e expressões, podemos dizer que a arte da guerra, pintada por Eduardo Cury (prefeito de SJC), Geraldo Alckmin (governador de SP), juíza Márcia Loureiro, juiz estadual Rodrigo Capez e Coronel Messias, contra a população excedente (para as empresas e governo), contra os indesejáveis de São José, pode ser colocado como o ponto mais baixo do que se pode chamar de humanidade, ao se referir à figura dessas pessoas e instituições representadas.

     Como bem nos alarmou Istvan Meszaros quando em sua última passagem por São Paulo, em julho de 2011, o que nos resta é: “Socialismo, ou, Barbárie se tivermos sorte”. Nisso, a vida segue, mas traumas permanecem. Porém, a melhor citação que caberia para o momento seria a do grande rábula (advogado não diplomado do século XIX) Luiz Gama, um dos melhores, senão o melhor entre os abolicionistas em sua época, quando proferiu publicamente: “O escravo que mata o seu senhor, em quais circunstâncias for, o faz em legítima defesa!” 

     Muitas águas ainda estão para rolar no seguimento do fevereiro que é carnaval, e das águas de março. Audiências públicas, relatórios a serem entregues às instâncias municipal, estadual, federal e aos órgãos internacionais, a fim de que os bárbaros causadores da barbárie sejam responsabilizados. Há muitas outras informações que não estão escritas nesse texto. Escrevê-las todas não é o objetivo do que está sendo exposto, até porque relatórios contendo a integridade dos fatos, inclusive das articulações de bastidores, estão sendo produzidos para tornarem-se públicos. O que deve ser entendido nessas linhas é que a tragédia está posta, só tomemos muito cuidado com as farsas!                 

                                                       Felipe “Choco”, 01 de Fevereiro de 2012        

Carta Aberta em defesa da Saúde da População Negra em Santo André

 

 

 

 

 

 

 

Carta que será entregue pelo Movimento Negro à Prefeitura de Santo André- SP reinvindicando a retomada das políticas de saúde da população negra

 

 

 


Santo André, 16 de maio de 2011

 

A/C do Secretário da Saúde Sr. Nilson Bonome

C.C.: Conselho Municipal de Saúde de Santo André

C.C.: Comissão de Políticas Públicas do Conselho Municipal de Saúde

Excelentíssimo Sr. Nilson, vimos por meio desta solicitar explicações pelo não funcionamento do Comitê Técnico de Saúde da População Negra e a interrupção das ações previstas no Plano Municipal de Saúde da População Negra.

Buscando superar as desigualdades raciais em saúde, o Ministério da Saúde publica em 2008 uma Portaria com o Plano Operativo da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra – PNSIPN aprovada nas três esferas de gestão do Sistema Único de Saúde. Em dezembro deste mesmo ano, o Conselho Municipal de Saúde do Município de Santo André dá um passo à frente no debate sobre a equidade racial em saúde na região e aprova o Plano Municipal de Saúde da População Negra.

Este Plano, aprovado pelo conselho e fruto de intensa mobilização da sociedade civil e principalmente representantes da secretaria municipal de saúde, prevê ações de fortalecimento ao controle social; aprimoramento dos sistemas de informação e fomento à pesquisa sobre condições de saúde da população negra, capacitação dos profissionais para implementação do quesito cor, identificação e enfrentamento do racismo institucional e a transversalização da temática saúde da população negra nas políticas estratégicas da secretaria de saúde.

Para buscar viabilidade institucional e garantir a implementação do Plano, em 2009 foi criado no âmbito da Secretaria Municipal de Saúde e aprovado pelo Conselho Municipal de Saúde o Comitê Técnico de Saúde da População Negra, com participação garantida à integrantes do Conselho Municipal de Saúde e representantes do movimento negro do município. O funcionamento do Comitê, bem como a nomeação de representantes da gestão municipal seriam atribuição da Secretaria Municipal de Saúde.

No tempo de seu exercício o Comitê deliberou ações importantes tais como: a inserção da temática no âmbito do Departamento de Atenção à Saúde, articulação com o Programa de Aids e a realização da primeira fase da Campanha Direitos Humanos e Saúde, realizada em parceria com o Departamento de Humanidades da Prefeitura em 2010. No entanto, estas ações não superaram um caráter pontual e o próprio comitê foi sendo desarticulado..

Até o presente momento a Secretaria Municipal de Saúde não cumpriu seu compromisso de nomear os representantes da gestão para composição oficial no Comitê e este fato levou à trágica desarticulação silenciosa do mesmo enquanto instrumento de promoção da equidade em saúde.

Em conseqüência desta desarticulação, o Plano Municipal de Saúde da População Negra, aprovado pelo Conselho Municipal de Saúde só viu iniciar-se 1 das suas 8 ações estratégicas previstas para 2010-2011. As últimas 3 reuniões do Comitê foram canceladas e nos últimos 5 meses houve apenas uma única reunião que não pôde deliberar nada por falta de quorum e a ausência da representante oficial da gestão municipal de saúde.

A atual conjuntura nos preocupa e levanta o questionamento sobre o compromisso da Secretaria Municipal de Saúde com os princípios do SUS, haja vista que a equidade em saúde se configura com um dos pilares do sistema que nos obriga a pensar a saúde de acordo com as especificidades das populações. A Prefeitura de Santo André diz que “cuida da cidade”, mas infelizmente não é isso que estamos vendo em relação à saúde da população negra. A Política Nacional de Saúde da População Negra – PNSIPN é uma Lei Federal e o Plano Municipal de Saúde da População Negra, aprovado pelo Conselho Municipal de Saúde trazem prerrogativas que estão sendo ignorados com a desarticulação silenciosa do Comitê Municipal de Saúde da População Negra e a não implementação das ações previstas no Plano.

Lembramos que é responsabilidade da gestão garantir o funcionamento das ações previstas no referido Plano. O papel da Sociedade Civil é monitorar e cobrar o Estado, em casos como este em que as prerrogativas do SUS estão sendo ameaçadas.

A PNSIPN e o Plano Municipal de Saúde da População Negra são respostas às desigualdades raciais em saúde presentes no dia a dia de nossa sociedade e muitas vezes reproduzidas pelo SUS. A invisibilidade desta desigualdade e a morosidade ou inoperância da Prefeitura para responder adequadamente a esta situação, além de ameaçar o fortalecimento do SUS configuram-se como Racismo Institucional.

Assim:

Exigimos explicações sobre a atual conjuntura;

Reivindicamos a rearticulação do Comitê Técnico de Saúde da População Negra e a imediata nomeação oficial dos membros representantes da gestão, considerando as prerrogativas previstas no Plano Municipal de saúde da População Negra e o Estatuto Jurídico do Comitê;

Instamos à Retomada das ações previstas no Plano e retomada do debate sobre o fundo destinado a apoiar tais ações;

Cobramos um Balanço das ações já realizadas pelo Comitê e continuidade na Campanha Direitos Humanos e Saúde, com ênfase no monitoramento das ações de multiplicação de informação sobre a implementação do quesito cor (conforme previsto no projeto da campanha);

Exigimos a Definição oficial do um responsável técnico pela implementação do plano no âmbito da gestão municipal de saúde (conforme previsto no Plano Municipal de Saúde da População Negra

 

Assinam esta carta

ACMUN – Associação Cultural de Mulheres Negras – Paraná

AMNB – Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras

Associação de Arte e Cultura Afro-Brasileira Kizomba

Centro Cultural Capoeirando – Minas Gerais Comunidade Candaces

COMUNIDADE NEGRA DO CAMPANÁRIO

Instituto Afro Brasileiro de Desenvolvimento Econômico e Social do Estado de São Paulo

Fórum Nacional de Juventude Negra – FONAJUNE

 Grupo de Estudo sobre a Mulher – GEM/UFBA (Emanuelle Goes – Pesquisadora – Bahia)
Grupo Kilombagem

Movimento Negro Dandara Nago

MSP Brasil – Movimento Saúde dos Povos Círculo Brasil

Associação de Mulheres Negras Nzinga Mbandi

Negra Sim – Movimento de Mulheres Negras

OAB/CAAD

PPE EDUCAFRO

Projeto Avanço da Comunidade

Programa de Estudos e Debates dos Povos Africanos e Afro- Americanos- PROAFRO – RJ

Rede Nacional Afroatitudes

Rede Nacional de Controle Social e Saúde da População Negra

Rede Nacional Lai Lai Apejo – População Negra e Aids

Rede Sapatá

Fórum Estadual de Promoção da Igualdade racial da Paraíba

Representantes da Sociedade Civil no Comitê Municipal de Saúde da População Negra

Reflexões sobre o Perigo de uma única história

Gostaria de inaugurar esta seção do blog (DESABAFOS)  com este belíssimo vídeo da escritora e contadora de histórias nigeriana Chimamanda Adichie.  Esta seção está reservada para comentários, reflexões e críticas a respeito do contexto que estamos vivendo e achei muito oportuno começar por este vídeo.

Como a minha internet é lenta (na periferia de Santo André – Zona Metropolitana de São Paulo – não existe oferta de banda larga L) fui escrevendo enquanto o filme carregava no youtube…

A autora narra a partir de sua trajetória individual o que ela chama de “o perigo de uma história única” e nos expõe questões centrais para pensarmos a nossa época, inclusive no que tange a Lei 10.639/03. Esta lei, que institui a obrigatoriedade de abordagem no ensino público dos conteúdos referentes à história da África, dos Negros no Brasil e das relações raciais em nossa sociedade, alterada em 2008 para  incluir a obrigatoriedade de abordagem da história indígena(Lei 11.645/08) trás como principal pano de fundo a necessidade de se contar o que Chimamanda chamaria de “outras histórias” ocultadas ou distorcidas pelos séculos de racismo presentes em nossa sociedade.

O vídeo dispensa comentários, mas me provoca a refletir sobre aquilo que é o objetivo central deste blog. Como contar as “outras histórias” (ignoradas ou distorcidas) sem que se perca o uno que nos liga enquanto seres humanos?

A história humana enquanto processo de desenvolvimento do ser humano em seu fazer-se no tempo é um processo dialético, contraditório e articulado de fazeres individuais envolvidos no tempo… este processo é tão intenso e objetivo que se torna impossível a existência de “histórias” individualmente isoladas… cada pessoa tem a sua história individual mas o seu desenvolvimento está profundamente marcado pelos limites e possiblidades de seu tempo, bem como a sua relação com os outros indivíduos… o nosso eu se faz na relação com o outro de tal forma que não pode haver “eu” sem os “outros”.

Neste sentido, a história não é uma construção da nossa subjetividade, como defendem os acadêmicos da “Nova História” mas sim um dado real (objetivo) do nosso fazer-se, seja individual ou coletivo. Falar em histórias portanto é sempre delicado, pq exige pensarmos nas influencias recíprocas de uma “história”com outra, da história do meu grupo com a minha história individual”da história do meu grupo com outros grupos.

Considerando que o capitalismo integrou o mundo sob a sua lógica, a nossa história individual nunca foi tão coletiva, de forma que os indivíduos se relacionam multuamente, mesmo sem se conhecer. A ocupação estadunidense no Iraque influencia diretamente no preço do combustível do caminhão que carrega os produtos que compro todo dia, definindo o meu poder de compra, por exemplo, de tal forma que não da mais pra pensar a história do Iraque como se não fosse (também) a minha história.

Reproduzindo um questionamento presente na historiografia contemporânea podemos nos perguntar: A HISTÓRIA é reconhecimento, memória ou interpretação (subjetiva) ou fato concreto, acontecido (objetivo) mesmo que eu não tenha consciencia da sua influencia em minha vida? Uma reposta possível é que a história do Iraque (pra insistir no exemplo) é a minha história, mesmo que eu não reconheça ou não saiba de sua existência real.

VOCÊ QUE É UM LEITOR ATENTO DEVE ESTAR SE PERGUNTANDO: “Mas e o que a lei 10.639/03 (ou a 11.645/08) tem a ver com esta ‘história’?”

O fato é que a HUMANIDADE é a síntese (e não a soma) do conjunto dos indivíduos articulados e se influenciando reciprocamente. Este é um dado da realidade, independente de nosso reconhecimento sobre isto. Ocorre que o RACISMO aliena a nossa percepção sobre a nossa humanidade de tal forma que passamos a não ver (reconhecer subjetivamente) o negro ou o africano como parte da humanidade. A “HISTÓRIA” DA HUMANIDADE passa a ser contada a partir do europeu de forma que por vezes confundimos o universal com o europeu. Falamos em cultura NEGRA (específica), em música NEGRA(específica) em história NEGRA (específica) mas não falamos em cultura BRANCA,  em múcia BRANCA, em história BRANCA… o Branco (europeu) foi apresentado por eles mesmo desde o sec XIX como UNIVERSAIS a ponto de os negros, mesmo os militantes mais radicais no combate ao racismo não se verem no UNIVERSAL.

Esta dificuldade de nos vermos como universal é um dos frutos do racismo e de séculos de negação da nossa humanidade… de exclusão do negro daquilo que se entende por história (a memória, ou a interpretação dos fatos ou da contação de fatos desconexos). Se o negro foi excluído da história, sobrar-nos-ia, portanto sob o risco de ficar excluídos da “história” a tarefa de contar a nossa história, ou seja, CONTAR OUTRAS HISTÓRIAS.

Aqui está uma armadilha gigantesca que devemos estar alertas:

Se por um lado a história oficial UNIVERSAL (ocidental, judaico, cristã e burguesa) nos privou do direito de reconhecimento e quando aparecemos na história somos pintados como bárbaros ou coitadinhos… por outro lado, a recontagem de OUTRAS HISTÓRIAS ESPECÍFICAS tem a tarefa de desconstruir este imaginário, mas acima de tudo, “recuperar” (reconhecer) os nexos de nossas especificidades com a história da humanidade como um todo. Caso contrario, correremos o risco de novamente fortalecer as idéias racistas do século XIX, idéias estas que afirmavam que não éramos humanos, éramos os outros.

A chave para superarmos O PERIGO DE UMA ÚNICA HISTÓRIA está na própria HISTÓRIA REAL (não como memória ou interpretação de fatos seqüenciais). Ao contrario do que afirmam os racistas, e muitas vezes repetimos inocentemente, quanto mais estudamos a história da humanidade mais se percebe a presença e ativa contribuição dos africanos para o desenvolvimento humano universal. A humanidade surge na África e lá podemos observar o surgimento primeiro de diversos saltos evolutivos em nossa trajetória enquanto ser social.

A contribuição do continente africano para o conhecimento sobre astronomia, metalurgia, geometria, mineração, arquitetura, cultura, religião, artes, filosofia é imperceptível apenas aqueles que estão cegos pelas lupas do racismo forjado no sec XIX. O próprio pensador grego Heródoto (considerado erroneamente como um dos pais da história) reconhece a superioridade dos egípcios frente ao a muitos conhecimentos de altíssima importância à sociedade grega, como é o caso da astronomia e astrologia. (ver slide: introdução ao estudo das civilizações africanas)

A presença africana na cultura brasileira chega a tal ponto que o pensador de esquerda Darci Ribeiro chegou a dizer (inspirado em Gilberto Freire) que o Brasil não é mais um mosaico de raças, mas a síntese de uma mistura. O que o nosso pensador ignora é que esta mistura não impediu o massacre físico e cultural do negro e que até hoje existe um “gradiente de cor” que faz com que a pessoa sofra os efeitos do racismo mais intenso quanto for a coloração da sua pele.

Ocorre que até hoje, QUANDO O NEGRO APARECE NA MÍDIA, OU NA ESCOLA É SEMPRE COMO COITADINHO OU BÁRBARO… isto quando aparece, e isto tem causado impactos horríveis em nossa subjetividade (tanto negros como brancos, embora os últimos se beneficiem deste processo). Chimamanda nos alerta para o fato de que a história ocidental (não só a disciplina de história, mas a forma que nos vemos enquanto seres humanos) tem estado permeado de um olhar que nos desconhece a humanidade, influenciando o nosso pensar e agir sejamos negros ou brancos.

Fui escrevendo este texto enquanto assistia ao vídeo (lembra que a minha internet é lenta né? rs) e confesso que quando cheguei ao final do filme estava em choque… pensei várias vezes em não seguir escrevendo porque o vídeo já havia falado tudo que precisava ser dito no momento. O filme é um tapa na cara que nos questiona sabiamente sobre o que temos feito para ser diferentes de todo este processo de “contação de uma única história”.

Ao trabalhar com a formação de professores e educadores sociais para abordagem dos conteúdos presentes na Lei tenho visto muita iniciativa “bem intencionada” fracassar pelo desconhecimento da historia real da África e da humanidade. Tenho visto que muitas vezes os poucos professores sensibilizados para a importância deste debate só conseguem  falar das contribuições do negro no campo lúdico, confirmando a visão de Hegel de que a África é a infância da humanidade, desconsiderando as contribuições dos africanos para o desenvolvimento humano-universal. Tenho visto militantes negros estudados assumindo desesperadamente uma visão distorcida do que é história (a história como factóides, ou interpretação dos fatos, ou apenas Memória) para se contrapor a esta “história” inventada no sec XIX.

Este é o desafio central da Lei 10.639/03(ou 11.645/08): NÃO É A HISTÓRIA DO NEGRO OU DOS AFRICANOS QUE ESTÁ EM QUESTÃO, não se trata de contar mais uma história. Falar da história da África ou do Negro no Brasil EXIGE SIM RECONTAR A HISTÓRIA DO BRASIL E DA PRÓPRIA HUMANIDADE. O desafio para nós é o que Steve Biko chamava no seu texto “a definição da consciência negra”na BUSCA PELA VERDADEIRA HUMANIDADE. Qualquer coisa abaixo disto será um tiro no próprio pé.

Deivison Nkosi – Professor de História da África

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A obra REflexões sobre o perigo de uma única história de Deivison Nkosi foi licenciada com uma Licença Creative Commons – Atribuição – Uso Não Comercial – Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
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