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A Comunidade Awramba e os quatro pilares da igualdade (gênero, o direito das crianças, a ajuda aos desafortunados, e a honestidade)

Entrevista com o líder Ethiope Zumra Nuru:

Título original: Zumra Nuru: His Awramba Community and His Quest for Utopia. Retirado de: http://www.ezega.com/News/NewsDetails.aspx?Page=news&NewsID=1472

Zumra Nuru, o fundador e co-presidente do Awramba Comunidade

Addis Abeba, Etiópia, 04 de maio de 2009 (Ezega.com) – Zumra Nuru nunca teve a chance de ir à escola. Ele não consegue ler ou escrever. No entanto, como uma criança, ele era um garoto muito curioso. Quando ele tinha 2 anos de idade, ele questionou a mãe sobre religião. Um dia, comeu um pedaço de carne oferecido por seus vizinhos cristãos. Mas de acordo com a tradição, este feito ofendeu sua família muçulmana, incluindo sua mãe. Sua mãe pegou a carne dele e jogou fora. Ele estava muito triste e perguntou a sua mãe, “porque eu não posso ter essa carne?”

Sua mãe respondeu: “ela pertence ao povo cristão”. Zumra perguntou “O que é cristão, eles não são seres humanos?” Sua mãe respondeu: “Sim, eles são”. Zumra seguido de “Não somos seres humanos também?” E sua mãe respondeu: “Sim, nós somos seres humanos, também. “” Então, por que não podemos ter a mesma carne? “Zumra perguntou. Sua mãe não podia responder.

Quando ele se virou de 4 anos de idade, ele começou a questionar sobre o comportamento dos seres humanos. Ele observou a injustiça sobre a desigualdade de gênero, maus-tratos da exploração, os idosos no trabalho, punição cruel das crianças, e relações entre as pessoas desonestas.

Quando ele trouxe várias questões que o incomodavam dentro de casa, seus pais e parentes o considerou pessoa mentalmente doente. Quando ele completou 13 anos ele foi expulso de sua casa de família. Na idade de 20 anos, ele decidiu viajar para lugares para pregar sua ideologia. Em 1980 (CE), fundou a associação membro então com 19 anos chamado Awramba Comunidade. Naquela época, esse grupo foi banido pela sociedade e seus seguidores considerados radicais. Em algum momento, eles foram forçados a fugir de suas casas, suas terras confisicated, e seu líder, Numra Nuru, preso por vários meses.

Awramba foi fundada em Fogera Woreda na Zona Sul Gonder do Estado Regional Amhara. Atualmente, a comunidade tem 403 membros em 109 famílias, que vivem mais de 17 hectares de terra. A Comunidade Awramba tem suas próprias regras e regulamentos. Formulado por Zumra, a comunidade tem quatro pilares de regras para a sua sociedade. Trata-se de equidade de gênero, o direito das crianças, o princípio de ajudar os menos afortunados, velhos e doentes, e o princípio da honestidade.

A Comunidade Awramba não segue nenhuma religião, e eles acreditam na honestidade e amor por todos os seres humanos – esta é a sua religião. Crianças e mulheres são respeitados e iguais para adultos do sexo masculino. Eles têm casa-tutores para crianças de 3-5 anos e uma biblioteca (fora da cabana de barro) e poucas salas de aula. Quando Zumra é questionado sobre afiliações étnicas ou religiosas, ele simplesmente diz “nós pertencemos a cada grupo étnico, não um ou outro, afinal, nós somos criaturas de um só Deus (seja qual for o nome dele), e só temos um pai. Como podemos escolher uma, enquanto nós podemos ter tudo? ”

Eden Habtamu de Ezega Notícias reuniu-se com Zumra Nuru, 62, e sua esposa Enani Kibret, 35 anos, e entrevistou-os em um hotel em Adis Abeba. Zumra estava em visita a Adis Abeba depois de ter sido convidado por estudantes Universidade de Adis Abeba para compartilhar sua experiência.

Ezega.com: Estou muito satisfeito em tê-lo para a minha entrevista, você poderia por favor apresente-se, onde você nasceu e onde você crescer?

Zumra: Eu sou Zumra Nuru, o fundador e co-presidente da Comunidade Awramba. Eu nasci em Tsimada Wogeda. Eu cresci em Esti Woreda em Gonder.

Ezega.com: O que te levou a chegar a tais ideias surpreendentes e formar essa comunidade exemplar?

Zumra: eu vim com essa ideia de coisas que eu já vi na minha família. Meus pais eram agricultores. Ambos passaram o dia todo na fazenda, mas quando voltou para casa que era hora de meu pai para descansar, mas nunca para minha mãe. Depois que ela tem sido através do mesmo dia cansativo com o meu pai, ela tinha que fazer tudo em casa. Ela era esperada para cozinhar, limpar a casa, e nós, os filhos, lavar o pé do meu pai, servir a refeição tradicional. No topo de que, quando minha mãe não podia cuidar da casa na hora, meu pai abusado, insultado e, por vezes, prejudicado o seu. Eu só queria saber por que isso tinha que acontecer com a minha mãe como se ela tivesse força extra ou algo assim. Mas eu percebi mais tarde que isso não foi um evento isolado que só aconteceu em nossa casa, e isso estava acontecendo em todas as famílias. Na época, eu acreditei (como eu faço agora) que o homem como pai e as mulheres como uma mãe deve ser envolvida em funções de acordo com suas capacidades e ambos devem ser respeitados e tratados igualmente.

A segunda coisa que notei foi que o direito das crianças não é respeitado em nossa sociedade como deveria ser. Muitas vezes, as crianças estão envolvidas em tarefas que não levam em conta as suas capacidades para fazer as coisas.

A terceira questão que eu tenho é, muitas vezes, os menos afortunados e os velhos não tem ninguém para cuidar deles. Podem até não ter nada para comer e um lugar para morar. Mas os mais jovens e mais forte está tendo o bom tempo e não tem tempo para cuidar dos menos afortunados da nossa sociedade.

Quarto, eu vi as pessoas sofrendo, matar e roubar um do outro. Eu sabia que nós, como as pessoas estávamos fazendo algo para os outros que odiaríamos se acontecesse conosco. Eu ficava perguntando por quê? Como é que diferem dos animais, se não pensar e agir humanamente? Quando eu perguntei aos meus pais a essas perguntas, meus pais achavam que eu era doente mental. Mas eu não conseguia obter respostas para minhas perguntas, nem prova de que eu estava realmente doente mental.

Ezega.com: Como você teve a coragem de ensinar a seus princípios e ter sucesso contra todas as probabilidades?

Zumra: Eu não posso responder essas coisas. Não é completamente coisa um humano. Eu não aprendi essas questões de ninguém. Comecei a fazer perguntas desde que eu tinha quatro anos. É um dom de Deus – na verdade uma responsabilidade. Já passei por um momento muito difícil, então você pode dizer que é mais um fardo.

Ezega.com: As pessoas estão ouvindo você agora e você tem a sua comunidade. Você está feliz que você é passado o tempo em que ninguém estava escutando, e você foi considerado doente mental?

Zumra: eu vou dizer é um pouco melhor agora do que era antes. Pelo menos as pessoas estão ouvindo. Mas o que importa para mim é quando as pessoas não só ouvir, mas também colocar os nossos ensinamentos em prática. Então eu vou ser muito feliz.

Ezega.com: Você acredita que ele é prático e realista que você pode persuadir a sociedade a seguir tais regras?

Zumra: Isso é exatamente o que me deixa doente. Eu não sabia como dizer o que estou pensando e sentindo. É um fardo para mim. Às vezes eu desejo que eu poderia fugir de minha consciência, mas eu simplesmente não posso. As pessoas que eu amo muito nem mesmo me entender. Eu costumo fugir por um mês ou vinte dias, apenas para encontrar alguma ruptura, mas estarei de volta para casa e começar a ensinar embora eles me consideravam uma pessoa louca.

Sou grato pela aceitação que recebemos de todos nos últimos 5-6 anos. Tenho tido problemas com freqüência e minha comunidade também tem sido muitas vezes em apuros. Temos vindo a migrar de um lugar para outro só porque as pessoas não entenderam o que estávamos tentando fazer. Sou grato, pelo menos, que somos reconhecidos como uma comunidade inofensivo agora.

Ezega.com: Qual foi o seu principal objetivo quando formou a “Awramaba” comunidade?

Zumra: Geralmente, além de meus permeáveis quatro pontos, eu queria alcançar as pessoas alfabetizadas em toda parte assim que os meus pensamentos alcançar a maior população. Eu queria paz e amor entre todos os seres humanos. Acredito que pouco a pouco as pessoas estão ouvindo o que estamos dizendo. Temos muitos visitantes da Etiópia e de todo o mundo. Eu só queria tirar o que estava me incomodando há muito tempo. Acho que fiz um pouco para chegar ao coração humano, mas ainda há muito para você, a próxima geração.

Ezega.com: Deixe-me vir até você, Enani. Zumra parece um pouco cansado com o discurso que tem vindo a dar em lugares diferentes. Eu entendo que “Awramba” tem treze comissões que ajudam a comunidade a sua função corretamente. Será que você menciona alguns deles e suas funções e responsabilidades?

Enani: Ok, temos comitê de desenvolvimento que consulta a comunidade para ser mais produtivo e eficaz. Comitê de recepção é responsável por acolher e confortar os nossos hóspedes e visitantes. Comissão de queixa tem o dever de ouvir as queixas e encontrar soluções, mesmo que seja raro ver reclamações em nossa comunidade. Detectores de problemas, Higiene, Segurança, legisladores, apoiantes de Presbíteros, nutre Maternidade, e facilitadores do trabalho de campo são algumas das comissões.

Ezega.com: Como muitos dos membros da comunidade Awramba passou a ter ensino superior? Eles estão contribuindo com alguma coisa de volta para sua comunidade?

Enani: Como você sabe nosso número é muito pequeno. Cinco estudantes formados em universidades e, atualmente, 11 estão estudando em diferentes campos. Alguns deles estão nos assistindo e os outros estão trabalhando por conta própria.

Ezega.com: Em relação às facilidades na sua comunidade, o que lhe falta a mais e, portanto, precisam da ajuda de fora?

Enani: Precisamos de uma moderna máquina de tecelagem que pode funcionar facilmente e é mais produtivo. O que estamos usando é muito laborous e menos produtivos.

Ezega.com: Ouvi dizer que você tem dezessete hectares de terra para 403 pessoas; é suficiente para a sua comunidade para viver e cultivar em?

Enani: Não, não é suficiente. Abordamos o governo para nos dar mais terra para que possamos ser mais produtivo. Podemos até exportar nossos produtos no exterior e melhorar a nossa vida no processo. Todos em nossa comunidade está ansiosa para trabalhar em qualquer campo. Nós apenas deseja ter mais terra e algumas máquinas modernas.

Ezega.com: Finalmente, o conselho que você deseja dar aos seus concidadãos?

Enani: Eu acredito que o maior tesouro que temos neste mundo é nós, seres humanos. Independentemente de tudo o mais, eu gostaria que entender que somos da mesma origem, devemos amar e respeitar um ao outro. Este é o meu maior desejo e conselhos para o meu companheiro etíopes.

Ezega.com: Agradeço-lhe, de fato. Tenha uma boa noite.

Enani: Não se preocupe! E Boa Noite

Zumra: Obrigado e boa noite

This article was written by Eden Habtamu reporting for Ezega.com from Addis Ababa, Ethiopia. She can be reached by email atNews@Ezega.com. The article can be reprinted in full or in part elsewhere but only by giving full credit to Ezega.com. If reprinted on a website, we ask that you place this active link: Ezega Ethiopian News, pointing to http://www.Ezega.com.

 

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Racismo e Cultura por Frantz Fanon

FANON, Frantz. Racismo e Cultura. FANON, Frantz. Em defesa da revolução africana. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1980, p. 35-48.

1A reflexão sobre o valor normativo de certas culturas, decretado unilateralmente, merece que lhe prestemos atenção. Um dos paradoxos que mais rapidamente encontramos é o efeito de ricochete de definições egocêntricas, sóciocêntricas. Em primeiro lugar, afirma-se a existência de grupos humanos sem cultura; depois, a existência de culturas hierarquizadas; por fim, a noção da relatividade cultural.

Da negação global passa-se ao reconhecimento singular e específico. É precisamente esta história esquartejada e sangrenta que nos falta esboçar ao nível da antropologia cultural.

Podemos dizer que existem certas constelações de instituições, vividas por homens determinados, no quadro de áreas geográficas precisas que, num dado momento, sofreram o assalto directo e brutal de esquemas culturais diferentes. O desenvolvimento técnico, geralmente elevado, do grupo social assim aparecido autoriza-o a instalar uma dominação organizada. O empreendimento da desculturação apresenta-se como o negativo de um trabalho, mais gigantesco, de escravização económica e mesmo biológica.

A doutrina da hierarquia cultural não é, pois, mais do que uma modalidade da hierarquização sistematizada, prosseguida de maneira implacável.

A moderna teoria da ausência de integração cortical dos povos coloniais é a sua vertente anátomico-fisiológica. O surgimento do racismo não é fundamentalmente determinante. O racismo não é um todo, mas o elemento mais visível, mais quotidiano, para dizemos tudo, em certos momentos, mais grosseiro de uma estrutura dada.

Estudar as relações entre o racismo e a cultura é levantar a questão da sua acção recíproca. Se a cultura é o conjunto dos comportamentos motores e mentais nascido do encontro do homem com a natureza e com o seu semelhante, devemos dizer que o racismo é sem sombra de dúvida um elemento cultural. Assim, há culturas com racismo e culturas sem racismo.

Contudo, este elemento cultural preciso não se enquistou. O racismo não pode esclerosar-se. Teve de se renovar, de se matizar, de mudar de fisionomia. Teve de sofrer a sorte do conjunto cultural que o informava.

Como as Escrituras se revelaram insuficientes, o racismo vulgar, primitivo, simplista, pretendia encontrar no biológico a base material da doutrina. Seria fastidioso lembrar os esforços empreendidos nessa altura: forma comparada do crânio, quantidade e configuração dos sulcos do encéfalo, características das camadas celulares do córtex, dimensões das vértebras, aspecto microscópico da epiderme, etc.

O primitivismo intelectual e emocional aparecia como uma consequência banal, um reconhecimento de existência.

Tais afirmações, brutais e maciças, dão lugar a uma argumentação mais fina. Contudo, aqui e ali, vêm ao de cima algumas ressurgências. É assim que a “labilidade emocional do Negro”, “a integração subcortical do Árabe”, “a culpabilidade quase genérica do Judeu”, são dados que se encontram em alguns escritores contemporâneos. Por exemplo, a monografia de J. Carothers, patrocinada pela OMS, exibe, a partir de “argumentos científicos”, uma lobotomia fisiológica do Negro de África.

Estas posições sequelares tendem, no entanto, a desaparecer. Este racismo que se pretende racional, individual, determinado, genotípico e fenotipíco, transforma-se em racismo cultural. O objecto do racismo é, não descriminar o homem particular, mas uma certa forma de existir. No limite, fala-se de mensagem, de estilo cultural. Os “valores ocidentais” unem-se singularmente ao já célebre apelo à luta da “cruz contra o crescente”.

Sem dúvida, a equação morfológica não desapareceu completamente, mas os acontecimentos dos últimos trinta anos abalaram as convicções mais firmes, subverteram o tabuleiro de xadrez, reestruturaram um grande número de relações.

A lembrança do nazismo, a miséria comum de homens diferentes, a escravização comum de grupos sociais importantes, o surgimento de “colónias europeias”, quer dizer, a instituição de um regime colonial em plena Europa, a tomada de consciência dos trabalhadores dos países colonizadores e racistas, a evolução das técnicas, tudo isto alterou profundamente o aspecto do problema.

Temos de procurar, ao nível da cultura, as consequências deste racismo.

O racismo, vimo-lo, não é mais do que um elemento de um conjunto mais vasto: a opressão sistematizada de um povo. Como se comporta um povo que oprime? Aqui, encontram-se constantes.

Assiste-se à destruição dos valores culturais, das modalidades de existência. A linguagem, o vestuário, as técnicas são desvalorizados. Como dar conta desta constante? Os psicólogos que tem tendência para tudo explicar por movimentos da alma pretendem colocar este comportamento ao nível dos contactos entre particulares: crítica de um chapéu original, de uma maneira de falar, de andar …

Semelhantes tentativas ignoram voluntariamente o carácter incomparável da situação colonial. Na realidade, as nações que empreendem uma guerra colonial não se preocupam com o confronto das culturas. A guerra é um negócio comercial gigantesco e toda a perspectiva deve ter isto em conta. A primeira necessidade é a escravização, no sentido mais rigoroso, da população autóctone.

Para isso, é preciso destruir os seus sistemas de referência.

A expropriação, o despojamento, a razia, o assassínio objectivo, desdobram-se numa pilhagem dos esquemas culturais ou, pelo menos, condicionam essa pilhagem. O panorama social é desestruturado, os valores ridicularizados, esmagados, esvaziados. Desmoronadas, as linhas de força já não ordenam. Frente a elas, um novo conjunto, imposto, não proposto mas armado, com todo o seu peso de canhões e de sabres.

No entanto, a implantação do regime colonial não traz consigo a morte da cultura autóctone. Pelo contrário, a observação histórica diz-nos que o objectivo procurado é mais uma agonia continuada do que um desaparecimento total da cultura preexistente. Esta cultura, outrora viva e aberta ao futuro, fecha-se, aprisionada no estatuto colonial, estrangulada pela canga da opressão. Presente e simultaneamente mumificada depõe contra os seus membros. Com efeito, define-os sem apelo. A mumificação cultural leva a uma mumificação do pensamento individual. A apatia tão universalmente apontada dos povos coloniais não é mais do que a consequência lógica desta operação. A acusação de inércia que constantemente se faz ao “indígena” é o cúmulo da má-fé. Como se fosse possível que um homem evoluísse de modo diferente que não no quadro de uma cultura que o reconhece e que ele decide assumir. É assim que se assiste à implantação dos organismos arcaicos, inertes, que funcionam sob a vigilância do opressor e decalcados caricaturalmente sobre instituições outrora fecundas…

Estes organismos traduzem aparentemente o respeito pela tradição, pelas especificidades culturais, pela personalidade do povo escravizado. Este pseudo-respeito identifica-se, com efeito, com o desprezo mais consequente, com o sadismo mais elaborado. A característica de uma cultura é ser aberta, percorrida por linhas de força espontâneas, generosas, fecundas. A instalação de “homens seguros” encarregados de executar certos gestos é uma mistificação que não engana ninguém. É assim que as djemaas cabilas nomeadas pelas autoridades francesas são reconhecidas pelos autóctones. São dobradas por uma outra djemaa eleita democraticamente. E naturalmente a segunda dita a maior parte das vezes a sua conduta à primeira.

A preocupação constantemente afirmada de “respeitar a cultura das populações autóctones” não significa, portanto, que se considerem os valores veiculados pela cultura, encarnados pelos homens. Bem depressa se adivinha, antes, nesta tentativa uma vontade de objectivar, de encaixar, de aprisionar, de enquistar. Frases como: “eu conheço-os”, “eles são assim”, traduzem esta objectivação levada ao máximo. Assim, conheço os gestos, os pensamentos, que definem estes homens…

O exotismo é uma das formas desta simplificação. Partindo daí nenhuma confrontação cultural pode existir. Por um lado, há uma cultura na qual se reconhecem qualidades de dinamismo, de desenvolvimento, de profundidade. Uma cultura em movimento, em perpétua renovação. Frente a esta, encontram-se características, curiosidades, coisas, nunca uma estrutura.

Assim, na primeira fase, o ocupante instala a sua dominação, afirma maciçamente a sua superioridade. O grupo social, subjugado militar e economicamente, é desumanizado segundo um método polidimensional.

Exploração, torturas, razias, racismo, liquidações colectivas, opressão racional, revezam-se a níveis diferentes para fazerem, literalmente, do autóctone um objecto nas mãos da nação ocupante.

Este homem objecto, sem meios de existir, sem razão de ser, é destruído no mais profundo da sua existência. O desejo de viver, de continuar, torna-se cada vez mais indeciso, cada vez mais fantasmático. É neste estádio que aparece o famoso complexo de culpabilidade. Wright2 dedica-lhe nos seus primeiros romances uma descrição muito pormenorizada.

Contudo, progressivamente, a evolução das técnicas de produção, a industrialização, aliás limitada, dos países escravizados, a existência cada vez mais necessária de colaboradores, impõem ao ocupante uma nova atitude. A complexidade dos meios de produção, a evolução das relações económicas, que, quer se queira quer não, arrasta consigo a das ideologias, desequilibram o sistema. O racismo vulgar na sua forma biológica corresponde ao período de exploração brutal dos braços e das pernas do homem. A perfeição dos meios de produção provoca fatalmente a camuflagem das técnicas de exploração do homem, logo das formas do racismo.

Não é, pois, na sequência de uma evolução dos espíritos que o racismo perde a sua virulência. Nenhuma revolução interior explica esta obrigação de o racismo se matizar, de evoluir. Por toda a parte há homens que se libertam, abalando a letargia a que a opressão e o racismo os tinham condenado.

…)

A formação de pesquisadores negros, por Henrique Cunha Jr

texto copiado do site  http://www.comciencia.br/reportagens/negros/17.shtml : in 10 de agosto de 2006

A formação de pesquisadores negros

Henrique Cunha Jr.

Uma necessidade democrática
A história da formação social brasileira é a história do escravismo criminoso que produziu ao longo de quase 300 anos a imigração massiva de africanos. Como os processos de invasões européias no continente africano encontraram fortes resistências, as regiões de exploração e lutas variaram e se alternaram no tempo, fazendo com que os cativos africanos para aqui trazidos viessem de diversas regiões e culturas. Dado o imenso desenvolvimento técnico e social, para época, vivido pelos diversos países africanos, o Brasil absorveu e se beneficiou de mão-de-obra portadora de todas as técnicas e conhecimentos utilizados nos diversos campos da produção no país. O conhecimento produtivo do Brasil Colônia é fundamentalmente africano, nas áreas de mineração, produção de ferro, agricultura, produção de açúcar, manufaturas, tecelagem, construção. O mesmo se dá no campo da política, se considerarmos que os quilombos foram a forma mais sistemática da produção de contestação do estado escravista. Não paradoxalmente, as artes e a cultura se fundam também sobre as mesmas heranças africanas. Até as literaturas e as músicas ditas eruditas são realizadas por africanos e descendentes de africanos. Basta nomearmos os marcos das nossas artes e da nossa literatura para constatarmos tal evidência.

A produção da pesquisa científica no Brasil é iniciada nos finais do século XIX e início do XX, aí também, vamos encontrar a participação ativa de afrodescendentes. Há casos extremos como o do engenheiro Teodoro Sampaio, que filho de escrava, depois de formado na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, volta à Bahia para comprar a liberdade de sua mãe. Tornou-se geógrafo, sanitarista, pesquisador, está entre os fundadores da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

A contradição que nos preocupa é a de que, mesmo em face de inúmeras evidências históricas, ainda ser necessária a discussão sobre a pesquisa que trata da população negra e sobre a formação de pesquisadores negros. Os argumentos da história não são suficientes para a consciência de que existe um erro se perpetrando na composição dos corpus de pesquisadores brasileiros, nas temáticas eleitas pela ciência brasileira e sobretudo nas políticas científicas e de formação de pesquisadores no país. Surpreendente não é apenas a ausência de políticas nesta área, como também a falta de preocupações democráticas com a implantação destas. Num país que forma 6000 doutores por ano, temos que menos de 1% são negros e menos das teses 1% tratam temas de interesse das populações afrodescendentes.

“Ninguém discrimina ninguém, a razão disso é que o negro é pobre”, dizem. Errado, a razão é que os métodos de discriminação estão tão institucionalizados que não incomodam às consciências críticas. É tido natural o negro não entrar nos programas de pós-graduação. Examinando o histórico de cerca de dois mil mestres e doutores negros existentes no país, vemos que a faixa etária das candidaturas e os regimes de trabalhos estão fora dos perfis privilegiados pelas políticas e pelos programas de pós-graduação. A média dos pesquisadores negros ingressa no mestrado aos 35 anos, trabalha e precisa participar do sustento da família, o que é incompatível com o número e valores das bolsas. Os programas favorecem quem, em iniciação cientifica e artigos? Os pesquisadores negros vêm de ensino universitário noturno, que não dá oportunidades para a iniciação científica. As disciplinas de base dos temas pretendidos pelos pesquisadores negros não existem nas graduações. A única fonte de formação tem sido o próprio movimento negro. Os programas rejeitam pesquisadores militantes dos movimentos negros. Bancas de entrevista não conseguem superar a relação patroa-empregada existente nas nossas relações sociais cotidianas, tornando as entrevistas tensas e as pesquisadoras negras antipáticas. Fato mais notado entre as mulheres: “quem é antipático não entra, as negras ‘muito da exibida’ não entram”.

Mas, para os que entram, não há orientadores conheçam os temas, o que alimenta a dificuldade em se ter sucesso na pesquisa no tempo determinado. A universidade brasileira não confessa a sua ignorância nos temas de interesse dos afrodescendentes, sendo que única responsabilidade do insucesso fica por conta dos pesquisadores negros. O problema é grave, mais grave ainda é que nada disso tem sido questionado pela sociedade democrática acadêmica.

O que está ocorrendo
Está ocorrendo que as populações negras vivem em espaços geográficos que não recebem políticas públicas. São áreas sobre as quais o conhecimento científico é praticamente inexistente. Forma-se um círculo vicioso, nada se sabe; e nada se faz de coerente porque nada se sabe. As políticas universalistas do Estado se mostraram inócuas. No governo passado, através de pesquisa do IPEA concluiu-se o que os movimentos negros vinham dizendo há quase 30 anos: há a necessidade de políticas específicas. No entanto, quase nada se sabe sobre essas especificidades pois os pesquisadores e os atuais temas das pesquisas têm a ver com interesses que não são os das populações de descendência africana. Negro e afrodescendentes aqui são sinônimos, definições que vão além das denominações de raça e raça social. Estão ligados ao trânsito da história e a enfoques nos processos de dominação e na produção étnica da submissão neste país. Nós temos falado da necessidade de pesquisas e de produção de conhecimentos sobre os territórios de maioria afrodescendente. Mas não há pesquisa, não há política pública, não há solução objetiva dos problemas.

A democracia prevê a representação de todos os grupos sociais em todas as instâncias de decisão. No estágio atual do capitalismo, a pesquisa científica e os grupos de pesquisadores constituem um grupo privilegiado de exercício do poder, quer pela ação direta na participação nos órgãos de decisão do Estado, quer pela ação indireta através da difusão dos conhecimentos que justificam as ações dos poderes públicos. Os grupos sociais cujos membros não fazem pesquisa ficam alijados dessas instâncias de poder. A ausência de pesquisadores negros tem reflexo nas decisões dos círculos de poder. Vide que temas como a educação e a saúde dos afrodescendentes só passam para a pauta do Estado brasileiro depois que os movimentos negros, com esforços próprios, formaram uma centena de especialistas e pesquisadores nessas áreas e produziram um número relevante de trabalhos científicos.

Por que não existe mais pesquisa e mais pesquisadores? Por que não se quer ter. Não existe vontade política das instituições universitárias e muito menos dos órgãos de política científica do Estado. Os movimentos negros têm sido muito ativos nas propostas de políticas públicas de ações afirmativas para formação de pesquisadores negros. Estas propostas só têm recebido a atenção de setores isolados da sociedade e das fundações internacionais.

Finalizando sem terminar
São infindáveis as posições e contraposições que o tema encerra. Ainda temos uma mentalidade nacional avessa à existência de negros ou, pelo menos, insensível a qualquer manifestação de afirmação da existência de identidades negras. A aversão não é contra a existência material desses seres ditos negros, mas contra a existência política dos mesmos. Tal qual durante o período do escravismo criminoso, persiste a ótica dominante do medo branco com relação a onda negra. As idéias convenciam a sociedade que o perigo era negro, enquanto a criminalidade oficial branca do Estado e todos os processos de dominação impostos pela matriz européia não eram vistas como perigosos, danosos e dolosos para a sociedade. Tal mentalidade continua se processando, sob novas formas de inculcação, com os mesmos resultados de um certo pânico e pelo menos indisfarçável desconforto frente à visão da organização política, cultural e identitária de negros.

O país funciona bem, é democrático, a Constituição veda qualquer discriminação de raça, sexo ou religião. Essa é a visão conformista e utilitária da nossa situação: a harmonia. Quando algum pesquisador de pele clara se auto-denomina negro, correm os pares, as vezes até mais escuros que ele, a dissuadi-lo com uma enxurrada de argumentos e este passa a ser visto como o produtor da discórdia. “Quem é negro nesta sociedade? Somos todos mestiços. Temos todos um pouco de escravizado e escravizador no nosso passado.” Quem se denomina negro passa a ser o importador de temas estanhos à comunidade harmônica brasileira. As falácias desses argumentos não são analisadas com o rigor da comunidade científica, ficam no pseudo senso científico. As referências biologizantes do tema superam as referências políticas e sociais. Pesquisadores da história se esquecem dos conceitos da história social e se amparam no argumento biológico. Socialmente, nós não temos nada do escravizador, visto que este não mestiçou a sua propriedade com a nossa. Vejam que o escravizador sempre vendeu os filhos que teve como as escravizadas como mais um escravo. A nossa dita morenidade não está representada na distribuição de renda do país. Importada é a maioria ou quase totalidade das idéias científicas difundidas no país. Quais seriam os critérios da condenação de uma importação de idéias em particular? Ou só no campo das relações étnicas é que não é cientifico importar idéias? A crítica da importação também mostra uma ignorância sobre a nossa história social, já que os movimentos negros do Brasil, há mais de um século, pautavam essas temáticas.

É certo que nos damos bem, no campo informal. Pulamos carnaval juntos e jogamos futebol. Mas não estudamos juntos e, muito menos, pesquisamos juntos. “Mas é um problema social”. Não temos dúvida que é um imenso problema social, mas para o qual não se procura solução. Existem aqueles que nos dizem que têm em casa uma negra empregada e dizem que é como se fosse da família, mesmo que não dividam com ela o capital cultural, a educação dos filhos ou o seguro saúde da família. No Brasil, até o cachorro é membro da família.

Desde que organizamos a Associação de Pesquisadores Negros, em 2000, com intuito de acelerar o processo de pesquisa das temáticas de interesse dos afrodescendentes, tenho ouvido pelos corredores, e às vezes explicitamente, argumentos da ordem: pesquisa não tem cor; ou que as temáticas abordadas por nós não são suficientemente universais; ou seja, não fazem parte da ciência. Concordo que a pesquisa não tem cor, mas as políticas científicas, que não têm nada a ver com o cerne do fazer científico, essas têm os atributos de cor, de grupo social, de grupo histórico, de marginalizações e de produção das desigualdades sociais, econômicas e políticas. Quem detém o poder detém a primazia da ciência e determina quais temas são parte ou não da ciência. Veja que o mesmo universalismo científico fez com que todas as teorias racistas fossem produzidas, divulgadas e aplicadas pelos corpus científicos. Então, o argumento da universalidade da ciência não serve como científico, em face da própria história da sua construção eurocêntrica. Mesmo ainda por que as ciências físicas hoje travam um imenso debate sobre as idéias de generalização e universalização da ciência, visto as discordâncias sobre a natureza do tempo e do espaço, sobre a lógica da previsibilidade da ciência destruída pela teoria do caos. Podemos quase afirmar que não existe uma ciência universal, pelo menos nos moldes que era concebida há 30 anos atrás.

A formação dos pesquisadores negros passa por todos esses obstáculos ideológicos, políticos, preconceituosos, eurocêntricos, de dominações e até mesmo de inocências úteis vigentes nas instituições de pesquisa e nos órgãos de decisão sobre as políticas científicas. É fundamentalmente um problema político de concepção da sociedade e das relações sociais. Problema que a sociedade científica se nega a reconhecer como um problema, se negando a tratá-lo e colocá-lo na agenda das preocupações. O mesmo ocorre na esfera governamental, que de certa forma reflete o pensamento das instituições de pesquisa.

O capitalismo segue fabricando seus negros. Utiliza a produção científica para reatualizar as estratégias de dominação e subordinação desses negros produzidos. As definições sobre os negros e sobre nossas condições de vida seguem se alterando ao longo do último século. Para se ter uma idéia dessa dinâmica basta acompanhar as modificações que as Nações Unidas tiveram sobre a temática. Mas a média dos pesquisadores brasileiros permanece alheia a essas definições e redefinições. A maioria ainda pensa o negro no mesmo referencial racista e biológico do século XIX. Praticam as concepções da existência de raças humanas e de seus atributos. Vide, como exemplo, o imenso sucesso que o livro Casa Grande & Senzala ainda faz entre eles. Participam de um subdesenvolvimento científico mental nesse setor das relações étnicas, com graves conseqüências para as populações afrodescendentes. Sob um discurso de democracia e igualdade, impõe-se descasos e discriminações sobre a necessidade de pesquisas em temas de interesse da população negra e da formação de pesquisadores originários desse grupo social.

Henrique Cunha Jr. é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica do Programa de Pós-Graduação em Educação, da Universidade Federal do Ceará.

Atualizado em 10/11/2003

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Origem dos antigos egípcios – por Cheiq Anta Diop

DIOP, Cheikh Anta. Origem dos antigos egípcios. In: História Geral da África, A África antiga, vol. II, São Paulo/Paris: Ática/UNESCO, Org. G. Mokhtar, 1983.

A aceitação geral da hipótese da origem monogenética e africana da humanidade suscitada pelos trabalhos do professor Leakey tornou possível colocar em termos totalmente novos a questão do povoamento do Egito, e mesmo do mundo. Há mais de 150 mil anos, a única parte do mundo em que viviam seres morfologicamente iguais aos homens de hoje era a região dos Grandes Lagos, nas nascentes do Nilo. Essa noção – e outras que não nos cabe recapitular aqui – constitui a essência do último relatório apresentado pelo dr. Leakey no VII Congresso Pan-Africano de Pré-História, em Adis Abeba, em 1971 1. Isso quer dizer que toda a raça humana teve sua origem, exatamente como supunham os antigos, aos pés das montanhas da Lua. Contra todas as expectativas e a despeito das hipóteses recentes, foi desse lugar que o homem partiu para povoar o resto do mundo. Disso resultam dois fatos de capital importância: (a) necessariamente, os primeiros homens eram etnicamente ho­mogêneos e negróides. A lei de Gloger, que parece ser aplicável também aos seres humanos, estabelece que os animais de sangue quente, desenvolvendo-se em clima quente e úmido, secretam um pigmento negro (melanina) 2. Por­tanto, se a humanidade teve origem nos trópicos, em torno da latitude dos Grandes Lagos, ela certamente apresentava, no início, pigmentação escura, e foi pela diferenciação em outros climas que a matriz original se dividiu, mais tarde, em diferentes raças; (b) havia apenas duas rotas através das quais esses primeiros homens poderiam se deslocar, indo povoar os outros continentes: o Saara e o vale do Nilo. É esta última região que será discutida aqui.
A partir do Paleolítico Superior até a época dinástica, toda a bacia do rio foi progressivamente ocupada por esses povos negróides.

Evidências da antropologia física sobre a raça dos antigos egípcios
Poder-se-ia pensar que, trabalhando com evidências fisiológicas, as descobertas dos antropólogos poderiam dissipar todas as dúvidas por fornecerem verdades confiáveis e definitivas. Isso não é, de maneira nenhuma, o que acontece: a natureza arbitrária dos critérios utilizados – para mencionarmos apenas um aspecto -, ao mesmo tempo que afasta qualquer possibilidade de uma conclusão ser aceita sem reservas, introduz tanta discussão supérflua entre os cientistas que às vezes nos perguntamos se a solução do problema não teria estado muito mais próxima se não tivéssemos o azar de abordá-lo sob esse ângulo.
No entanto, embora as conclusões desses estudos antropológicos se detenham um pouco aquém da realidade, elas são unânimes em mencionar a existência de uma raça negra desde as mais distantes épocas da Pré-História até o período dinástico. Não é possível, no presente capítulo, citar todas essas conclusões. Elas estão sumarizadas no Capítulo X de Histoire et Protohistoire d’Egipte (Institut d’Ethnologie, Paris, 1949), do dr. Emile Massoulard. Citaremos apenas alguns itens:
“Miss Fawcett acredita que os crânios de Negadah compõem uma coleção com homogeneidade suficiente para fundamentar a hipótese da existência de uma raça de Negadah. Quanto à altura total do crânio, à altura auricular, do comprimento e largura da face, ao comprimento do nariz, ao índice cefálico e ao índice facial, essa raça parece aproximar-se da raça negra; quanto à largura do nariz, à altura da órbita, ao comprimento do palato e ao índice nasal, ela parece mais próxima dos povos germânicos; assim, os negadenses pré-dinásticos provavelmente se assemelhavam, quanto a algumas de suas características, aos negros e, quanto a outras, às raças brancas” ( pp. 402-3 ).
É importante observar que os índices nasais dos etíopes e dos dravidianos os aproximariam dos povos germânicos, embora ambos pertençam a ra (???) perdeu-se

É importante observar que os índices nasais dos etíopes e dos dravidianos os aproximariam dos povos germânicos, embora ambos pertençam a raças negras.

Essas medidas – que deixariam abertas alternativas possíveis entre os dois extremos, representados pelas raças negra e germânica – dão uma idéia da elasticidade dos critérios empregados. Eis um exemplo:
“Tentando determinar com maior precisão a importância do elemento negróide nas séries de crânios de El-Amra, Abidos e Hou, Thomson e Ran­dall MacIver dividiram-nos em três grupos: 1. crânios negróides (aqueles com índice facial abaixo de 54 e índice nasal acima de 50, isto é, face curta e larga e nariz largo); 2. crânios não-negróides (índice facial acima de 54 e índice nasal abaixo de 50, face comprida e estreita e nariz estreito); 3. crânios intermediários (podem ser atribuídos a indivíduos dos dois primeiros grupos, com base no índice facial ou nas evidências referentes ao índice nasal, e ainda a indivíduos marginais a ambos os grupos). A proporção de negróides no início do período pré-dinástico parece ter sido de 24% de homens e 19% de mulheres, e, no final desse mesmo período, de 25% de homens e 28% de mulheres.
Kieth contestou o valor dos critérios utilizados por Thomson e Randall MacIver para distinguir os crânios negróides dos não-negróides. Sua opinião é de que, se os mesmos critérios fossem aplicados para estudar qualquer série de crânios ingleses contemporâneos, a amostra conteria aproximadamente 30% de tipos negróides” (pp. 420-1).
Pode-se afirmar também o reverso da proposição de Kieth, isto é, que, se o critério fosse aplicado aos 140 milhões de negros que hoje vivem na África negra, no mínimo 100 milhões deles apareceriam “branqueados”. Deve-se enfatizar também que a distinção entre “negróides”, “não-negróides” e “intermediários” não é clara: “não-negróide” não significa de raça branca, e “intermediário”, muito menos.
“Falkenburger retomou o estudo antropológico da população egípcia num trabalho recente, no qual analisa 1 787 crânios masculinos do período que se estende desde o Pré-Dinástico Antigo até nossos dias. Ele distingue quatro grupos principais” (p. 421).

A classificação dos crânios pré-dinásticos nesses quatro grupos dá, para o total do período pré-dinástico, os seguintes resultados: “36% de negróides, 33% de mediterrânicos, I 1 % de cro-magnóides e 20% de indivíduos que não se enquadram em nenhum desses grupos, mas se aproximam dos cro-mag­nóides ou dos negróides”.
A proporção de negróides é definitivamente mais alta do que a sugerida por Thomson e Randall MacIver, a qual, no entanto, Kieth considera muito elevada.
“Os números de Falkenburger refletem a realidade? Não é nossa tarefa decidir. Se estiverem corretos, a polulação pré-dinástica, longe de representar uma raça pura, como disse Elliot Smith, compreendia pelo menos três elementos raciais distintos: mais de um terço de negróides, um terço de mediterrâni­cos, um décimo de cro-magnóides e um quinto de indivíduos mestiços em vários graus” (p. 422).
O fundamental em todas essas conclusões é que, a despeito das discrepâncias que apresentam, o seu grau de convergência prova que a base da população egípcia no período pré-dinástico era negra. Assim, todas elas são incompatíveis com a teoria de que o elemento negro se infiltrou no Egito em período tardio. Pelo contrário, os fatos provam que o elemento negro era preponderante do princípio ao fim da história egípcia, particularmente se observarmos, uma vez mais, que “mediterrânico” não é sinônimo de “branco”; esta­ria mais próximo da “raça morena ou mediterrânica” de Elliot-Smith.
“Elliot-Smith classifica esses protoegípcios como um ramo do que ele chama raça morena, que corresponde à ‘raça mediterrânica ou euro-africana’ de Sergi” (p. 418). O termo “moreno” neste contexto refere-se à cor da pele e é simplesmente um eufemismo de negro 3.
Assim, fica evidente que toda a população egípcia era negra, com exceção de uma infiltração de nômades brancos no período protodinástico.
O estudo de Petrie sobre a raça egípcia revela um elemento classificatório possível muito fecundo, que não deixará de surpreender o leitor.

“Petrie ( . . . ) publicou um estudo sobre as raças do Egito nos períodos pré­-dinástico e proto-dinástico, trabalhando apenas com representações. Além da raça esteatopígica, distinguiu seis diferentes tipos: um tipo aquilino, representante de uma raça líbia de pele branca; um tipo ‘com barba trançada’, pertencente a uma raça invasora, vinda provavelmente das costas do mar Ver­melho; um tipo ‘com nariz pontudo’, proveniente, sem dúvida, do deserto arábico; um tipo ‘com nariz reto’, do Médio Egito; um tipo ‘com barba protu­berante’, do Baixo Egito; e um tipo ‘com nariz fino’, do Alto Egito. Segundo as representações, teriam assim existido sete tipos raciais diferentes no Egito durante os períodos que estamos considerando. Nas páginas seguintes, veremos que o estudo dos esqueletos parece conferir pouca validade a essas con­clusões” (p. 391) .
Esse modo de classificação dá uma idéia da natureza arbitrária dos critérios utilizados para definir as raças egípcias. Seja como for, é evidente que a antropologia está longe de ter estabelecido a existência de uma raça egípcia branca e, pelo contrário, tenderia a sugerir o oposto.

Nos manuais de maior divulgação, entretanto, a questão é suprimida: na maioria dos casos, afirma-se simples e claramente que os egípcios eram brancos, e o leigo fica com a impressão de que uma afirmação desse tipo deve necessariamente ter como base uma sólida pesquisa anterior. Mas, conforme se mostrou neste capítulo, essa pesquisa não existe. E, assim, gerações após gerações foram enganadas. Muitas autoridades no assunto contornam a dificuldade falando em brancos de pele vermelha e brancos de pele negra, sem que por isso se abale o seu senso de lógica.
“Os gregos chamam a África de Líbia, um nome equivocado ab initio, pois a África contém muitos outros povos além dos assim chamados líbios, que estão entre os brancos da periferia setentrional ou mediterrânica e, portanto, muito afastados dos brancos de pele morena ou vermelha) – os egípcios”. 4
Num livro didático destinado ao curso colegial, encontramos a seguinte frase: “Um negro se distingue menos pela cor da pele (pois existem ‘brancos’ de pele negra) do que por suas feições: lábios grossos, nariz chato…” 5 Apenas com tais distorções das definições básicas é que se pôde branquear a raça egípcia.
E importante ter em mente os exageros dos teóricos da antropossociolo­gia do século passado e do começo deste século, que, em suas microanálises fisionômicas, descobriram estratificações raciais até mesmo na Europa, e particularmente na França, onde, na verdade, havia um único povo, hoje praticamente homogêneo. 6 Atualmente, os ocidentais que valorizam sua coesão nacional evitam zelosamente examinar suas próprias sociedades sob a luz de hipóteses tão divisionistas, mas continuam, irrefletidamente, a aplicar os velhos métodos às sociedades não-européias.

As representações humanas do período proto-hístórico: seu valor antropológico


O estudo das representações humanas realizado por Flinders Petrie, num outro plano, demonstra que o tipo étnico era negro: de acordo com Fetrie, esses povos eram os Anu, cujo nome, que conhecemos desde a época proto­-histórica, era sempre “escrito” com três pilares, nas poucas inscrições subsis­tentes do final do IV milênio antes da era cristã. Os nativos do país são sempre representados com inconfundíveis emblemas de chefia, que não encon­tramos entre as raras representações das outras raças, cujos elementos apare­cem todos como estrangeiros servis, que chegaram ao vale por infiltração (cf. Tera Neter 7 e o rei Escorpião, que Petrie reúne num mesmo grupo: “O rei Escorpião pertencia à raça anu, já citada; além disso, adorava Min e Seti”) 8.
Como veremos adiante, Min, assim como os principais deuses do Egito, era chamado, na própria tradição egípcia, “o Grande Negro”.

Depois de fazer um apanhado dos vários tipos humanos estrangeiros que disputaram o vale com os negros nativos. Petrie descreve estes últimos, os Anu, nos seguintes termos:
“Além desses tipos, característicos do norte e do leste, existe a raça autóctone dos Anu, ou Annu (escrito com três pilares), povo que constituiu parte dos habitantes da época histórica. O assunto se complica e dá margem a dúvidas se incluirmos todos os nomes escritos com um único pilar; mas, considerando apenas a palavra Annu, escrita com três pilares, descobrimos que esse povo ocupava o sul do Egito e a Núbia; o nome também é utilizado no Sinai e na Líbia. Quanto aos habitantes meridionais do Egito, temos o documento essen­cial: um retrato do chefe Tera Neter, rudemente modelado em relevo em faiança verde vitrificada, encontrado no mais antigo templo de Abidos. O endereço precede o nome, nesse primitivo cartão de visita: ‘Palácio dos Anu na cidade de Hemen, Tera Neter’. Hemen era o nome do deus de Tuphium. Erment, do lado oposto, era o palácio dos Anu do Sul Annu Menti. A próxima localidade ao sul é Aunti (Gefeleyn) e, depois. Aunyt-Seni (Esna)” 9.

Amélineau arrola, em ordem geográfica, as cidades fortificadas construí­das ao longo do vale do Nilo pelos negros anu.
= Ant (Esna)
ou = An = “On” do Sul (hoje Hermonthis)
= Denderah, tradicionalmente, a cidade natal de Ísis
= Uma cidade também chamada “On”, no nomo de Tínis
ou = A cidade chamada “On” do Norte, a célebre Heliópolis
O ancestral comum dos Anu estabelecidos ao longo do Nilo era Ani ou An, nome determinado pela palavra(khet), o qual, desde as primeiras versões do Livro dos Mortos, é atribuído ao deus Osíris.
A esposa de , o deus Ani é a deusa Anet , que é também sua irmã, da mesmã forma que Isis é irmã de Osíris.
A identidade do deus An com Osíris foi demonstrada por Pleyte 10; deve­mos lembrar que Osíris é também cognominado o Anu: “Osíris Ani”. O deus Anu é representado ora pelo símbolo , ora pelo símbolo. As tribos Anuak, que hoje habitam o Nilo superior, teriam alguma relação com os antigos Anu? Pesquisas futuras trarão resposta a esta questão.
Petrie acredita ser possível distinguir entre o povo pré-dinástico, representado por Tera Neter e pelo rei Escorpião (que, já nessa época, é um faraó, como mostram os enfeites em sua cabeça) e um povo dinástico, que adorava o falcão e que provavelmente é representado pelos faraós Narmer 11, Khasekhem, Sanekhei e Zoser 12. Observando-se os rostos reproduzidos na ilustração, percebe-se facilmente que não existem diferenças étnicas entre os dois grupos e que ambos pertencem à raça negra.

O mural da tumba SD 63 (Sequence Date 63) de Hieracômpolis mostra os negros nativos subjugando os invasores estrangeiros, se aceitarmos a interpretação de Petrie: “Abaixo, temos a embarcação negra em Hieracômpolis, pertencente aos homens negros, que aparecem subjugando os homens vermelhos” 13.
O cabo de faca de Djebel el-Arak também mostra cenas de batalhas similares: “Há também combates em que homens negros dominam homens vermelhos” 14. Entretanto, o valor arqueológico desse objeto, que não foi encontrado in situ, mas em poder de um mercador, é menor do que o dos itens anteriores.
O que expusemos acima mostra que as representações dos homens do período proto-histórico, e mesmo do período dinástico, são absolutamente incompatíveis com a idéia de raça egípcia difundida entre os antropólogos ocidentais. Onde quer que o tipo racial autóctone esteja representado com alguma clareza, ele é nitidamente negróide. Em parte alguma elementos indo­-europeus ou semitas são representados como homens livres, nem mesmo como cidadãos comuns a serviço de um chefe local. Eles aparecem invariavelmente como estrangeiros submetidos. As raras representações encontradas trazem sempre marcas inequívocas de cativeiro: mãos atadas atrás das costas ou amarradas sobre os ombros 15. Uma estatueta protodinástica representa um prisioneiro indo-europeu com uma longa trança, de joelhos e as mãos atadas ao corpo. As características do próprio objeto mostram que ele devia ser o pé de um móvel e representava uma raça conquistada 16. A representação é, com freqüência, deliberadamente grotesca, como ocorre com outras figuras protodinásticas, mostrando indivíduos com o cabelo trançado à maneira que Petrie denomina rabo de porco (pigtail). Na tumba do rei Ka (I dinastia), em Abidos, Petrie encontrou uma plaqueta representando um indo-europeu cativo, acor­rentado, com as mãos atrás das costas. Elliot-Smith acha que o indivíduo representado é um semita 17

A época dinástica forneceu também os documentos reproduzidos nas figu­ras 4 e 5 das páginas 49 e 50, que mostram prisioneiros indo-europeus e semitas. Em contraposição, as feições tipicamente negróides dos faraós Narmer, I dinastia, fundador da linhagem faraônica, Zoser, III dinastia, em cuja época todos os elementos tecnológicos da civilização egípcia já eram evidentes, Quéops, o construtor da Grande Pirâmide, um tipo característico da região da atual República de Camarões 18, Mentuhotep, fundador da XI dinastia, negro retinto 19, Sesóstris I, a rainha Amósis Nefertári, e Amenófis I mostram que todas as classes da sociedade egípcia pertencem à mesma raça negra.
As figuras de 11 a 15 foram incluídas deliberadamente para contrastar tipos semitas e indo-europeus com as fisionomias bastante diferentes dos faraós negros e para mostrar claramente que não há traço de nenhum dos dois pri­meiros tipos na linhagem dos faraós, se excluirmos as dinastias estrangeiras (líbias e ptolomaicas).
É comum contraporem-se as negras da tumba de Horemheb ao tipo egípcio também representado. Na verdade, essa contraposição é falsa: é social e não étnica; há tanta diferença entre uma aristocrata senegalesa de Dacar e as camponesas da África antiga, de mãos calejadas e pés angulosos, quanto entre estas últimas e uma senhora egípcia das cidades da Antigüidade.
Existem duas variantes da raça negra:
– os negros de cabelos lisos, representados na Ásia pelos dravidianos e, na África, pelos núbios e os tubbou ou Tedda, todos com pele negro-azeviche; – os negros de cabelo crespo das regiões equatoriais.
Os dois tipos entraram na composição da população egípcia.

Teste de dosagem de melanina

Na prática, é possível determinar diretamente a cor da pele, e, portanto, a Filiação étnica dos antigos egípcios, através de análises microscópicas de laboratório; duvido que a perspicácia dos pesquisadores que se dedicaram à questão tenha ignorado essa possibilidade.
A melanina, substância química responsável pela pigmentação da pele, é, geralmente, insolúvel e preserva-se por milhões de anos na pele dos animais fósseis 20. Portanto há razões de sobra para que seja facilmente encontrada na pele das múmias egípcias, apesar da lenda persistente segundo a qual a pele das múmias, tingida pelo material de embalsamamento, já não é susce­tível de qualquer análise 21. Embora a melanina se localize principalmente na pele, os melanócitos que penetrarem a derme no nível da epiderme, mesmo onde esta última tenha sido praticamente destruída pelos materiais de embalsamamento, indicam um nível de melanina inexistente nas raças de pele branca. As amostras que eu mesmo analisei foram colhidas no laboratório de antropo­logia física no Museu do Homem, em Paris, das múmias provenientes das escavações de Marietta, no Egito 22. O mesmo método é perfeitamente utilizável para as múmias reais de Tutmés III, Séti I e Ramsés II, do Museu do Cairo, que estão em excelente estado de conservação. Há dois anos tenho pedido – ­em vão – ao curador do Museu do Cairo amostras similares para análise. Não seriam necessários mais do que alguns milímetros quadrados de pele para compor um espécime, com preparações de poucos [m de espessura e clareadas com benzoato de etila. Elas podem ser estudadas à luz natural ou sob luz ultravioleta, que torna os grãos de melanina fluorescentes. De qualquer forma, queremos simplesmente afirmar que a avaliação do nível de mela­nina através de exames de microscópio é um método de laboratório que nos permite classificar os antigos egípcios inquestionavelmente entre as raças negras.

Medidas osteológicas

Dentre os critérios aceitos pela antropologia física para a classificação das raças o das medidas osteológicas (osteometria) talvez seja o menos engana­dor (por oposição à craniometria) para distinguir um homem branco de um negro. Também segundo esse critério, os egípcios pertencem às raças negras. Tal estudo foi realizado pelo eminente sábio alemão Lepsius, no final do século XIX, e suas conclusões continuam válidas: os progressos metodológi­cos subseqüentes, no campo da antropologia física, não invalidaram em nada aquilo que se conhece como “cânone de Lepsius”, que estabelece, em núme­ros redondos, as proporções corporais do egípcio ideal, de braços curtos e tipo físico negróide ou negrito 23.
Grupos sangüíneos
E importante notar que, mesmo hoje, os egípcios, particularmente no Alto Egito, pertencem ao mesmo Grupo B que as populações da África ocidental, no litoral atlântico, e não ao Grupo A2, característico da raça branca antes de qualquer miscigenação 24. Seria interessante estudar a extensão da distribuição do Grupo A2 nas múmias egípcias, o que, aliás, já é possível realizar mediante as técnicas atuais.
A raça egípcia segundo os autores clássicos da Antigüidade
Para os escritores gregos e latinos contemporâneos dos antigos egípcios, a classificação física desses últimos não colocava problemas: os egípcios eram negros, de lábios grossos, cabelo crespo e pernas finas; será difícil ignorar ou subestimar a concordância entre os testemunhos apresentados pelos autores em referência a um fato físico tão evidente quanto a raça de um povo. Alguns dos testemunhos que se seguem são contundentes.

(a)    Heródoto, “o pai da História”, – 480 (?) a – 425.
Com relação à origem dos Kolchu 25, ele escreve:
“E, de fato, evidente que os colquídios são de raça egípcia (…) muitos egípcios me disseram que, em sua opinião, os colquídios eram descendentes dos soldados de Sesóstris. Eu mesmo refleti muito a partir de dois indicado­res: em primeiro lugar, eles têm pele negra e cabelo crespo (na verdade, isso nada prova, porque outros povos também os têm) e, em segundo lugar – e este é um indicador mais consistente – os egípcios e os etíopes foram os únicos povos, de toda a humanidade, a praticar a circuncisão desde tempos imemoriais. Os próprios fenícios e sírios da Palestina reconhecem que aprenderam essa prática com os egípcios, enquanto os sírios do rio Termodon e da região de Pathënios e seus vizinhos, os macrons, dizem tê-la aprendido, recentemente, com os colquídios. Essas são as únicas raças que praticam a circuncisão, e deve-se observar que a praticam da mesma maneira que os egípcios. Quanto aos próprios egípcios e aos etíopes, eu não poderia afirmar quem ensi­nou a quem essa prática, pois ela é, evidentemente, muito antiga entre eles. Quanto ao fato de o costume ter sido aprendido através dos egípcios, uma outra prova significativa para mim é o fato de que todos os fenícios que comerciam com a Grécia param de tratar suas partes pudendas conforme a maneira egípcia e não submetem seus filhos à circuncisão” 26.

Heródoto retorna várias vezes ao caráter negróide dos egípcios, e a cada vez o utiliza como dado de observação para discutir teses mais ou menos complexas. Assim, para provar que o oráculo grego de Dodona, no Épiro, era de origem egípcia, um de seus argumentos é o seguinte: “e, quando eles acrescentam que a pomba era negra, dão a entender que a mulher era egípcia”. 27 As pombas em questão – na verdade, eram duas, de acordo com o texto – simbolizam duas mulheres egípcias, que se dizia terem sido trazidas de Tebas, no Egito para fundar oráculos respectivamente na Grécia (Dodona) e na Líbia (oásis de Júpiter Amon). Heródoto não partilha da opinião de Anaxágoras segundo o qual as enchentes do Nilo seriam causadas pelo degelo nas montanhas da Etiópia 28. Apoiava-se no fato de que na Etiópia não chove nem neva, “e lá o calor torna os homens negros” 29.
b) Aristóteles, -384 a -322, cientista, filósofo e tutor de Alexandre, o Grande.
Num de seus trabalhos menores, Aristóteles tenta, com surpreendente ingenuidade, estabelecer uma correlação entre a natureza física e a natureza moral dos seres vivos, e nos fornece evidências sobre a raça egípcio-etíope que confirmam o testemunho de Heródoto. Segundo Aristóteles, “Aqueles que são muito negros são covardes como, por exemplo, os egípcios e os etíopes. Mas os excessivamente brancos também são covardes, como podemos ver pelo exem­plo das mulheres; a coloração da coragem está entre o negro e o branco” 30.
(c) Luciano, escritor grego, + 125 (?) a + 190.

O testemunho de Luçiano é tão explícito quanto os de Heródoto e Aris­tóteles. Ele apresenta dois gregos, Licino e Timolaus, que iniciam um diá­logo:
“Licino [descrevendo um jovem egípcio]: – Este rapaz não é simplesmente preto; ele tem lábios grossos e pernas muito finas (. . .) seu cabelo trançado atrás mostra que não é um homem livre.
Timolaus: – Mas no Egito esse é um sinal das pessoas muito bem-nascidas, Licino. Todas as crianças nascidas livres trançam o cabelo até atingirem a idade adulta. Esse é um costume exatamente oposto ao dos nossos ancestrais, que achavam conveniente, para os velhos, prender o cabelo com um broche de ouro, para mantê-lo em ordem” 31.
(d) Apolodoro, século I antes da era cristã, filósofo grego.
“Egito conquistou o país dos homens de pés negros e chamou-o Egito, a partir de seu próprio nome.” 32
(e) Esquilo, – 525(?) a – 456, poeta trágico e criador da tragédia grega.
Em As Suplicantes, Dânaos, fugindo com suas filhas, as Danaides, e per­seguido por seu irmão, Egito, e os filhos deste, os Egitíados, que querem desposar suas primas à força, sobe em uma colina, olha para o mar e descreve nos seguintes termos os Egitíados que remavam ao longe: “Posso ver a tripulação com seus membros negros e suas túnicas brancas” 33.
Uma descrição similar do tipo egípcio aparece novamente poucas linhas abaixo, no verso 745.
(f) Aquiles Tácio de Alexandria.
Compara os guardadores de gado do Delta aos etíopes e explica que são escuros, como mestiços.
(g) Estrabão, – 58 a aproximadamente + 25.
Estrabão visitou o Egito e quase todos os países do Império Romano. Concorda com a teoria de que os egípcios e os Kolchu são da mesma raça, mas sustenta que as migrações para a Etiópia e Cólquida vieram apenas do Egito.

“Os egípcios estabeleceram-se na Etiópia e na Cólquida.” 34 Não há qual­quer dúvida sobre a concepção de Estrabão a respeito da raça egípcia, pois ele procura, em outra parte, explicar por que os egípcios são mais escuros do que os hindus, circunstância que permitiria a refutação, se necessário, de qual­quer tentativa de confundir “a raça hindu e a raça egípcia”.
(h) Diodoro da Sicília, aproximadamente – 63 a + 14, historiador grego e contemporâneo de César Augusto.
Segundo Diodoro, provavelmente foi a Etiópia que colonizou o Egito (no sentido ateniense do termo, significando que, devido à superpopulação, parte do povo emigrou para o novo território).
“Os etíopes dizem que os egípcios são uma de suas colônias” 35, que foi levada para o Egito por Osíris. Eles afirmam que, no começo do mundo, o Egito era apenas um mar, mas que o Nilo, transportando em suas enchentes grandes quantidades de limo da Etiópia, terminou por colmatá-lo e tornou-o parte do continente (…) Acrescentam que os egípcios receberam deles como de seus autores e ancestrais a maior parte de suas leis.” 36
(i) Diógenes Laércio.
Sobre Zenão, fundador da escola estóica (- 333 a – 261), Diógenes escreveu o seguinte: “Zenão, filho de Mnaseas ou Demeas, era natural do Cício, em Chipre, uma cidade grega que havia recebido alguns colonos fenícios”. Em suas Vidas, Timóteo de Atenas descreve Zenão como tendo o pescoço torcido. Apolônio de Tiro diz que ele era frágil, muito alto e negro, daí o fato, citado por Crisipo no Primeiro Livro de seus Provérbios de algu­mas pessoas o chamarem “broto de videira egípcio” 37.

(j) Amiano Marcelino, aproximadamente + 330 a + 400, historiador latino e amigo do imperador Juliano.
Com ele, atingimos o ocaso do Império Romano e o fim da Antigüi­dade clássica. Quase nove séculos se passaram entre o nascimento de Ésquilo e Heródoto e a morte de Amiano Marcelino, nove séculos durante os quais os egípcios, em meio a um mar de raças brancas, se miscigenaram constante­mente. Pode-se dizer sem exagero que, no Egito, uma casa em cada dez incluía um escravo branco, asiático ou indo-europeu 38.
É notável que, apesar de sua intensidade, a miscigenação não tenha alte­rado significativamente as constantes raciais. De fato, Amiano Marcelino es­creve: “. . . a maior parte dos homens do Egito são morenos ou negros, com uma aparência descarnada” 39. Ele também confirma o depoimento já citado sobre os Kolchu: “Além destas terras está a pátria dos Camarita 40, e o Fásis, com sua correnteza veloz, banha o país dos Kolchu, uma antiga raça de origem egípcia” 41.
Esta rápida revisão dos testemunhos apresentados pelos antigos escritores greco-latinos sobre a raça egípcia mostra que o grau de concordância entre eles é impressionante, constituindo um fato objetivo difícil de subestimar ou ocultar. A moderna egiptologia oscila constantemente entre esses dois pólos.
Foge à regra o testemunho de um cientista honesto, Volney, que viajou pelo Egito entre 1783 e 1785 – isto é, em pleno período da escravidão negra – e fez as seguintes observações sobre os coptas (representantes da verda­deira raça egípcia, aquela que produziu os faraós).

“Todos eles têm faces balofas, olhos inchados e lábios grossos, em uma palavra, rostos realmente mulatos. Fiquei tentado a atribuir essas características ao clima, até que, visitando a Esfinge e olhando para ela, percebi a pista para a solução do enigma. Completando essa cabeça, cujo traços são todos caracteristicamente negros, lembrei-me da conhecida passagem de Heródoto: “De minha parte, considero os Kolchu uma colônia do Egito porque, como os egípcios, eles têm a pele negra e o cabelo crespo”. Em outras palavras, os antigos egípcios eram verdadeiramente negros, da mesma matriz racial que os povos autóctones da África; a partir desse dado, pode-se explicar como a raça egípcia, depois de alguns séculos de miscigenação com sangue romano e grego, perdeu a coloração original completamente negra, mas reteve a marca de sua configuração. É mesmo possível aplicar essa observação de maneira ampla, e afirmar, em princípio, que a fisionomia é uma espécie de documento, utilizável em muitos casos para discutir ou elucidar os indícios da história sobre a origem dos povos…”
Depois de ilustrar esta proposição com o caso dos normandos, que, nove­centos anos depois da conquista da Normandia, ainda se assemelham aos dinamarqueses, Volney acrescenta:
“Mas, voltando ao Egito, sua contribuição para a história fornece muitos temas para a reflexão filosófica. Que temas importantes para meditação: a atual barbárie e ignorância dos coptas, considerados como tendo nascido do gênio dos egípcios e dos gregos; o fato de esta raça de negros, que hoje são escravos e objeto de nosso menosprezo, ser a mesma a quem devemos nossa arte, nossas ciências e mesmo o uso da palavra escrita; e, finalmente, o fato de, entre os povos que pretendem ser os maiores amigos da liberdade e dahumanidade ter-se sancionado a escravidão mais bárbara e questionado se os negros teriam cérebros da mesma qualidade que os cérebros dos brancos!” 42

A esse depoimento de Volney, Champollion-Figeac, irmão de Cham­pollion, o Jovem, iria responder nos seguintes termos: “Os dois traços físicos apresentados – pele negra e cabelo crespo – não são suficientes para rotular uma raça como negra, e a conclusão de Volney quanto à origem negra da antiga população do Egito é nitidamente forçada e inadmissível”. 43
Ser preto da cabeça aos pés e ter cabelo crespo não é suficiente para fazer de um homem um negro! Isso nos mostra o tipo de argumentação cap­ciosa a que a egiptologia tem recorrido desde seu nascimento como ciência. Alguns estudiosos sustentam que Volney estava tentando desviar a discussão para um plano filosófico. Mas basta reler Volney: ele simplesmente faz inferências a partir de fatos materiais brutos que se impõem como provas aos seus olhos e à sua consciência.

Os egípcios vistos por si mesmos
Não é perda de tempo conhecer o ponto de vista dos principais envolvidos. Como os antigos egípcios viam a si mesmos? Em que categoria étnica se colocavam? Como denominavam a si mesmos? A língua e a literatura que os egípcios da época faraônica nos deixaram fornecem respostas explícitas a essas questões, que os acadêmicos insistem em subestimar, distorcer e “interpretar”.
Os egípcios tinham apenas um termo para designar a si mesmos: = kmt = “os negros” (literalmente) 44. Esse é o termo mais forte existente na língua faraônica para indicar a cor preta; assim, é escrito com um hieróglifo representando um pedaço de madeira com a ponta carbonizada, e não com escamas de crocodilo 45. Essa palavra é a origem etimológica da conhecida raiz kamit, que proliferou na moderna literatura antropológica. Dela deriva, provavelmente, a raiz bíblica kam. Portanto foi necessário distorcer os fatos para fazer com que essa raiz atualmente signifique “branco” em egiptologia, enquanto, na língua-mãe faraônica de que nasceu, significava “preto­-carvão”.
Na língua egípcia, o coletivo se forma a partir de um adjetivo ou de um substantivo, colocado no feminino singular. Assim, kmt, do adjetivo = km = preto, significa rigorosamente “negro”, ou, pelo menos, “homens pretos”. O termo é um coletivo que descrevia, portanto, o conjunto do povo do Egito faraônico como um povo negro.

Em outras palavras, no plano puramente gramatical, quando, na língua faraônica, se deseja indicar “negros”, não se pode usar nenhuma outra palavra senão a que os egípcios usavam para designar a si mesmos. Além disso, a língua nos oferece um outro termo, = kmtjw = os negros, os homens pretos (literalmente) = os egípcios, opondo-se a “estrangeiros”, que vem da mesma raiz, km, e que os egípcios também utilizavam para descrever a si mesmos como um povo distinto de todos os povos estrangeiros 46. Esses são os únicos adjetivos de nacionalidade usados pelos egípcios para designarem a si mesmos, e ambos significam “negro” ou “preto” na língua faraônica. Os acadêmicos raramente os mencionam ou, quando o fazem, traduzem-nos por eufemismos, tais como “os egípcios”, nada dizendo sobre seu sentido etimológico 47. Eles preferem a expressão = Rmt kmt = os homens do país dos homens negros ou os homens do país negro.
Em egípcio, as palavras são normalmente seguidas de um determinante, indicando seu sentido exato; para essa expressão particular, os egiptólogos sugerem que = km = preto e que a cor qualifica o determinanteque o segue e que sígnifica “país”. Assim, eles alegam que a tradução deveria ser “a terra negra”, a partir da cor do limo ou “o país negro”, e não “o país dos homens negros”, como tenderíamos a interpretar hoje em dia, tendo em mente a África branca e a África negra. Talvez estejam certos; mas, se apli­carmos essa regra rigorosamente a = kmit, seremos obrigados a “admitir que aqui o adjetivo ‘preto’ qualifica o determinante, que significa todo o povo do Egito, representado pelos dois símbolos de ‘homem’ e ‘mu­lher’ e os três traços embaixo, designando plural”. Assim, se é possível levan­tar alguma dúvida sobre a expressão = kme não é possível fazê-lo no caso dos dois adjetivos de nacionalidade kmt e kmtjw, a menos que se estejam escolhendo os argumentos sem nenhum critério.

É interessante notar que os antigos egípcios nunca tiveram a idéia de aplicar esses qualificativos aos núbios e a outras populações da África, para distingui-las deles mesmos, da mesma forma que um romano, no apogeu do Império, não usaria um adjetivo de “cor” para se distinguir dos germânicos da outra margem do Danúbio, que eram da mesma matriz étnica mas se encontravam ainda num estádio de desenvolvimento pré-histórico.
Nos dois casos, ambos os lados pertenciam ao mesmo universo, em termos de antropologia física; portanto os termos usados para distingui-los relacionavam-se ao grau de civilização ou tinham sentido moral. Para o romano civilizado, os germânicos, da mesma matriz étnica, eram bárbaros. Os egípcios usavam a expressão= nahas para designar os núbios; e nahas 48, em egípcio, é o nome de um povo, sem conotação de cor. Trata-se de um equívoco deliberado traduzi-lo como “negro”, como aparece em quase todas as publicações atuais.

Os epítetos divinos
Finalmente, preto ou negro é o epíteto divino invariavelmente utilizado para designar os principais deuses benfeitores do Egito, enquanto os espíritos malévolos são qualificados como desrêt = vermelho. Sabemos que, entre os africanos, esse termo se aplica às nações brancas; é quase certo que isso seja verdade também para o Egito mas, neste capítulo, quero ater-me ao plano dos fatos menos sujeitos a controvérsias.
Os deuses recebiam os, seguintes epítetos:
= kmwr = o “Grande Negro” para Osíris 49;
= km = negro + o nome do deus 50;
= kmt = negro + o nome da deusa 51.

O qualificativo km (negro), , é aplicado a Hátor, Apis, Min, Tot, etc. setkmt = a mulher negra = Ísis 52. Por outro lado, seth, o deserto estéril, é qualificado pelo termo desrêt = vermelho 53. Os animais selvagens, que Hórus combateu para criar a civilização, são qualificados como desrêt = vermelhos, especialmente o hipopótamo 54. Analogamente, os seres malévolos expulsos por Tot são des = = desrtjw = os verme­lhos. Esse termo é o inverso gramatical de Kmtjw, e sua construção segue a mesma regra que a da formação de nisbés.

Testemunho da Bíblia
A Bíblia nos diz: “…os filhos de Cam [foram] Cush, e Mizraim (isto é, Egito), e Fut, e Canaã. E os filhos de Cush, Saba, e Hevila, e Sabata, e Regna, e Sabataca” 55.
De maneira geral, toda a tradição semítica (judaica e árabe) classifica o antigo Egito entre os países dos negros.
A importância desses depoimentos não pode ser ignorada, porque os judeus eram povos que viviam lado a lado com os antigos egípcios e, algumas vezes, em simbiose com estes, e nada tinham a ganhar apresentando uma falsa imagem étnica dos mesmos. Da mesma forma, neste caso não se sustenta a noção de uma interpretação errônea dos fatos 56.

Dados culturais
Dentre os inúmeros traços culturais idênticos documentados no Egito e na África negra dos nossos dias, vamos referir-nos apenas à circuncisão e ao totemismo.
Segundo o excerto de Heródoto citado anteriormente, a circuncisão é de origem africana. A arqueologia confirmou a opinião do Pai da História: Elliot-Smith pôde comprovar, a partir do exame de múmias bem conservadas, que a circuncisão já era praticada, entre os egípcios, em tempos que remontam à era proto-histórica 57, isto é, a antes de – 4000.
O totemismo egípcio manteve sua vitalidade até o período romano 58, e Plutarco também o menciona. As pesquisas de Amélineau 59, Loret, Moret e Adolphe Reinach demonstraram claramente a existência de um sistema totêmico no Egito, refutando os defensores da tese da zoolatria.
“Se reduzirmos a noção de totem à de um fetiche, geralmente animal, representando uma espécie com a qual a tribo acredita ter laços especiais, renovados periodicamente, e que é carregado para a batalha como um estandarte; se aceitarmos essa definição de totem, mínima mas adequada, pode-se dizer que não há outro país onde o totemismo tenha tido um reinado mais brilhante do que no Egito, e nenhum outro lugar onde ele possa ser mais bem estudado” 60

 

Afinidade lingüística
O walaf 61, língua senegalesa falada no extremo oeste da África, na costa atlântica, é, talvez, tão próxima do egípcio antigo quanto o copta. Recentemente foi feito um estudo exaustivo sobre essa questão 62. Neste capítulo, apresenta­mos apenas o suficiente para mostrar que o parentesco entre as línguas do antigo Egito e as da África não é uma suposição, mas um fato demonstrável e impossível de ser ignorado pelos círculos acadêmicos.
Como veremos, o parentesco é de natureza genealógica.

Egípcio Copta Walaf
= kef = agarrar, pegar, despojar (de alguma coisa) 63 (dialeto saídico) keh = domesticar 64 Kef = apanhar uma presa
PRESENTE PRESENTE PRESENTE
kef i keh kef na
kef ek keh ek kef nga
kef et keh ere kef na
kef ef kef ef
kef es keh es kef ef }na
kef es
kef n keh en kef nanu
kef ton keh etetû kef ngen
kef sen 65 keh ey kef nanu

PASSADO PASSADO PASSADO
kef ni keh nei kef (on) na
kef (o) nek keh nek kef (on) nga
kef (o) net keh nere kef (on) na
kef (o) nef keh nef kef (on) ef na
kef (o) nes keh nes kef (on) es
kef (o) nen keh nen kef (on) nanu
kef (o) n ten keh netsten kef (on) ngen
kef (o) n sen 66 keh ney 67 kef (on) na^nu

Egípcio – Walaf
= feh = partir feh = partir, precipitadamente

Temos as seguintes correspondências entre as formas verbais, com identidade ou semelhança de significados: todas as formas verbais egípcias, com exceção de duas também são encontradas em walaf.

EGÍPCIO WALAF
{ feh-ef { feh-et
feh-es feh-es
{ feh-n-ef { feh-ôn-et
feh-n-es feh-ôn-es
feh-w feh-w
{ feh-w-ef { feh-w-ef
feh-w-es feh-w-es
{ feh-w-n-ef { fe-w-ôn-ef
feh-w-n-es fe-w-ôn-es
{ feh-in-ef { feh-il-ef
feh-in-es feh-il-es

EGÍPCIO WALAF
= mer = amar mar = lamber 68

{ mer-ef { mar-ef
mer-es mar-es
{ mer-n-ef { mar-ôn-ef
mer-n-es mar-ôn-es
mer-w mar-w
{ mer-w-ef { mar-w-ef
mer-w-es mar-w-es
{ mer-w-n-f { mar-w-ôn-ef
mer-w-n-es mar-w-ôn-es
{ mer-in-f { mar-il-ef
mer-in-es mar-il-es
{ mer-t-ef { mar-t-ef
mer-t-es mar-t-es
{ mer-tw-ef { mar-tw-ef
mer-tw-es mar-tw-es
{ mer-tyfy { mar-at-ef
mer-t-tysy mar-at-es
{ mar-aty-sy
mar-aty-sy
mer-kwi mari-kw
{ mer-y-ef { mar-y-ef
mer-y-ef mar-y-es
{ mer-n-tw-ef { mar-an-tw-ef
mer-n-tw-es mar-an-tw-es
{ mar-tw-ôn-ef
mar-tw-ôn-es

Essas correspondências fonéticas não podem ser atribuídas a afinidades elementares ou a leis gerais do espírito humano, visto tratar-se de correspondências regulares, em pontos relevantes, que se estendem por todo o sistema: os demonstrativos, nas duas línguas, e as formas verbais. Foi através da aplicação de leis como essas que se tornou possível demonstrar a existência da família linguística indo-européia.
A comparação poderia ir ainda mais longe, mostrando que a maioria dos fonemas se mantêm inalterados nas duas línguas. As poucas mudanças de grande interesse são as seguintes:

(a) A correspondência n (E) è l (W)

Ainda é cedo para se falar com precisão sobre os acompanhamentos vocá­licos dos fonemas egípcios. Abre-se, porém, um caminho para a redescoberta do vocalismo do antigo Egito a partir de estudos comparativos com outras línguas da África.

Conclusão
A estrutura da realeza africana, em que o rei é morto, real ou simbolicamente, depois de um reinado de duração variável – em torno de oito anos -, lembra a cerimônia de regeneração do faraó, através da festa de Sed. Os ritos de circuncisão já mencionados, o totemismo, as cosmogonias, a arquitetura, os instrumentos musicais, etc. também são reminiscências do Egito na cultura da África Negra 70. A Antigüidade egípcia é, para a cultura africana, o que é a Antigüidade greco-romana para a cultura ocidental. A constituição de um corpus de ciências humanas africanas deve ter isso como base.
Çompreende-se como é difícil escrever um capítulo como este numa obra deste gênero, onde o eufemismo e a transigência via de regra, prevalecemcem. Por isso, na tentativa de evitar o sacrifício da verdade científica, insistimos na realização de três sessões preliminares à preparação deste volume o que foi aceito na sessão plenária realizada em 1971 71. As primeiras duas sessões levaram à realização do simpósio do Cairo, de 28 de janeiro a 3 de fevereiro de 1974 72. Gostaria de mencionar algumas passagens do relatório desse simpósio. O professor Vercoutter, que fora encarregado pela Unesco de escrever o relatório preliminar, reconheceu, depois de uma discussão exaustiva, que a idéia convencional de que a população egípcia se dividia eqüitativamente em brancos, negros e mestiços não podia ser mantida:
“O professor Vercoutter concordou que não se deve tentar estimar porcentagens; elas nada significariam na medida em que não se dispõe de dados estatísticos confiáveis para calculá-las”.
Sobre a cultura egípcia consta no relatório:
“O professor Vercoutter observou que, de seu ponto de vista, o Egito era africano quanto à escrita, à cultura e à maneira de pensar”
O professor Leclant, por sua vez, “reconheceu o mesmo caráter africano no temperamento e maneira de pensar egípcios”.

Quanto à lingüística, afirma-se no relatório que “este item, ao contrário dos outros discutidos anteriormente, revelou um alto grau de concordância entre os participantes. O relatório elaborado pelo professor Diop e o relatório do professor Obenga foram considerados muito construtivos”.
Da mesma maneira, o simpósio rejeitou a idéia de que o egípcio faraônico era uma língua semítica. “Abordando questões mais amplas, o professor Sau­neron chamou a atenção para o interesse do método sugerido pelo professor Obenga, seguindo o professor Diop. O egípcio manteve-se como uma língua estável por um período de, pelo menos, 4 500 anos. O Egito situa-se no ponto de convergências externas, e seria de se esperar, portanto, que se fizessem em­préstimos de outras línguas; mas as raízes semíticas se reduzem a algumas cen­tenas, para um total de muitos milhares de palavras. A língua egípcia não pode ser isolada de seu contexto africano, e sua origem não pode ser total­mente explicada a partir das línguas semíticas. Portanto é natural que se espere encontrar na África línguas aparentadas ao egípcio”.
A relação genética – isto é, não acidental – entre o egípcio e as lín­guas africanas foi reconhecida: “O professor Sauneron observou que o método utilizado era muito interessante, uma vez que a similaridade entre os sufixos dos pronomes da terceira pessoa do singular no egípcio antigo e na língua walaf não poderia ser mera casualidade; ele espera que se tente no egípcio antigo e na língua walaf reconstituir uma língua paleoafricana, tomando como ponto de partida as línguas atuais”.

Na conclusão geral do relatório, afirmava-se: “a despeito das especifica­ções constantes do texto preparatório distribuído pela Unesco, nem todos os participantes prepararam comunicações comparáveis às dos professores Cheikh Anta Diop e Obenga, meticulosamentc elaboradas. Conseqüentemente, houve uma considerável falta de equilíbrio nas discussões”.
Assim, escreveu-se no Cairo uma nova página da historiografia africana. O simpósio recomendou que se fizessem novos estudos sobre o conceito de raça. Tais estudos têm sido realizados desde então, mas não trouxeram nada de novo à discussão histórica. Dizem-nos que a biologia molecular e a genética reconhecem apenas a existência de populações, e que o conceito de raça já não tem qualquer significado. No entanto, sempre que aparece alguma questão sobre a transmissão de doenças hereditárias, o conceito de raça, no sentido mais clássico do termo, reaparece, pois a genética nos ensina que “a anemia falciforme ocorre apenas entre os negros”. A verdade é que todos estes “antropólogos” já esquematizaram em suas mentes as conclusões deriva­das do triunfo da teoria monogenética da humanidade, sem ousar dizê-lo expli­citamente, pois, se a humanidade teve origem na África, foi necessariamente negróide antes de se tornar branca através de mutações e adaptações, no final da última glaciação na Europa, no Paleolítico Superior. E agora compreen­de-se muito melhor por que os negróides grimaldianos ocuparam a Europa 10 mil anos antes do aparecimento do Homem de Cro-Magnon, protótipo da raça branca (por volta de – 20000).

O ponto de vista ideológico também é evidente em estudos aparentemente objetivos. Na história e nas relações sociais, o fenótipo – isto é, o indivíduo ou o povo tais como são percebidos – é o fator dominante, em oposição ao genótipo. A genética atual nos autoriza a imaginar um Zulu com o “mesmo” genótipo de Vorster. Isso significa que a história que testemunhamos colo­cará esses dois fenótipos – isto é, os dois indivíduos – no mesmo nível em todas as suas atividades nacionais e sociais? Certamente não – a oposição continuará sendo étnica, e não social. Este estudo torna necessário que se reescreva a história da humanidade a partir de um ponto de vista mais científico, levando em conta o componente negro-africano, que foi, por longo tempo, preponderante. Assim, é, doravante, possível constituir um corpus de ciências humanas negro-africanas apoiado em bases históricas sólidas, e não suspenso no ar. Finalmente, se é fato que só a verdade é revolucionária, deve-se acrescentar que só um rapprochement realizado com base na verdade será dura­douro. Não se contribui para a causa do progresso humano lançando um véu sobre os fatos.
A redescoberta do verdadeiro passado dos povos africanos não deverá ser um fator de divisão, mas contribuir para uni-los, todos e cada um, estrei­tando seus laços de norte a sul do continente, permitindo-lhes realizar, juntos, uma nova missão histórica para o bem da humanidade, e isto em consonância com os ideais da Unesco 73.

Texto extraído de
A África Antiga/ coordenador do volume G. Mokhtar; (tradução Carlos Henrique Davidoff… et al.). – São Paulo: Ática (Paris): Unesco; 1983.
(História Geral da África, v.2).
Acima do título: Comitê Científico Internacional para a Redação de uma História Geral da Áftica (Unesco).

 

NOTAS
1 PROCEEDINGS OF THE SEVENTH PAN-AFRICAN CONGRESS OF PRE-HISTORY AND QUARTERNARY STUDIES, Dec. 1971. È
2 MONTAGU, M. F. A. 1960, p. 390. È
3 Pelo método descrito pode-se avançar o estudo da pigmentação dessa raça. De fato, ELLIOT-SMITH muitas vezes encontrou fragmentos de pele nos corpos datando de época em que os métodos de mumificação que causavam a deterioração da pele ainda não estavam em uso. È
4 PEDRALS, D. P. de 1950, p. 6. È
5 GEOGRAPHIE. Classe de 5.ª, 1950. È
6 Em seu Lutte dês races (1883), L. GLUMPOVICZ afirma que as diferentes classes que formam um povo sempre representam diferentes raças, das quais uma estabeleceu sua dominação sobre as outras através da conquista. G. DE LAPOUGE, em um artigo publicado em 1897, postula nada menos do que “leis fundamentais da antropossociologia”, das quais podemos citar algumas que são típicas: a “lei da distribuição da riqueza” postula que, em países de população mista alpino-européia, a riqueza cresce em proporção inversa ao índice cefálico; a “lei dos índices urbanos” , destacada por AMMON e ligada à pesquisa que realizou entre os prisioneiros de Badener, afirma que a presença de dolicocefalia entre os habitantes das cidades é maior do que entre os habitantes da zona rural adjacente; a “lei da estratificação” foi formulada nos seguintes termos: “em cada localidade, o índice cefálico é tanto menor, e a proporção de dolicocefalia é tanto maior, quanto mais alta é a classe social”. Em seu Séléctions Sociales, o mesmo escritor não hesita em afirmar que “a classe dominante no período feudal pertence quase que exclusivamente à variedade Homo europaeus, de maneira que não é por mero acaso que os pobres ocupam as baixas posições na escala social, mas por sua inferioridade congênita”.
“Vemos, portanto, que o racismo alemão não inventou nada de novo quando Alfred Rosenberg afirmou que a Revolução Francesa deve ser considerada como uma revolta dos braquicéfalos de matriz racial alpina contra os dolicocéfalos de raça nórdica.” CUVILLIER, A. p. 155. È

36 DIODORO. História Universal. Livro III. A antiguidade da civilização etíope é atestada pelo mais antigo e respeitado escritor grego, Homero, tanto na Ilíada como na Odisséia: “Hoje, Júpiter, seguido por todos os deuses, recebe o sacrifício dos etíopes” (Ilíada. I, 423). È
37 DIÓGENES LAÉRCIO. Livro VII, I. È
38 Os notáveis do Egito gostavam de ter uma escrava síria ou cretense em seus haréns. È
39 AMIANO MARCELINO. Livro XXII, parágrafo 16 (23). È
40 Bandos de piratas que usavam pequenas embarcações chamadas Camare. È
41 AMIANO MARCELINO. Livro XXIII, parágrafo 8 (24). È
42 VOLNEY, M. C. F. Voyages en Syrie et en Egypte. Paris, 1787. v. I, pp. 74-7. È
43 CHAMPOLION-FIGEAC, J. J. 1839. pp. 26-7. È
44 Essa importante descoberta foi realizada, do lado africano, por Sossou Nsougan, que deveria compilar esta parte do capítulo. Para o sentido da palavra, ver Wörterbuch der Aegyptischen Sprach. Berlin, 1971. v. 5, pp. 122, 127. È
45 Wörterbuch…, p. 122. È
46 Ibid., p. 128. È
47 FAULKNER, R. O. 1962, p. 286. È
48 Wörterbuch…, p. 128. È
49 Ibid., p. 124. È
50 Ibid., p. 125. È
51 Ibid., p. 123. È
52 Note-se que set = kem = esposa negra em walaf. Wörterbuch…, p. 492. È
53 Wörterbuch…, p. 493. È
54 Desrêt = sangue, em egípcio; deret = sangue, em walaf. Ibid., p. 494. È
55 Gênesis, 10: 6-7. È
56 DIOP, C. A., 1955, pp. 33 et seqs. È
57 MASSOULARD, E. 1949, p. 386. È
58 JUVENAL. Sátiras, XV, v. 1-14. È
59 AMÉLINEAU, E. Op. cit. È
60 REINACH, A. 1913, p. 17. È
61 Grafa-se, freqüentemente, wolof. È
62 DIOP, C. A. 1977 (a). È
63 LAMBERT, R. 1925, p. 129. È
64 MALON, A. pp. 207-34. È
65 BUCK, A. de. 1952. È
66 Id. È
67 MALLON, A. pp. 207-34. È
68 Por extensão, = amar intensamente (de onde o verbo mar-maral), tal como a fêmea que lambe o filhote que ela acabou de parir. Esse sentido não se opõe à idéia de um homem levando a mão à boca, que pode ser evocada pelo determinativo. È
69 Veja, em seguida, a explicação dessa importante lei. È
70 Ver DIOP, C. A. 1967. È70 Ver DIOP, C. A. 1967. È
71 Ver UNESCO. Relatório Final da Primeira Sessão Plenária do Comitê Científico Internacional para redação de uma História Geral da África. 30 mar./8 abr. 1974. È
72 Simpósio sobre “O povoamento do Antigo Egito e a decifração da escrita meroítica”. Cf. UNESCO. Studies and Documents, I, 1978. È
73 Nota do coordenador: As opiniões expressas pelo Professor Cheik Anta Diop neste capítulo são as mesmas que ele apresentou e desenvolveu no simpósio da Unesco sobre “O povoamento do Antigo Egito”, realizado no Cairo, em 1974. Um sumário dos resultados desse simpósio se encontram no final do capítulo. Os argumentos apresentados neste capítulo não foram aceitos por todos os especialistas interessados no problema (Cf. Introdução, acima). Gamal Makhtar.

A alegoria dos eunucos negros – por Edridge Cleaver

A Alegoria dos Eunucos Negros

Eldridge Cleaver, em Alma no Exílio

Sentei-me para comer o feijão numa mesa de quatro com dois de meus antigos colegas de prisão: jovens, fortes e superlativos Eunucos Negros em toda a sua plenitude. Pouco depois, um Lázaro velho e gordo, de cabelos grisalhos, lisos e lustrosos, artificialmente esticados, com um sorriso agitado e alegre, que o fazia parecer um chocolate da marca Papai Noel, convidou-se para a nossa mesa e sentou-se na cadeira em frente à minha. Sorrisos irônicos acenderam nossas faces negras e um fogo intenso ardia em nossos olhos enquanto examinávamos aquele Lázaro intrometido.

Uns poucos minutos se passaram em silêncio.

Eu e meus colegas tínhamos um pensamento a respeito de negros velhos como aquele ali, sentado bem na minha frente. Havia alguma coisa em seu tipo, a maneira como se comportava, que desprezávamos. Nós o classificávamos como um Tio Tom – não que o tivéssemos visto curvando-se e lambendo os sapatos do homem branco, mas sabíamos que os rebeldes negros de sua idade não mais caminhavam pelas ruas da América: ou estavam mortos, presos, ou exilados em outro país. Ou qualquer outra coisa. Assim, já tínhamos uma opinião formada sobre ele, um tipo fingido que prolifera no gueto negro. Apesar de não ser um opositor passivo (e não se tratava de um não-violento), estava morto dentro de outro negro; e, apesar do homem branco lhe ter arrancado toda a vida, toda a raça, permanecia falando a respeito do que faria se o homem branco lhe tivesse feito alguma coisa pessoalmente. Se apenas falar derrubasse um governo, ele já estaria no poder. De um certo ponto de vista, odiávamos este negro, mas no fundo ficávamos fascinados com os curiosos termos aos quais ele chegara em sua relação com o mundo.

Pouco depois, e sem nenhuma provocação aparente, o jovem Eunuco do meu lado esquerdo, batendo com a mão fechada sobre a mesa para dar mais ênfase, esbravejou:

– Velho Lázaro, como é que você ainda está vivo?

– O quê? – perguntou o Infiel, surpreso mais pela maneira súbita e o tom ameaçador em que lhe foi feita do que pela própria pergunta. (Afinal, toda a sua geração fora interrogada com a mesma pergunta, de milhões de maneiras diferentes: Charlie Parker perguntou a Lester Young, Dizzy Gillespie a Louis Armstrong, Mao Tsé-Tung a Chiang Kai-Shek, Fidel Castro a Batista, Malcolm X a Martins Luther King. Robert F. Williams a Roy Wilkins, Norman Mailer aos Quadrados Totalitários.) A pergunta foi penetrando vagarosamente e, enquanto isso, o sorriso de Papai Noel transformava-se , mostrando sinais de pânico, numa contração no canto esquerdo de sua boca oleosa. Seus olhos, escuros, pequenos e redondos, saltaram e fixaram-se no interrogador.

– Perguntei-lhe por que ainda não está morto? – repetiu o Eunuco à minha esquerda.

– Porque eu deveria estar morto? Eu não enten…

– Se você tivesse sacrificado a vida – o Eunuco interrompeu-o – poderíamos pelo menos respeitá-lo. Poderíamos, pelo menos, dizer que você foi um homem – um grande homem. Pelo menos poderíamos apontar para o seu túmulo como um sinal, um modelo, com orgulho – com reverência! Mas não, seu retardatário bajulador, você se atreveu a manter-se apegado à sua miserável vida, a envelhecer e ficar com os cabelos brancos, gorduchão e acovardado!

O Acusador parou de falar e começou a comer o feijão com ar de vingança, como se cada grão fosse um homem branco, esmagando-os com a colher.

– O que há de errado com esse sujeito, hoje? – perguntou o Acusado, com o rosto deformado pela perplexidade e nervosismo.

– Está doente – tentei eu, para ver como o Infiel reagiria.

– Deve estar doente – disse o Acusado, mexendo o café timidamente. – Toda esta conversa estúpida sobre morte e morrer.

– Sim, estou doente! – descarregou o Acusador, quase sufocado, falando entre os feijões. – Você me faz ficar doente, Matusalém! O que está tentando fazer, ganhar uma competição de longevidade? Como é que conseguiu esses cabelos brancos? Como se arrumou para sobreviver? É, sim. Estou doente, doente, doente.

– Eu também – disse o Eunuco à minha direita, falando pela primeira vez. – Estou doente, doente, doente.

– Eu também estou – acompanhei.

– Qual é o nome desta brincadeira? – perguntou o Lázaro, tentando, na surdina, dar uma nota de frivolidade. – É nova para mim.

Era algo cruel que estávamos fazendo e nós o sabíamos, porque havíamos feito o mesmo antes com outros. Em certo sentido, estávamos apenas brincando com ele, testando-o, examinando-o, estudando-o, mas em outro plano falávamos a sério. O Lázaro, percebendo a ambigüidade, ficou confuso.

– Você sabe qual a diferença entre um gorila e um guerrilheiro? – o Eunuco à minha direita perguntou ao Acusado.

O Lázaro parecia estar procurando uma resposta.

– Vou tornar as coisas mais fáceis para você – prosseguiu o Eunuco. – Você é um gorila, e um guerrilheiro é tudo aquilo que você não é.

O Acusado abriu a boca para responder, mas o Eunuco à minha esquerda, que atirara a primeira pedra, cortou-o.

– Um guerrilheiro  é um homem – disse com impertinência, os olhos brilhando – mas você é uma espécie de aberração da natureza!

Seguiu-se um silêncio em que todos procuravam e interrogavam a si próprios. Alguém pensou em sangue, revólver e facas, chicotes, cordas, correntes e árvores, gritos, linchamento, medo, cassetetes, cães policiais e mangueiras de bombeiros, incêndios, feridas e bombas, mulheres sofrendo e jovens desonradas, mentiras, zombarias, garotos gelados de frio e rapazes castrados, velhos indefesos, moças fisicamente viciadas e psicologicamente massacradas…

Passados alguns momentos, perguntei ao Acusado, em voz neutra:

– Você já trepou com uma mulher negra?

Como se ele tivesse um interruptor ligado rapidamente, sus olhos acenderam, ansioso pelo que pensava ser uma mudança de assunto. O Lázaro mordeu a isca. O brilho de seus olhos tornou-se maligno no momento em que se debruçou sobre a mesa e me disse, confidencialmente:

– Quisera ter um níquel por cada puta que levou uma pirocada minha! Seria tão rico agora que vocês, seus atrofiados, teriam de fazer seus pedidos com seis meses de antecedência para conseguirem apenas me ver.Vamos ficar sozinhos. Sentem-se numa mesa comigo.

– Uma porrada bem dada no seu pescoço com uma cimitarra é a solução para todos os seus problemas, Lázaro! – disse com um silvo o Acusador, o Eunuco à minha esquerda, com os lábios tremendo de raiva.

– O que quer dizer com isso? – disse o Eunuco à minha direita. – Que durante quatrocentos anos você teve medo do feitor, mas chegou a hora de conhecer o medo de sua própria espécie.

– Ufa! – bufou o Acusado, e levou uma colher cheia de feijão à boca, mastigando-o distraidamente. Passados alguns minutos, voltou a falar. – As mulheres negras tomam a afeição por fraqueza. Dêem-lhe a mínima liberdade e ela os crucificará. Tenho ódio das putas negras. Não se pode confiar nelas como nas mulheres brancas, e se a gente tenta, elas não dão valor e não sabem como agir. É a mesma coisa que tentar mimar uma cobra. Intimamente, todas gostam do homem branco; algumas lhe dirão isso na cara, outras através de ações e palavras. Vocês nunca repararam que, assim que uma mulher negra tem êxito na vida, casa-se com um homem branco? E falo por experiência própria. Cconheço uma puta negra que sempre diz que não existe nada que um homem negro possa fazer por ela, exceto deixá-la a sós ou buscar ou levar um bilhete para o homem branco.

– Não existe amor entre um homem negro e uma mulher negra. Vejam eu, por exemplo. Amo as mulheres brancas e odeio as negras. Está dentro de mim, tão profundo que já não tento mais arrancar. Eu pularia em cima de dez putas crioulas apenas para conseguir uma mulher branca. E não tem esse negócio de mulher branca feia. A mulher branca é bonita mesmo que seja careca e tenha apenas um dente… Não é apenas o fato de ela é uma mulher de quem gosto; admiro a sua pele lisa, macia, pele branca. Fico satisfeito só de lamber sua pele branca como se brotasse mel dos seus poros, e acariciar seus cabelos longos, sedosos e macios. Existe uma suavidade envolvendo a mulher branca, algo delicado e suave no seu interior. Mas uma puta negra me parece feita de aço, dura e resistente como pedra, sem a suavidade e docilidade da mulher branca. Não há nada mais maravilhoso do que os cabelos de uma branca sendo soprados ao vento. A mulher branca é mais do que uma mulher para mim… É como uma deusa, um símbolo. Meu amor por ela é religioso e vai além da imaginação. Eu a adoro. E adoro as calcinhas sujas de uma branca.

– Algumas vezes, penso que o meu sentimento pelas mulheres brancas deve ter sido herdado de meu pai, e do pai do meu pai, e do pai… o mais distante que possamos retroceder na escravidão. Devo ter herdado de todos esses homens negros parte do meu desejo pela mulher branca, porque o meu amor por ela é maior do que o que qualquer homem possa ter tido. É verdade, desejo todas as mulheres brancas que eles desejaram, mas que nunca foram capazes de conseguir. Eles foram passando este desejo para mim, e realmente o passaram; é como um tumor corroendo meu coração e devorando meu cérebro. Nos meus sonhos, vejo mulheres brancas pulando uma cerca como delicados carneirinhos; e, cada vez que uma delas salta, os cabelos são soprados ela brisa e espalham-se por trás da cabeça como a crina de um garanhão Palomino: louras, ruivas, morenas, louras avermelhadas, louras sujas, louras oxigenadas, louras platinadas – todos os tipos. Elas são as cores dos meus pesadelos. Será que isto está parecendo invenção minha, gente moça?

Ele fez sinal para mim; dirigia-me a pergunta. Levei algum tempo para responder. Preferia ficar calado. Mas disse:

– Por que você mentiria para nós? Quero dizer, ninguém pode ser completamente verdadeiro em tudo que diz, e você me deu a impressão de estar falando francamente…

Por dentro ele ria, e eu podia ver nos seus olhos. Então, voltou a falar:

– Bem, fiquei matutando sobre isto durante anos. A gente tem de tentar compreender o que está nos incomodando, entendeu? Mas, realmente, não acredito que possa compreender algo de alguma coisa e menos ainda quando se tem que ordenar tudo. Mas eu me embeicei comigo mesmo e passei a aceitar os meus próprios pensamentos. Por exemplo, não sei exatamente como a coisa funciona, quero dizer, não consigo analisar, mas sei que o homem branco fez da mulher negra o símbolo da escravidão e da mulher branca o símbolo da liberdade. Todas as vezes que abraço uma mulher negra estou abraçando a escravidão, e quando envolvo em meus braços uma mulher branca, bem, estou apertando a liberdade. O homem branco proibiu-me de possuir a mulher branca sob a pena de morte. Literalmente, se tocar a mulher branca, vou pagar com a vida. Os homens morrem pela liberdade, mas os homens negros morrem pela mulher branca, que é o símbolo da liberdade. Este foi o desejo do homem branco e, enquanto ele tiver o poder de impor sua vontade sobre mim, de forçar-me a aceitar o seu desejo, neste assunto ou em outro qualquer, não serei livre. E não serei livre enquanto não puder ter uma mulher branca em minha cama e enquanto o homem branco não se preocupar com suas próprias questões. Até este dia chegar, toda a minha existência estará contaminada, envenenada e corrompida; e eu continuarei sendo um escravo – e assim continuará a mulher branca.

– Você pode não acreditar nisto… quando vou para a cama com uma puta crioula, fecho os olhos e me concentro, e logo começo a acreditar que estou trepando com uma daquelas louras curvilíneas. Conto-lhe a verdade, esta é a única maneira de “traçar” uma negra, fechando os olhos e pensando que ela é Jezebel. Se olhar para baixo e vir debaixo de mim, ou se minha mão tocar em seu cabelo crespo, isto seria o fim, estaria tudo acabado. O melhor seria eu me levantar e cair fora, porque não terminaria mais nada, mesmo se ficasse a noite inteira montado nela. O homem negro que disser que não trepa com a sua Jezebel é um mentiroso deslavado. Acredito que se um líder desejasse unir os negros num bloco sólido, poderia fazê-lo facilmente. Tudo que teria a fazer era prometer a cada homem negro uma mulher branca e a cada mulher negra um homem branco. Teria tantos seguidores que não saberia o que fazer com tanta gente. Acredite-me.

– E vou dizer mais a vocês, gente moça; algo de que não gosto de falar. Detesto falar a respeito destas merdas… Vocês aí, meus chapas, estão muito cheios de si. Pensam que sabem muita coisa sobre vocês, mas realmente não sabem nada, nem de vocês, nem de suas mulheres, nem a respeito da gente branca. Provavelmente, vocês não acreditarão no que eu vou dizer: é algo que incomodará o ego de vocês. Mas, de qualquer maneira, vou lhes contar.

O Lázaro fez uma pausa e contorceu-se, como se tentasse acomodar melhor o traseiro da cadeira. Quando falou novamente, sua voz estava trêmula:

– Aquele que adora a Virgem Maria cobiçará a linda loura. Aquela que anseia ser arremessada nos braços de Jesus, ficará excitada com os olhos azuis e os braços brancos do rapaz tipicamente americano.

A essa altura, Lázaro parou e ficou procurando nossas faces. Mas nossos rostos eram máscaras impenetráveis e, assim, não lhe demos o menor sinal.

– A guerra que está sendo travada entre o homem negro e o homem branco – prosseguiu – não é a única.  A vida está cheia de guerrinhas e a gente combate em todas ao mesmo tempo. É necessária uma grande estratégia para enfrentar todas as hostilidades, precisa-se ter um estilo, e se há alguém fazendo guerra contra você sem que você saiba, bem, você está em maus lençóis, está completamente perdido… Está sendo travada uma guerra entre o homem e a mulher negra, que a transforma numa aliada silenciosa, indireta mas efetivamente, do homem branco. A mulher negra é uma aliada inconsciente e talvez nem perceba isto, mas o homem branco certamente percebe. Esta é a razão, em toda a história, de ter ele feito com que ela subisse economicamente acima de vocês e de mim, para fortalecer a sua mão contra nós. Mas o homem branco é um idiota porque também está travando uma guerra com a mulher branca. E não termina aqui: os homens brancos se combatem entre si.

– O mito da mulher negra robusta é a outra face do mito da loura maravilhosa e estúpida. O homem branco transformou a mulher branca num delicado objeto de cabeça oca e corpo frágil, uma jarra do sexo, e colocou-a sobre um pedestal; e transformou a mulher negra numa Amazona forte autoconfiante para depositá-la em sua cozinha; este é o segredo do avental da Tia Jemina. O homem branco transformou-se no Administrador Onipotente e estabeleceu-se no Primeiro Posto. E transformou o homem negro no Criado Supermasculino, chutando-o para os campos. O homem branco deseja ser o cérebro e quer que sejamos os músculos, o corpo. Tudo isto está entrelaçado de uma maneira louca, que jamais consegui esclarecer. Às vezes, parece-me absolutamente clara e, outras, não acredito. Lembra-nos dois pares de algemas prendendo a nós quatro, reunindo toda a carne branca e negra num certo molde. Daí se explica, quando se desce ao nível mais profundo, o porquê do homem branco não querer que o homem negro, a mulher negra ou a mulher branca, tenham uma educação mais aprimorada. A ilustração destes seria uma ameaça à sua onipotência.

– Vocês nunca perceberam por que o homem branco normalmente aplaude o negro que se destaca com o corpo no terreno do esporte, enquanto odeia ver um homem negro se destacar com o cérebro? A mecânica do mito exige que o Cérebro e o Corpo, como o leste e o oeste, nunca se encontrem, especialmente em competições do mesmo nível. Dentro desta mecânica, o Cérebro e o Corpo são mutuamente exclusivos. Não pode haver uma verdadeira competição entre superiores e inferiores. Por isso tem sido tão penoso para os negros, historicamente, romper a barreira da cor no esporte. Uma vez rompida, a magia evapora-se; e, quando o homem negro começa a tomar vantagem num determinado esporte, a pergunta começa a flutuar em todos os lugares: “O boxe está morrendo? O beisebol está por baixo? O que aconteceu com o futebol? Para onde está indo o basquete?” Na verdade, o novo símbolo da supremacia branca é o golfe, porque ali o Cérebro domina o Corpo. Mas, tão logo o Corpo começa a arrebanhar alguns troféus, a pergunta voltará a ser feita: “O que aconteceu ao golfe?”

– Tudo isto ficou claro quando Joe Louis destruiu Max Schmeling na segunda luta. Schmeling era o tipo do ídolo que o homem branco acalentava e venerava em seu coração. Mas os brancos aplaudiram Joe por esmagar Schmeling. Por quê? Por que a vitória de Joe sobre Schmeling simbolizou o triunfo da democracia capitalista sobre o nazismo? Não! Ttalvez isto tenha pesado um pouco, mas intimamente eles aplaudiram Joe pela mesma razão que desprezaram Ingemar Johansson, embora o tenham recompensado generosamente, por nocautear Floyd Patterson. A vitória de Joe sobre Scchmeling, confirmou, apesar da derrota de Floyd contradizer, a imagem que o homem branco tem do Negro como Criado Supermasculino, a personificação da força bruta irracional, o escravo perfeito. E Sonny Liston, o Corpo irracional, é enaltecido em relação ao barulhento e falagrossa Cassius Clay, porque, afinal, é preciso pelo menos um cérebro de passarinho para dirigir um fala-grossa, e o homem branco despreza esse pouquinho de cérebro num homem negro. E quando Clay, o grosseirão barulhento, abdicou de sua imagem como Corpo e tornou-se Muhammad Ali, o Cérebro, os branquelas não puderam suportar sua impertinência! O homem branco gosta do Criado Supermasculino: John Henry, o homem guiado pelo aço, todo Corpo, posto de joelhos pela Máquina, que é o símbolo fálico do Cérebro e o supremo ideal do Administrador Onipotente. Para a maneira de pensar do homem branco, este era o sistema perfeito das imagens sociais. Mas, como todos os sistemas perfeitos, tem uma gigantesca brecha bem no centro.

– O Administrador Onipotente concedeu ao Criado Supermasculino todos os atributos da masculinidade associados com o Corpo: vigor, força bruta, músculos, e até mesmo a beleza do corpo bruto. Exceto um. Havia um único atributo da masculinidade ao qual ele não desejava renunciar, embora este predicado particular fosse a essência e a sede da masculinidade: o sexo. O pênis. O pênis do homem negro era a chave-inglesa perdida nas engrenagens da máquina perfeita do homem branco. O pênis, virilidade, é do Corpo. Não é do Cérebro: o Cérebro é neutro, HOMO, MÁQUINA. Mas na partilha que o homem branco impôs ao homem negro, este recebeu o Corpo como seu domínio, enquanto ele se apropriava antecipadamente do Cérebro. Pouco tempo depois, o Administrador Onipotente descobriu que, na impetuosidade do seu ardil, ele se confundira e se privara do pênis (Reparem a imagem minúscula que o homem branco faz de seu pênis. Ele o chama de “pica”, “piroca”, “rola”). Assim, ele renegou a barganha. Chamou de volta o Criado Supermasculino e disse: – Olha, rapaz, temos um pequeno ajuste final a fazer. Eu continuo sendo o Cérebro e você o Corpo. Mas, a partir de agora, você cuidará do batente e eu cuidarei das trepadas. O Cérebro precisa controlar o Corpo. Para provar minha onipotência, preciso corneá-lo e agrilhoar suas “bolas” de touro. Restringirei o raio de ação de sua “vara” e limitarei o seu alcance. Minha “pica” sobrepujará sua “vara”. Já fiz os cálculos e terei a liberdade sexual. Vou controlar sua “vara” com minha vontade onipotente, e impor limitações às suas aspirações; e, se violá-las, você estará sujeito à pena de mote… Terei acesso à mulher branca e à mulher negra. A mulher negra terá acesso a você – mas também a mim. A mulher branca terá acesso a mim, o Administrador Onipotente, mas não permitirei que ela chegue até você, o Criado Supermasculino. Sujeitando sua masculinidade ao controle de minha vontade, estarei também lhe controlando. A haste do Corpo, o pênis, deve submeter-se ao desejo do Cérebro.

– Era a solução perfeita, apenas não funcionava. Soment conseguiu ocultar a verdade. Na verdade, não se pode dissociar o pênis do Corpo! Nem mesmo o Cérebro, o Administrador Onipotente, pode fazer isto! Mas pode-se capturar o corpo num momento de excitação, numa frustração violenta e cheia de ódio por esta grande brecha do plano perfeito, esta chave-inglesa da máquina perfeita, amarrar o Corpo na árvore mais próxima e arrancar o seu estranho fruto, conservando-o numa garrafa e levando-o para casa para entregá-lo à linda loura estúpida e, depois, regozijar-se na mentira de que não o Corpo, mas o Cérebro é o homem.

O Lázaro parou de falar e ficou sentado com a boca aberta. Sua respiração estava acelerada, como se tivesse corrido e ficado sem fôlego. O Eunuco à minha esquerda arregalara os olhos e ficara fitando o espaço, o que fazia deliberadamente para evitar que alguém percebesse o ar de espanto que, eu sabia, seus olhos certamente refletiam. Os pensamentos recusaram cristalizar-se em minha mente; despejei mais café na minha xícara e assim que a aproximei dos lábios soprei suavemente a superfície espumosa e escura, e fiquei olhando por sobre a borda da xícara para o Infiel, que permanecia sentado com o rosto contorcido, mordendo seu grande lábio inferior como se estivesse lutando para lembrar-se de alguma coisa, ou talvez para compreender ou imaginar algo. Parecia confuso. O Eunuco à minha direita permanecia contemplando o prato de feijão.

De repente, o Infiel levantou os olhos e encarou-me. Via-se no seu olhar uma expressão cruel e mortificada. Eu podia sentir como era grande a sua dor e aflição. Aquilo me fez ter medo – não tanto do Infiel mas de mim mesmo, da minha geração, dos meus colegas, porque não tinha certeza se eu, nós, sabíamos o que fazer ou se aprenderíamos antes que fosse muito tarde, e se seríamos capazes de escapar, algum dia, àquela mesma dor profunda, de mim, de nós mesmos. Parecia-me, naquele momento, e sabia que o mesmo pensamento corria através das mentes de meus colegas Eunucos, que qualquer destino, a morte, a câmara de gás, a cadeira elétrica, o pelotão de fuzilamento, a heroína, o suicídio – qualquer coisa, enfim, seria melhor que submeter-se à terrível e insuportável dor à qual o Infiel aprendera a acostumar-se. Senti um calor latejando em meus culhões. Instintivamente, e com uma sensação de pânico, levei a mão até o meio das coxas quase temendo que minha “vara” tivesse desaparecido, mas ela estava lá, ereta, e apertei-a. Uma onda de vigor rolou pelo meu corpo. Senti-me potente e sabia do que seria capaz, caso nunca traísse a lei da minha “vara”. O Infiel sorriu e, então, tive certeza que ele lera meus pensamentos. Respirou forte e recostou-se na cadeira, começando a falar com voz pausada, quase monótona:

– Certa ocasião, tive uma mulher – não, uma puta! – que tinha um soco como o de Sugar Ray Robinson. Eu era obrigado a nocauteá-la todas as noites de sábad. Começava sempre uma discussão e, depois, avançava contra mim, igual a um homem. Como você pensaria em tratar um puta que não pode viver com você sem brigar? E ela não precisava se enervar comigo para começar a briga. Fiz a experiência. Limitei-me, um dia, a ficar de pé, olhando-a de modo a fazê-la entender que eu não me importava com o que ela dizia, da mesma forma como se lhe dissesse: “Olha, menina, isso é com você. O que quer que possa acontecer, você será a culpada”. PUM! Ela atingiu-me na boca. Foi então que cheguei à conclusão de que ela não podia aceitar-me como homem, a menos que agisse como o Corpo, exercendo força física. Não revidei o soco. Fiquei furioso, com a maior raiva que já senti na vida. Na verdade, acho que fiquei momentaneamente fora de mim. Agarrei-a pelo braço, puxei meu canivete de mola – com uma lâmina de oito polegadas – armei-o e obriguei-a a sentar-se no sofá. No momento, podia ver que pensava que tudo estava acabado para ela. Seus olhos ficaram tão grandes quanto os de uma vaca e ela estava realmente apavorada. Coloquei o canivete na mão dela e forcei-a a ficar com ele. Deixei então os braços caírem em torno do seu corpo e pousei a cabeça sobre seu colo. A mulher ficou furiosa. Ameaçou cortar a minha jugular se não saísse dali. Não era meu hábito e tampouco tinha a intenção de levantar-me. Parecia que, se eu o fizesse, não teria o prazer de viver outro segundo. Esta foi a sensação que senti; se me levantasse e a deixasse agir ou tentasse me proteger de qualquer maneira do canivete, não teria outra oportunidade de continuar vivendo. Assim, fiquei prostrado naquela posição com a jugular exposta para ela e para o canivete. Tentei dormir. A princípio, ela tentou tirar minha cabeça do seu colo, depois parou e, então, começou a chorar. Eu podia sentir os soluços sacudindo o seu corpo. Mas mantive os olhos fechados e continuei tentando dormir. Não tive sonhos nem nada. Foi um sono profundo, pacífico e suave. Posso ainda lembrar o êxtase daquele sono. Nunca na minha vida experimentara coisa tão igual, tão cheia de felicidade. Quando acordei, ela segurava minha cabeça deitada no seu colo e seu rosto possuía um brilho virtuoso e maravilhoso, uma expressão extremamente estranha em comparação com tudo que eu vira antes. Então, lembrei-me do canivete e um grande temor se apoderou de mim. Saltei para o chão e olhei ao redor. Ela fechara o canivete, quebrara a lâmina e o atirara no chão do quarto. Meu estômago tremeu quando imaginei a grande chance que eu tivera.

– Afinal, ficamos em paz durante cerca de um mês. Nossas relações foram insufladas com nova vida e vitalidade. Durante aquele tempo não tivemos uma única briga, nenhuma palavra áspera passara entre nós. Aquela pedra, aquele aço (que eu odeio na puta negra!) desaparecera. E, estranhamente, senti-me agindo com naturalidade, sem pretensões a respeito dela. Parecia, naqueles dias, como se estivéssemos dançando, perfeitamente, no ritmo e no passo um do outro. Um dia, então, estávamos passeando de automóvel e avancei um sinal amarelo um pouco tarde demais, e logo um tira de motocicleta veio ao meu encalço.

– Hê, rapaz – disse ele para mim. – Você não sabe distinguir cores?

Não queria uma multa e, portanto, decidi falar com ele francamente. Fiz a minha parte, dei-lhe um grande sorriso e expliquei que realmente lamentava o ocorrido, que pensara poder ultrapassar o sinal a tempo, mas meu carro era muito velho e vagaroso. Ele falou rispidamente comigo, e lançou-se em um longo discurso sobre a importância de saber obedecer às leis e regulamentos e da impossibilidade de uma sociedade ser controlada e administrada sem obediência às leis. Limitei-me a dizer uma porção de “Sim, Senhor” e “Não, senhor”, e ele mandou que eu fosse andando e que me comportasse como um bom menino. Quando arranquei, lancei o olhar para minha mulher e vi que estava de mau humor. Aquela doçura do mês anterior desaparecera e eu podia sentir novamente a pedra e o aço. Quando chegamos em casa, ela começou a discutir comigo, mas recusei-me a responder.  Sem dizer nada, arrumou e empacotou seus pertences e deu no pé. A puta me virou pelo avesso. Nunca fora deixado daquela maneira tão repentina! Ela arrumou um outro macho. E costumavam brigar até na rua. O cara se acostumou a gostar de brigar tanto quanto ela. Foram muito felizes juntos. Mais tarde, ela matou o sujeito. Enfiou-lhe umas balas no corpo em plena rua, como se fosse um cachorro – e, por fim, venceu a questão no tribunal. Consideraram homicídio justificável.

– Então, a puta mudou de nome e começou a cantar como profissional. Cantava bem mesmo, e o seu nome e retrato estavam em todas as revistas e jornais. Eu costumava ver suas apresentações nos night-clubs. Aí, adivinhem o que ela fez. Casou-se com um homem branco! O cara era um duro, um vagabundo, não tinha nada vezes nada. Não tinha nem um tostão quando casou-se. Ela lhe dava todo o dinheiro. Ele controlava sua conta bancária e comprou um grande e extravagante cabaré. Depois, divorciou-se dela. A puta perdeu a bossa artística e começou a cair, cair, cair. Seu potencial de ganhar dinheiro reduziu-se. E pôs a vida totalmente de lado e começou a cantar músicas de igreja. O spiritual. Entrou para a igreja e tornou-se uma verdadeira religiosa. Todos dizem que ela se apaixonou por Jesus e que encontrou nele, finalmente, seu homem certo. E é onde ela está neste momento, naquela igreja.

– Desde então, passei a acreditar que, para uma mulher negra, casar com um homem branco é como acrescentar a estrela final à sua coroa. É o ápice da realização a seus olhos e aos de suas irmãs. Reparem quantas celebridades negras casaram com homens brancos. Todas as mulheres negras que não são celebridades desejam sê-lo também para que possam casar com homens brancos. O branquela é o seu príncipe encantado. Quando elas beijam você não é realmente você que estão beijando. Fecham os olhos e imaginam seu príncipe encantado branco. Ouçam este segredo… Jesus Cristo, o puro, é o noivo psíquico da mulher negra. Você aprenderá antes de morrer que, durante a cópula e no momento do orgasmo, a mulher negra, nas primeiras convulsões de seu espasmo, grita o nome de Jesus. “Oh, Jesus, estou terminando!”, grita ela no auge da excitação. Isto, para você, é uma dor. É como uma faca atravessando seu coração. É o mesmo que sua mulher, durante o orgasmo, gritar o nome de um cara mesquinho que mora no mesmo quarteirão.

– Agora, há uma coisa que quero dizer e que está diretamente relacionada com isto. Para ser franco, nunca compreendi isso e não acredito que jamais consiga. Mas eu vi o negócio funcionando e pode ser que vocês, irmãos, compreendam, o que lhes será útil e os auxiliará. Existe uma doença nos brancos que se localiza no centro de sua loucura e os faz agir de maneiras diferentes. Mas existe uma destas maneiras que os obriga a agir de tal modo que parece contradizer tudo que conhecemos a respeito dos branquelas, e que choca muitos negros quando os encontram… Existem homens brancos que lhes pagarão para que trepem com suas esposas. Eles se aproximam de você, e dizem: “gostaria de foder uma mulher branca?” “O que quer dizer?” Você pergunta. “NO toma lá, dá cá”, ele garante. “É muito simples. Ela é minha mulher. E precisa de vara de negro, é tudo. E precisa mesmo. É como um remédio ou uma droga para ela. Precisa mesmo. Eu pagarei. É tudo no sério, nada de truques. Interessado?” E você vai até a casa dele. Os três vão para o quarto. Há um certo tipo que deixa você e a mulher dele sozinhos, e ainda pese que você lhe dê uma boa surra de pica. Quando tudo termina, ele lhe paga e o leva de automóvel para onde você quiser ir. Também há aquele tipo que gosta de espreitar pelo buraco da fechadura para ver voc~e trepar a mulher dele. Ou, então, fica espreitando pela janela, ou pede para ficar deitado embaixo da cama para ouvir o ranger das molas enquanto você come mulher. Há um outro tipo que adora trepar com a esposa depois de você ter terminado o serviço. E há aquele que quer que você trepe com ela só um pouco, o tempo suficiente para que ela dê a partida, engrene o motor e esquente a máquina; e depois pede que você largue o osso rapidamente para que, então, ele salte sobre ela e, juntos, façam o resto sozinhos.

Não me ocorreu ainda dizer nada; e eu não sabia o que dizer. Estava indignado com o Infiel e senti repulsa pelo seu monólogo e pela importância que pareceu dar a essas questões. Meus sonhos pairaram em outros lugares e não conseguia avaliar as coisas que me falara. Continuei sentado, saboreando a estranha qualidade da emoção que tomara conta de mim. Não me recordo de quando o Eunuco à minha esquerda começou a falar, pois a princípio sua voz era para mim apenas um som, um som nebuloso e incoerente, e somente mais tarde comecei a distinguir as palavras:

-… já estou cheio! Seu velho Lázaro. Tudo o que você disse foi enrolação, tudo já morreu e está fedendo, tudo foi desvirtuado e desordenado, sem pé nem cabeça.

O Eunuco tinha um jeito desafiador, com o maxilar retesado.

-Sim, eu sei – disse o Infiel – e vocês, gente moça, vêem aproximar-se a grande oportunidade para mudar tudo isto. Todo o homem com um plano fantástico vê sua chance próxima… Mas, mesmo assim, você tem de admitir que o homem branco é cheio de merdinhas. Ele nos depena ou não, bah? Por acaso não toma conta do negócio? Preocupa-se com os negócios que são bons para ele, fica empolgado e limpa todo mundo, inclusive ele próprio. Agora me digam, não é uma vergonha do caralho?

O infiel olhou para um de nós. Ninguém lhe respondeu. Apenas o encaramos, seu rosto, seus olhos, sua pele de chocolate mole. Então, ele caiu na risada, dando gargalhadas até estremecer sua estrutura obesa. Ninguém sabia porque ele estava rindo. Aquilo partia do interior dele, mas seu rosto parecia estar sofrendo como se não estivesse gozando o sorriso. Várias vezes tentou dizer alguma coisa, mas sempre era dominado pelas gargalhadas. Finalmente, deixou escapar:

-… vocês foram obrigados a reconhecer as qualidades de uma pessoa que detestam – e continuou em outro espasmos de grunhidos e risos abafados.

Quando a gargalhada morreu, ele começou a batucar sobre a mesa com seus dedos pequenos e gordos.

– Certa vez, eu tinha um grande amigo – disse. – Crescemos juntos… e não importa em que lugar. Ele foi o melhor amigo que tive, mais íntimo do que um irmão. Éramos mais apegados que dois peixinhos num aquário, um sempre atrás do outro. Quando éramos garotos fizemos um juramento de irmãos de sangue, como os guerreiros índios. Só eu e ele. Fizemos um pacto nos comprometendo a ser camaradas a vida inteira.

Sua lembrança hesitou um momento. Minúsculas gotas de suor brotaram em sua testa.

– Mas alguma coisa aconteceu e eu… eu… fui embora… não o vi nem ouvir falar dele durante muitos e muitos anos. Então, finalmente. Voltei… para aquele lugar. Eu tinha de rever mais uma vez a velha cidade. E resolvi sair a procura do meu grande  amigo. Depois de muito procurar, vim a saber que ele se encontrara numa instituição. Uma instituição para doentes mentais. Ele estava lá desde a minha partida, durante todos aqueles anos. Assim fui vê-lo. Mudara completamente, tanto que não acreditei que pudesse reconhecê-lo, se não fosse pelos seus olhos. Jamais esqueceria aqueles olhos, jamais. Tinha os olhos como, segundo dizem, os de Jomo Kenyatta, o olhar firme que atravessa uma parede de tijolos.

O infiel levantou uma das mãos e apontou para o Eunuco à minha esquerda.

– Meu amigo  tinha seus olhos, justamente como os desse irmão aqui – disse ele.

Seu rosto mostrou uma fisionomia confusa e temerosa por alguns momentos, mas ele rapidamente dominou-a. O Eunuco à minha esquerda mudava a toda hora de posição na cadeira. –Mas ele reconheceu-me, meu amigo reconheceu-me – disse o infiel. – Imediatamente lembrou-se de quem eu era. Não me apagara em sua memória, como se poderia pensar depois de todos aqueles anos. No memento em que eles o trouxeram até mim na sala de visitas, pude ver que ele me reconhecera, embora não tivesse dito o meu nome, Sentamo-nos numa pequena mesa e ele disse: “Ah, nunca pensei que você viesse aqui! Agora podemos começar nosso grande empreendimento! Transformaremos toda Europa orgulhosa num bordel internacional, e os homens de todas a partes da terra farão sua peregrinação até lá, e fertilizarão o exaurido solo humano com sua rica e variada semente!” Eu nada lhe disse, e  nada podia dizer. Apenas ouvia. Ele falou e falou. Transportou-me longe, bem longe no tempo. Chegou então a hora de ir-me embora,.  Prometi-lhe que voltaria no dia seguinte. Eles o levaram. Eu nunca voltei. Mesmo quando lhe prometi, sabia que nunca mais voltaria, nunca mais.

O infiel fês uma pausa e respirou fundo. Lutava consigo mesmo, lutava para manter sob controle algo muito poderoso e impetuoso. Podia-se sentir a força terrível da agonia varando-lhe o interior do corpo.

– Ele morreu duas semanas depois, meu amigo se matou… ferindo-se propositalmente, batendo com a cabeça contra a quina de concreto.

Durante alguns minutos, ninguém falou. Cada um estava submerso nos próprios pensamentos. Finalmente, o Eunuco à minha esquerda, em tom frio, gelado, disse:

– você, seu Lazaro porco. Você o matou. Você o assassinou. Você o traiu!

O infiel fez como se fosse responder, mas o esforço morreu. O Eunuco à minha esquerda disse para o Infiel:

– Seu problema, meu velho Lázaro, é que você não pode suportar a visão do sangue do feitor.

O Infiel olhou surpreso.

-O mundo – disse ele vagarosamente – não pode suportar outro banho de sangue.

– O mundo é hemofílico – retrucou o Eunuco. – Veja bem! Quando foi que o mundo parou de sangrar? Nunca; nem por um momento deixou de sangrar; e está sangrando em algum lugar neste exato momento. Agora mesmo, enquanto estamos sentados aqui conversando, alguém  em algum lugar está se precavendo de alguém, de algum inimigo. Na África, Ásia, Europa, América do Sul, e bem aqui no bom e velho Estados Unidos da América, o sangue está sendo derramado. Vá ouvir o rádio ou a televisão neste momento e as primeiras noticias que ouvir serão de sangue, de total de mortos. Vá pegar um jornal ou uma revista e as  mesmas estarão encharcadas de sangue. O sangue pinga do vídeo da TV. Então porque fica chocado em ouvir falar de sangue?

-Sim, o mundo está sangrando – disse o Infiel – mas está sangrando para morrer. Quanto tempo vai durar?

Estremeceu com a própria pergunta.

– O sangue é um lubrificante – disse o Eunuco à minha esquerda. – Amacia a passagem e permite que um povo escape do laço mais apertado. Você não esburaca uma represa, homem, você a dinamita!

-Você está sedento de sangue! Observou o infiel falando diretamente ao Eunuco à minha esquerda. – Mas isto não será assim!

– Sim! – respondeu o Eunuco. Estou sedento de sangue… de sangue do homem branco. E, quando eu beber, quero beber bastante porque tenho uma grande sede a saciar. Quero beber por cada homem, mulher e criança negras arrastadas das costas da África para o matadouro, por casa um dos meus irmãos e irmãs que  sofreram desamparadamente nos porões imundos dos desgraçados navios negreiros… por seu amigo que esmigalhou o cérebro naquela casa de loucos… quero beber o sangue do homem branco por casa grama da minha carne e sangue que ele esmagou e rasgou nas ilhas do Caribe, por todas as almas de gente negra dilacerada nos campos fétidos do Velho Sul – e do Norte, do Leste e do Oeste, quintos dos infernos da América do Norte! Apenas o sangue do homem branco pode lavar a for que sinto. Você se encolhe quando se fala em derramar o sangue do homem branco seu velho Lázaro, mas eu lhe digo que o dia está próximo em que marcharei sobre o legislativo de Mississipi com uma metralhadora fervendo em minhas mãos e os bolsos de granadas. Já que terei de morrer, então certamente vou matar.

– Não – disse o Infiel. – Não. Mais sangue apenas acrescentará um crime ao outro. Não!

Levantou-se subitamente da mesa, olhou para cada um de nós como se estivesse rogando, como um criminoso diante do júri que ele sabe estar na iminência de mandá-lo para a câmara da morte. Respirou profundamente como fizeram antes, e deixou os ombros caírem.

– Sangue em cima de sangue; crime em cima de crime; tijolo de sangue em cima de tijolo de sangue de uma nova e louca Torre de Babel que, também, desmoronará… Não pode haver triunfo no sangue.

Depois, o Infiel virou-se e afastou-se da mesa aos tropeções, balbuciando alguma coisa.

Observamos sua partida. Parou e olhou para trás, em nossa direção como se esperasse ou tivesse a esperança de que nós o chamássemos de volta. Então, tornou a virar-se e desapareceu de nossas vistas, de nossas vidas.

CLEAVER, Edridge – A alegoria dos Eunucos Negros, Alma no Exílio – Civilização Brasileira – ed brás 1971 pp 145-164

Grupos de estudos KILOMBAGEM www.kilombagem.org

A Consciência Negra e a Busca de uma Verdadeira Humanidade – por Esteve Biko

A Consciência Negra e a Busca de uma Verdadeira Humanidade

Este Biko

Historicamente, a “Teologia Negra” é um produto norte-americano, proveniente da situação dos negros nos Estados Unidos. No início dos anos 70, seu expoente mais representativo era o Dr. James H. Cone, professor de teologia no Seminário Teológico da União, em Nova York, e autor de Black Theology and Black Power (Teologia Negra e Poder Negro) – (Seabury, 1969) e de God of the oppressed (Deus dos oprimidos) – (Seabury, 1975; SPCK, 1977).
Em meados de 1970, o UCM nomeou Sabelo Stanley Ntwasa como secretário itinerante para o ano de 1971, com o encargo específico de incentivar a reflexão e a produção de textos sobre a Teologia Negra. O livro Black Theology: the South African voice (Teologia Negra: a voz da África do Sul), editado por Basil Moore (C. Hurst and Co., London, 1973), é o resultado dos esforços feitos naquele ano, e o trabalho que se segue, escrito por Steve, é talvez a contribuição mais eloqüente para o livro – na opinião de quem aqui escreve, o melhor escrito que ele produziu.

Escrevo o que eu quero.

A Consciência Negra e a busca de uma verdadeira humanidade

Talvez seja conveniente começar examinando por que é preciso pensarmos coletivamente sobre um problema que nunca criamos. Ao fazer isso, não quero me ocupar desnecessariamente com as pessoas brancas da África do Sul, mas para conseguir as respostas certas precisamos fazer as perguntas certas; temos de descobrir o que deu errado – onde e quando; e precisamos verificar se nossa situação é uma criação deliberada de Deus ou uma invenção artificial da verdade por indivíduos ávidos pelo poder, cuja motivação é a autoridade, a segurança, a riqueza e o conforto. Em outras palavras, a abordagem da Consciência Negra seria irrelevante numa sociedade igualitária, sem distinção de cor e sem exploração.

Ela é relevante aqui porque acreditamos que uma situação anômala é uma criação deliberada do homem.
Não há dúvida de que a questão da cor na política da África do Sul foi introduzida originalmente por razões econômicas. Os líderes da comunidade branca tinham de criar algum tipo de barreira entre os negros e os brancos, de modo que os brancos pudessem gozar de privilégios à custa dos negros e ainda se sentirem livres para dar uma justificativa moral para a evidente exploração, que incomodava até as mais empedernidas consciências dos brancos. No entanto, diz a tradição que, sempre que um grupo de pessoas experimenta os agradáveis frutos da riqueza, da segurança e do prestígio, começa a achar mais confortável acreditar numa mentira óbvia e aceitar como normal que só ele tenha direito ao privilégio. Para acreditar seriamente nisso, o grupo precisa se convencer da veracidade de todos os argumentos que sustentam essa mentira. Portanto, não é de estranhar que na África do Sul, depois de séculos de exploração, as pessoas brancas em geral tenham chegado a acreditar na inferioridade do negro, a tal ponto que, embora o problema racial tenha começado como conseqüência da ganância econômica demonstrada pelos brancos, agora transformou-se num problema sério em si mesmo. As pessoas brancas agora desprezam as pessoas negras, não porque precisam reforçar sua atitude e, assim, justificar sua posição privilegiada, mas porque de fato acreditam que o negro é inferior e mau. Esse é o fundamento sobre o qual os brancos atuam na África do Sul e é isso o que faz com que a sociedade sul-africana seja racista.
O racismo que encontramos não existe apenas numa base individual; ele também é institucionalizado, para que pareça ser o modo de vida sul-africano. Embora ultimamente tenha havido uma tentativa frágil de encobrir os elementos abertamente racistas no sistema, ainda é verdade que esse mesmo sistema é sustentado pela existência de atitudes antinegro na sociedade.

Para dar uma vida ainda mais longa à mentira, é necessário que se negue aos negros qualquer oportunidade de provar acidentalmente que são iguais aos brancos. Por essa razão, há reserva de emprego, falta de treinamento em tarefas especializadas e um círculo restrito de possibilidades profissionais para negros. Absurdamente, o sistema retruca afirmando que os negros são inferiores porque entre eles não há economistas, não há engenheiros etc, embora os negros tenham sido impossibilitados de adquirir esses conhecimentos.
Para dar autenticidade à sua mentira e demonstrar a retidão de suas pretensões, os brancos vêm desenvolvendo esquemas detalhados para “resolver” a questão racial neste país. Desse modo, foi criado um pseudo-Parlamento para os “mestiços”, e vários “Estados bantus” estão em vias de ser estabelecidos. Estes são tão independentes e afortunados que não precisam gastar nem sequer um centavo em sua defesa, pois não têm nada a tremer da parte da África do Sul branca, que sempre virá socorrê-los em caso de necessidade. É impossível não ver a arrogância dos brancos e seu desprezo pelos negros, mesmo em seus esquemas de dominação modernos e bem planejados.


A estrutura de poder branco vem obtendo sucesso total em conseguir unir os brancos em torno da defesa do status quo. Jogando de modo habilidoso com o espantalho imaginário – o swart gevaar -, conseguiu convencer até os liberais obstinados de que há algo a temer na idéia de o negro assumir seu lugar legítimo no leme do barco sul-africano. Assim, após anos de silêncio, podemos ouvir a voz familiar de Alan Paton dizendo, lá longe, em Londres: “Talvez valha a pena tentar-se o apartheid”. “À custa de quem, Dr. Paton?”, pergunta um inteligente jornalista negro. Por isso os brancos em geral se apóiam mutuamente – embora se permitam algumas desavenças moderadas – quanto aos detalhes dos esquemas de dominação. Não há dúvida de que não questionam a validade dos valores brancos.

Não enxergam nenhuma anomalia no fato de estarem discutindo sozinhos sobre o futuro de 17 milhões de negros – numa terra que é o quintal natural do povo negro. Quaisquer propostas de mudança provenientes do mundo negro são encaradas com a maior indignação. Até mesma a assim chamada oposição, o Partido Unido, tem a ousadia de dizer aos mestiços que eles estão querendo demais. Um jornalista de um jornal liberal como o Sunday Times, de Johannesburgo, descreve um estudante negro – que está apenas dizendo a verdade – como um jovem militante impaciente.
Não basta aos brancos estar na ofensiva. Acham-se de tal modo mergulhados no preconceito que não acreditam que os negros possam formular os próprios pensamentos sem a orientação e a tutela dos brancos. Assim, até mesmo os brancos que vêem muitos erros no sistema tornam para si a responsabilidade de controlar a reação dos negros à provocação. Ninguém está sugerindo que não é responsabilidade dos brancos liberais se opor a tudo o que há de errado. No entanto, parece coincidência demais que os liberais – poucos como são – não apenas estejam determinando o modus operandi dos negros que se opõem ao sistema, como também se achem em sua liderança, apesar de envolvidos com o sistema. Para nós, seu papel define a abrangência da estrutura do poder branco: embora os brancos sejam o nosso problema, são outros brancos que querem nos dizer como lidar com esse problema. Eles fazem isso procurando desviar nossa atenção de inúmeras maneiras. Dizem-nos que a situação é mais a de uma luta de classes que uma luta racial. Eles que procurem Van Tonder no Free State e digam isso a ele. Nós acreditamos que sabemos qual é o problema e vamos continuar fiéis à nossas conclusões.
Quero aprofundar um pouco mais nessa discussão porque está na hora de acabar com essa falsa coalizão política entre negros e brancos enquanto estiver fundamentada numa análise errônea de nossa situação, é preciso lutar para acabar com ela.

Quero acabar com ela por outra razão: porque, no momento, constitui o maior obstáculo à nossa união. Ela acena aos negros ávidos por liberdade com promessas de um grande futuro, para o qual ninguém nesses grupos parece trabalhar com muito afinco.
Os brancos liberais apontam o apartheid como o problema fundamental da África do Sul. Argumentam que, para lutarmos contra ele, é necessário que formemos grupos não raciais. Entre esses dois extremos, proclamam, encontra-se a terra do leite e do mel pela qual estamos trabalhando. Alguns grandes filósofos consideram a tese, a antítese e a síntese os pontos cardeais em torno dos quais gira qualquer revolução social. Para os liberais, a tese é o apartheid, a antítese é o não racismo, mas a síntese é muito mal definida. Querem dizer aos grupos que encontram na integração a solução ideal. A Consciência Negra, no entanto, define a situação de maneira diferente: a tese na verdade é um forte racismo por parte do branco e, portanto, sua antítese precisa ser, ipso facto, uma forte solidariedade entre negros, a quem esse racismo branco pretende espoliar. A partir dessas duas situações, então, podemos ter a esperança de chegar a algum tipo de equilíbrio – uma verdadeira humanidade, onde a política de poder não tenha lugar. Tal analise define a diferença entre a velha e a nova abordagem. O fracasso dos liberais se encontra no fato de que sua antítese já é uma versão diluída da verdade, cuja proximidade da tese vai anular o equilíbrio pretendido. Isso explica o malogro das comissões do Sprocas que não conseguiram nenhum progresso, porque já estão procurando uma “alternativa” aceitável para os brancos. Todos os que integram as comissões sabem o que está certo, mas todos eles procuram o modo mais conveniente de se esquivar da responsabilidade de dizer o que está certo.
Enxergar essa diferença é bem mais importante para os negros que para os brancos.

Precisamos aprender a aceitar que nenhum grupo, por melhores intenções que tenha, poderá um dia entregar o poder aos vencidos, numa bandeja. Precisamos aceitar que os limites dos tiranos são determinados pela resistência daqueles a quem oprimem. Enquanto nos dirigirmos ao branco mendigando, com o chapéu na mão, nossa emancipação, estaremos lhe dando mais autorização para que continue com seu sistema racista e opressor. Precisamos nos conscientizar de que nossa situação resulta de um ato deliberado da parte dos brancos, e não de um engano, e que nem milhares de sermões morais podem persuadir o branco à “corrigir” esse estado de coisas. O sistema não concede nada a não ser que seja exigido, porque formula até seu método de ação com base no fato de que o ignorante aprenderá, a criança se transformará em adulto e, portanto, as exigências começarão a ser feitas. O sistema se prepara para resistir às reivindicações da maneira que lhe parecer adequada. Quando alguém se recusa a fazer essas exigências e prefere ir a uma mesa-redonda mendigando sua libertação, está atraindo o desprezo daqueles que têm poder sobre ele. Por esse motivo precisamos rejeitar as táticas de mendigos que estamos sendo forçados a usar por aqueles que querem aplacar nossos senhores cruéis. É aqui que a mensagem e o grito da SASO: “Negro, você está por conta própria!” se torna relevante.
O conceito de integração, cujos méritos são muitas vezes elogiados nos círculos de brancos liberais, está cheio de suposições não questionadas que seguem os valores brancos. É um conceito que há muito tempo foi definido pelos brancos e que os negros nunca examinaram. Baseia-se na suposição de que o sistema caminha muito bem, exceto por um certo grau de má administração exercida por conservadores irracionais da cúpula. Até mesmo os que argumentam em favor da integração muitas vezes se esquecem de escondê-la sob sua pretensa capa de harmonia. Dizem uns aos outros que, não fosse pela reserva de empregos haveria um excelente mercado a ser explorado.

Esquecem que estão se referindo a seres humanos. Consideram os negros apenas alavancas adicionais para algumas máquinas industriais complicadas. É esta a integração do honrem branco – uma integração baseada nos valores de exploração, em que o negro competirá com o negro, um utilizando o outro como a escada que o conduzirá aos valores brancos. É uma integração na qual o negro terá que provar a si mesmo em termos desses valores antes de merecer a aceitação e a assimilação final, e na qual os pobres se tornarão mais pobres, e os ricos mais ricos, num país em que os pobres sempre foram negros. Não queremos ser lembrados de que somos nós, o povo nativo, que somos pobres e explorados na terra em que nascemos. Estes são conceitos que a abordagem da Consciência Negra quer arrancar da mente dos negros, antes que nossa sociedade seja conduzida ao caos por pessoas irresponsáveis provenientes do contexto cultural da Coca-Cola e do hambúrguer.
A Consciência ‘Negra é uma atitude da mente e um modo de vida, o chamado mais positivo que num longo espaço de tempo vimos brotar do mundo negro. Sua essência é a conscientização por parte do negro da necessidade de se unir a seus irmãos em torno da causa de sua opressão – a negritude de sua pele – e de trabalharem como um grupo para se libertarem dos grilhões que os prendem a uma servidão perpétua. Baseia-se num auto-exame que os levou finalmente a acreditar que, ao tentarem fugir de si mesmos e imitar o branco, estão insultando a inteligência de quem quer que os criou negros. A filosofia da Consciência Negra, portanto, expressa um orgulho grupal e a determinação dos negros de se levantarem e conseguirem a auto-realizacão desejada. A liberdade é a capacidade de autodefinição de cada um. Tendo como limitação de suas potencialidades apenas a própria relação com Deus e com o ambiente natural, e não o poder exercido por terceiros.

O negro quer, por tanto, explorar por conta própria o ambiente em que vive e testar suas potencialidades – em outras palavras, conquistar a liberdade por quaisquer meios que considerar adequados. Na essência desse pensamento está a compreensão dos negros de que a arma mais poderosa nas mãos do opressor é a mente do oprimido. Se dentro de nosso coração estivermos livres, nenhuma corrente feita pelo homem poderá nos manter na escravidão; mas se nossa mente for manipulada e controlada pelo opressor a ponto de fazer com que o oprimido acredite que ele é uma responsabilidade do homem branco, então não haverá nada que o oprimido possa fazer para amedrontar seus poderosos senhores. Por isso, pensar segundo a linha da Consciência Negra faz com que o negro se veja como um ser completo em si mesmo. Torna-o menos dependente e mais livre para expressar sua dignidade humana. Ao final do processo, ele não poderá tolerar quaisquer tentativas de diminuir o significado de sua dignidade humana.
Para que a Consciência Negra possa ser usada de modo vantajoso como uma filosofia a ser aplicada as pessoas que estão numa situação como a nossa, é necessário observar alguns aspectos. Como pessoas existindo numa luta contínua pela verdade, precisamos examinar e questionar velhos conceitos, valores e sistemas. Tendo encontrado as respostas certas, iremos então trabalhar para que todas as pessoas sejam conscientizadas, a fim de que tenhamos a possibilidade de caminhar no sentido de pôr em prática essas respostas. Nesse processo, precisamos desenvolver nossos próprios esquemas, nossos modelos e estratégias, adequados para cada necessidade e a situação, mantendo sempre em mente nossos valores e crenças fundamentais.
Em todos os aspectos do relacionamento entre negros e brancos, agora e no passado, vemos uma tendência constante por parte dos brancos de descrever o negro como alguém que tem um status inferior.

Nossa cultura, nossa história, na verdade todos os aspectos da vida do negro foram danificados até quase perderem sua forma no grande choque entre os valores nativos e a cultura anglo-bôer.
Os missionários foram os primeiros que se relacionaram com os negros da África do Sul de um modo humano. Pertenciam à vanguarda do movimento de colonização para “civilizar e educar” os selvagens e apresentar-lhes a mensagem cristã. A religião que trouxeram era completamente estranha para o povo negro nativo. A religião africana em sua essência não era radicalmente diferente do cristianismo. Nós também acreditávamos num só Deus, tínhamos a nossa comunidade de santos por meio da qual nos relacionávamos com nosso Deus, e não considerávamos que era compatível com nosso modo de vida prestar a Deus um culto separado dos vários aspetos de nossa vida. Por isso o culto não era uma função especializada que se expressava uma vez por semana num prédio especial, mas aparecia em nossas guerras, ao bebermos cerveja, em nossas danças, em nossos costumes em geral. Sempre que os africanos bebiam, primeiro se relacionavam com Deus derramando um pouco da cerveja como símbolo de sua gratidão. Quando algo ia mal em casa ofereciam a Deus um sacrifício para apaziguá-lo e para reparar seus pecados. Não havia inferno em nossa religião. Acreditávamos na bondade inerente do homem e, por isso, tínhamos certeza de que todas as pessoas, ao morrerem, se juntavam à comunidade dos santos – portanto, mereciam nosso respeito.
Foram os missionários que confundiram as pessoas com sua nova religião. Assustaram o nosso povo com suas histórias sobre o inferno. Descreveram o Deus deles como um Deus exigente que queria ser adorado, “senão…”. As pessoas tinham que pôr de lado suas roupas e seus costumes, para serem aceitas na nova religião.

Sabendo que os africanos são um povo religioso, os missionários incrementaram sua campanha de terror sobre as emoções das pessoas, com seus relatos detalhados a respeito do fogo eterno, do arrancar de cabelos e do ranger de dentes. Por alguma lógica estranha e distorcida, argumentavam que a religião deles era cientifica, e a nossa uma superstição – apesar da discrepância biológica que está na base da religião deles. Para o povo nativo essa religião fria e cruel era estranha e provocava freqüentes discussões entre os convertidos e os “pagãos”, porque os primeiros, tendo assimilado os falsos valores da sociedade branca, foram ensinados a ridicularizar e a desprezar aqueles que defendiam a verdade de sua religião nativa. Depois, com a aceitação da religião ocidental, nossos valores culturais foram por água abaixo!
Embora eu não deseje questionar a verdade fundamental que esta no centro da mensagem cristã, há um forte argumento em favor de um reexame do cristianismo. Tem provado ser uma religião muito adaptável que não procura acrescentar nada às ordens existentes, mas – como qualquer verdade universal – encontrar um modo de ser aplicada a uma situação específica. Mais que ninguém, os missionários sabiam que nem tudo o que faziam era essencial à propagação da mensagem. Mas a intenção básica ia muito além da mera propagação da palavra. Sua arrogância e seu monopólio sobre a verdade, sobre a beleza e o julgamento moral os fizeram desprezar os hábitos e as tradições dos nativos e procurar infundir seus próprios valores nessas sociedades.
Aqui temos, então, o argumento em favor da Teologia Negra. Como não quero discutir a Teologia Negra a fundo, basta que eu diga que ela procura relacionar mais uma vez Deus e Cristo com o negro e seus problemas cotidianos. Ela pretende descrever o Cristo como um Deus lutador, e não coma um Deus passivo que permite que uma mentira permaneça sem ser questionada. Ela enfrenta problemas existenciais e não tem a pretensão de ser uma teologia de absolutos.

Procura trazer Deus de volta para o negro e para a verdade e a realidade de sua situação. Este é um aspecto importante da Consciência Negra, pois na África do Sul existe um grande número de pessoas negras cristãs que ainda se encontram atoladas em meio à confusão, uma conseqüência da abordagem dos missionários. Portanto, todos os sacerdotes e ministros religiosos negros têm o dever de salvar o cristianismo, adotando a abordagem da Teologia Negra e, assim, unindo o negro outra vez a seu Deus.
Também é preciso examinar atentamente o sistema de educação para os negros. No tempo dos missionários, essa mesma situação tensa já existia. Sob o pretexto de cuidarem da higiene, de adquirirem bons modos e outros conceitos vagos, as crianças eram ensinadas a desprezar a educação que recebiam em casa e a questionar os valores e os hábitos de sua sociedade. O resultado foi o que se esperava: as crianças passaram a encarar a vida de um modo diferente dos pais e perderam o respeito por eles. Ora, na sociedade africana, a falta de respeito pelos pais é um pecado grave. No entanto, como se pode impedir que a criança perca esse respeito quando seus professores brancos, que sabem tudo, a encenam a desconsiderar os ensinamentos da família? Quem pode resistir e conservar o respeito pela tradição, se na escola todo o seu ambiente cultural é sintetizado numa só palavra: barbarismo?
Podemos, assim, ver a lógica de colocar os missionários na linha de frente do processo de colonização. Uma pessoa que consegue fazer um grupo de indivíduos aceitar um conceito estranho, no qual ela mesma é um perito, transforma esses indivíduos em estudantes perpétuos, cujo progresso nesse campo só pode ser avaliado por ele; o estudante precisa sempre se dirigir a ele para obter orientação e promoção. Ao serem obrigados a aceitar a cultura anglo-bôer, os negros permitiram que eles mesmos fossem colocados à mercê do branco e que tivessem o branco como seu eterno supervisor.

Só o branco pode nos dizer até que ponto estamos nos saindo bem, e instintivamente cada um de nós se esforça para agradar esse senhor poderoso que sabe tudo. É isso que a Consciência Negra procura arrancar pela raiz.
Segundo um escritor negro, o colonialismo nunca se satisfaz em ter o nativo em suas garras, mas, por uma estranha lógica, precisa se voltar para o seu passado e desfigurá-la e distorcê-la. Por esse motivo é muito desanimador ler a história do negro neste país. Ela é apresentada apenas como uma longa seqüência de derrotas. Os xhosas eram ladrões que iniciavam uma guerra por causa de propriedades roubadas; os bôeres nunca provocavam os xhosas, mas organizavam somente “expedições punitivas” para ensinar uma lição aos ladrões. Heróis como Makana, que foram essencialmente revolucionários, são apresentados como desordeiros supersticiosos que mentiam ao povo dizendo que as balas se transformavam em água. Grandes construtores da Nação, como Shaka, são apresentados como tiranos cruéis que frementemente atacavam tribos menores sem nenhuma razão, mas por um propósito sádico. Não apenas não há nenhuma objetividade na história que nos é ensinada, mas há muitas vezes uma terrível distorção de fatos, que enojam até um estudante desinformado.
Por isso, precisamos prestar muita atenção à nossa história se nós, como negros, quisermos nos ajudar mutuamente a nos conscientizarmos. Precisamos reescrever nossa história e apresentar nela os heróis que formaram o núcleo de nossa resistência aos invasores brancos. Mais fatos têem de ser revelados, assim como é preciso enfatizar as tentativas bem-sucedidas de construir uma nação, feita por homens como Shaka; Moshoeshoe e Hintsa. Diversos pontos requerem uma pesquisa minuciosa, para que possamos desvendar alguns importantes elos perdidos. Seríamos ingênuos demais se esperássemos que nossos conquistadores escrevessem sobre nós uma história não-tendenciosa, mas precisamos destruir o mito de que ela começou em 1652, ano em que Van Riebeeck chegou ao Cabo.

Nossa cultura precisa ser definida em termos concretos. Temos de relacionar o passado com o presente e demonstrar a evolução histórica do negro moderno. Existe uma tendência de considerar nossa cultura uma cultura estática, que foi detida em 1652 e desde então nunca se desenvolveu. O conceito de “voltar para o sertão” sugere que não temos nada de que nos gabar além de leões, sexo e bebida. Aceitamos o fato de que, quando uma civilização se estabelece, ela devora a cultura nativa e deixa atrás de si uma cultura bastarda que só pode se desenvolver no ritmo permitido pela cultura dominante. Mas também precisamos nos conscientizar de que os princípios básicos de nossa cultura conseguiram em grande parte resistir ao processo de abastardamento e que, mesmo agora, ainda podemos provar que apreciamos um homem por si mesmo. Nossa sociedade é autenticamente centrada no homem, e sua tradição sagrada é a partilha. Temos de continuar rejeitando o modo frio e individualista de encarar a vida que é a pedra fundamental da cultura anglo-bõer. É necessário devolver ao negro sua tradição de valorizar as relações humanas, de respeitar as pessoas, suas propriedades, a vida em geral. Com isso, visamos reduzir o triunfo da tecnologia sobre o homem e o espírito materialista que lentamente se insinua em nossa sociedade.
Estas são características essenciais de nossa cultura negra, às quais precisamos nos agarrar. Acima de tudo, a cultura negra implica a nossa liberdade de inovar sem recorrer aos valores brancos. Essa inovação faz parte do desenvolvimento natural de qualquer cultura. E uma cultura, em essência, é a resposta conjunta de uma sociedade aos vários problemas da vida. Todos os dias experimentamos novos problemas, e tudo o que fizermos aumenta a riqueza de nossa herança cultural, desde que tenha o homem colmo seu centro. A introdução de um teatro e de uma arte dramática negra é uma dessas inovações importantes que precisamos estimular e desenvolver. Sabemos que nosso amor pela música e pelo ritmo ainda hoje é importante.

Fazendo parte de uma sociedade exploradora, na qual muitas vezes somos o objeto direto da exploração, precisamos desenvolver uma estratégia em relação à nossa situação econômica. Temos consciência de que.Os negros ainda são colonizados, mesmo dentro das fronteiras da África do Sul. Sua mão-de-obra barata tem ajudado a fazer da África do Sul aquilo que é hoje. Nosso dinheiro. que vem das cidades segregadas, faz uma viagem só de ida para as lojas e para os bancos dos brancos, e a única coisa que fazemos durante toda a nossa vida é pagar para os brancos, seja com nosso trabalho, seja com nosso dinheiro. As tendências capitalistas de exploração, unidas à evidente arrogância do racismo branco, conspiram contra nós. Por esse motivo agora sai muito caro ser pobre na África do Sul. São os pobres que vivem mais longe da cidade, e por isso têm de gastar mais dinheiro com o transporte para ir trabalhar para os brancos; são os pobres que usam combustíveis dispendiosos e impróprios, como a parafina e o carvão, porque o branco se recusa a instalar eletricidade nas áreas dos negros; são os pobres que são governados por muitas leis restritivas mal definidas e que, por isso, têm de gastar mais dinheiro em multas por causa de transgressões “técnicas”; são os pobres que não têm hospitais e assim têm de procurar médicos particulares, que cobram honorários exorbitantes; são os pobres que usam estradas não asfaltadas, têm que andar longas distâncias e, por isso, têm de gastar muito com mercadorias como sapatos, que sofrem muitos estragos; são os pobres que precisam pagar pelos livros dos filhos, enquanto os brancos os recebem gratuitamente. Não é necessário dizer que são os negros que são pobres.
Portanto, temos de estudar de novo como usar melhor o nosso poder econômico, por menor que pareça ser. Precisamos examinar seriamente as possibilidades de criar cooperativas de negócios cujos lucros sejam reinvestidos em programas de desenvolvimento comunitário.

Deveríamos pensar em medidas como a campanha “Compre de Negros”, que certa vez foi sugerida em Johannesburgo, e estabelecer nossos próprios bancos em benefício da comunidade. O nível de organização entre os negros só é baixo porque permitimos que seja assim. Agora que sabemos que estamos por nossa própria conta, temos obrigação estrita de atender a essas necessidades.
O último passo da Consciência Negra é a ampliação da base de nossa atuação. Um dos princípios básicos da Consciência Negra é a totalidade do envolvimento. Isso significa que todos os negros precisam se posicionar como uma grande unidade, e nenhuma fragmentação ou desvio da corrente principal de acontecimentos pode ser tolerada. Por isso, precisamos resistir às tentativas dos protagonistas da teoria dos bantustões de fragmentar nossa abordagem. Somos oprimidos, não como indivíduos, não como zulus, xhosas, vendas ou indianos. Somos oprimidos porque somos negros. Precisamos usar esse mesmo conceito para nos unir e para dar uma resposta como um grupo coeso. Precisamos nos agarrar uns aos outros com uma tenacidade que vai espantar os que praticam o mal.
O fato de estarmos preparados para assumirmos nós mesmos as armas da luta nos levará a sair da crise. Precisamos eliminar completamente de nosso vocabulário o conceito de medo. A verdade tem que triunfar no fim sobre o mal, e o branco sempre alimentou sua ganância com esse medo básico que se manifesta na comunidade negra. Os agentes da Divisão Especial não farão com que a mentira se transforme em verdade e precisamos ignorá-los. Para uma mudança significativa da situação, precisamos arregaçar as mangas, estar preparados para perder nosso conforto e nossa segurança, nossos empregos e posições de prestígio, além de perder nossas famílias: assim como é verdade que “liderança e segurança são basicamente incompatíveis”, uma luta sem baixas não é luta. Temos de tomar consciência do grito profético dos estudantes negros: “Negro, você está por conta própria!”.

Alguns vão nos acusar de racistas, mas se utilizam exatamente dos valores que rejeitamos. Não temos o poder de dominar ninguém. Apenas respondemos à provocação do modo mais realista possível. O racismo não implica apenas a exclusão de uma raça por outra – ele sempre pressupõe que a exclusão se faz para fins de dominação. Os negros têm tido suficiente experiência como objetos de racismo para não quererem inverter as posições. Embora possa ser relevante falar agora a respeito do negro em relação ao branco, não podemos deixar que esta seja a nossa preocupação, pois pode ser um exercício negativo. A medida que avançarmos em direção à realização de nossos objetivos, falaremos mais sobre nós mesmos e nossa luta e menos sobre os brancos.
Saímos em busca de uma verdadeira humanidade e em algum lugar no horizonte distante podemos ver o prêmio a brilhar. Vamos caminhar para a frente com coragem e determinação, extraindo nossa força da difícil condição que partilhamos e de nossa fraternidade. Com o tempo, conseguiremos dar à África do Sul o maior presente possível: um rosto mais humano.

BIKO. E., Escrevo o que eu quero: uma Seleção dos principais textos do líder negro Esteve Biko. Trad. Grupo São Domingos. São Paulo: Ática, 1990. 184pgs

Entrevista com Abdias do Nascimento – Brasil de Fato

“O racismo fica escancarado ao olhar mais superficial” | BRASIL de FATO

Entrevista – Abdias do Nascimento – comemoração do mês da consciência negra

A luta pelo reconhecimento dos direitos, a dignidade e a autonomia da população negra tem heróis de muitos países, entre África e Américas. É uma luta tão antiga quanto a diáspora negra produzida pelo vergonhoso comércio de africanos que vigorou no Atlântico por quase quatro séculos. É por se tratar de uma luta de tantos povos, lugares, tempos e pessoas que impressiona tanto conhecer a vida do ativista brasileiro Abdias do Nascimento.
Ao longo de seus 96 anos, Abdias esteve presente em e participou de inúmeras passagens importantes das lutas negras do século 20, não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos e na África. Sua vida é ela mesma a própria história da luta negra.
Nasceu em 1914, numa época em que ainda eram extremamente recentes as lembranças da escravidão no país, abolida em 1888. Nos anos 1930, engajou-se numa iniciativa pioneira, a Frente Negra Brasileira, na luta contra a segregação racial nos estabelecimentos comerciais de São Paulo. Por sua militância política, foi preso pela ditadura Vargas.
Nos anos de 1940, viajou pela América Latina como artista – é escritor, ator e artista plástico – com a Santa Hermandad Orquídea, e fundou o Teatro Experimental do Negro, entidade que organizou a Convenção Nacional do Negro em 1945-46. A iniciativa foi responsável pela formulação de diversas sugestões de políticas públicas para a população negra durante a Constituinte de 1946. Abdias ainda organizou o 1° Congresso do Negro Brasileiro em 1950. Militante do Partido Trabalhista Brasileiro, foi perseguido pela ditadura militar, instalada pelo golpe de 1964.

Exilado nos Estados Unidos, travou contato com o movimento negro no país, no auge da efervescência do Black Power. Nos anos 1970, participou do movimento pan-africanista e foi professor universitário na Nigéria. Nesse período, atuou em países como Jamaica, Tanzânia, Colômbia e Panamá, mantendo contato com lideranças como Aimé Césaire, Frantz Fanon, Léon Damas, Richard Wright, Cheikh Anta Diop, Léopold Sédar Senghor e Alioune Diop.

Ajudou a organizar o Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 1978, e, na redemocratização dos anos 1980, voltou ao país, foi eleito deputado federal e, depois, chegou a senador pelo PDT, sempre defendendo projetos em benefício da população negra. Junto com a esposa, Elisa Larkin Nascimento, fundou o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), atualmente presidido por ela.
Na entrevista a seguir, respondida por e-mail por sua esposa, Elisa, e subscrita por ele, Abdias dá um recado à nova geração de jovens negros militantes: “O conselho que dou para essa juventude é estudar, aprender, conhecer e se preparar para, então, se engajar: agir, criar, interagir e participar da construção das coisas.”

Qual a importância de se criar o Dia Nacional da Consciência Negra? Por que o senhor lutou para que a data fosse instituída no dia 20 de novembro, dia da morte do líder Zumbi dos Palmares, e não no dia 13 de maio, dia da promulgação da Lei Áurea, data antes escolhida pelo governo?

Abdias do Nascimento – A demanda de se instituir o Dia Nacional da Consciência Negra no dia 20 de novembro surgiu na década dos 1970 a partir do Rio Grande do Sul, onde o saudoso poeta Oliveira Silveira militava no Grupo Negro Palmares. O movimento negro como um todo, organizado em entidades em vários estados do Brasil naquela época, a encampou. Eu já costumava dizer que a Lei Áurea não passava de uma mentira cívica. Sua comemoração todo ano fazia parte do coro de autoelogio que a elite escravocrata fazia em louvor a si mesma no intuito de convencer a si mesma e à população negra desse esbulho conhecido como “democracia racial”. Por isso o movimento negro caracterizou o dia 13 de maio como dia de reflexão sobre a realidade do racismo no Brasil.


O dia 20 de novembro simboliza a resistência dos africanos contra a escravatura. Essa resistência assume diversas expressões táticas e perpassa todo o período colonial. Durante esse período, em todo o território nacional, havia quilombos e outras formas de resistência que, em seu conjunto, desestabilizaram a economia mercantil e levaram à abolição da escravatura. Esse é o verdadeiro sentido da luta abolicionista, cujos protagonistas eram os próprios negros. Eles se aliavam a outras forças, mas, muitas vezes, foram traídos por seus aliados. Mais tarde, entretanto, a visão eurocêntrica da história ergueria os aliados como supostos atores e heróis da abolição. A comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra em 20 de novembro tem como objetivo corrigir esse registro histórico e reafirmar a necessidade de continuarmos, nós, os negros, protagonizando a luta contra o racismo que ainda impera neste país.
O Memorial Zumbi, movimento nacional que agregava entidades do movimento negro de todo o país em torno da demanda da recuperação das terras da República dos Palmares, ergueu essa bandeira na década dos 1980. Tive a honra de participar desse movimento. O Memorial Zumbi instituiu a tradição de se realizarem peregrinações cívicas anuais às terras de Palmares na serra da Barriga, estado de Alagoas. Conseguimos, em 1989, a desapropriação dessas terras. O objetivo era instalar ali um polo de cultura de libertação do negro. Hoje, existe um monumento e assistimos a cerimônias cívicas no dia 20 de novembro em que participam altas autoridades do governo federal e estadual. Mas para nós, negros, o monumento lembra a necessidade de continuarmos lutando pelo fim da discriminação racial.

O senhor esteve no exílio, de 1968 a 1981, por conta da enorme repercussão que teve a sua “carta-declaraçãomanifesto” na qual denunciava a farsa do paraíso racial que se dizia viver na América Latina. Como o senhor avalia a questão da “democracia racial” no Brasil de hoje? Onde é possível dizer que a crítica a ela colheu frutos?

O racismo no Brasil se caracteriza pela covardia. Ele não se assume e, por isso, não tem culpa nem autocrítica. Costumam descrevê-lo como sutil, mas isto é um equívoco. Ele não é nada sutil, pelo contrário, para quem não quer se iludir ele fica escancarado ao olhar mais casual e superficial. O olhar aprofundado só confirma a primeira impressão: os negros estão mesmo nos patamares inferiores, ocupam a base da pirâmide social e lá sofrem discriminação e rebaixamento de sua autoestima em razão da cor. No topo da riqueza, eles são rechaçados com uma violência que faz doer. Quando não discrimina o negro, a elite dominante o festeja com um paternalismo hipócrita ao passo que apropria e ganha lucros sobre suas criações culturais sem respeitar ou remunerar com dignidade a sua produção. Os estudos aprofundados dos órgãos ofi ciais e acadêmicos de pesquisa demonstram desigualdades raciais persistentes que acompanham o desenvolvimento econômico ao longo do século 20 e início do 21 com uma fi delidade incrível: à medida que cresce a renda, a educação, o acesso aos bens de consumo, enfim, à medida que aumentam os benefícios econômicos da sociedade em desenvolvimento, a desigualdade racial continua firme.

Pensando o caso de Cuba, em específico, como o senhor considera o fato de que um governo dito socialista, num país de população negra tão expressiva, aparentemente não mostra avanços na participação política dos negros?

A ideologia racial cubana é irmã gêmea da “democracia racial” brasileira. O ideal da “Cor Cubana” acompanha a constante referência ilusória à suposta cordialidade latina. A história recente envolve os ideais da revolução, o engajamento militar na África durante as guerras de libertação nacional e a atuação internacional de médicos em países como o Haiti. A dinâmica entre o sonho e a realidade do socialismo dá um tom distinto ao questionamento do sistema no que diz respeito à questão racial. Entretanto, não há como negar certos fatos:
(a) Os negros não estão presentes no poder político do regime cubano em número proporcional à sua participação na população.
(b) As desigualdades raciais perduraram ao longo do processo de mudança social implantado após 1959 e continuam sendo constatadas em pesquisas recentes.
(c) Há uma crescente discussão da questão racial em Cuba conduzindo ao reconhecimento de que a revolução não resolveu essa questão.
(d) Hoje, a demanda por uma abertura democrática do regime não é o discurso só de uma minoria elitista, branca, incrustada em Miami e aliada aos interesses do bloqueio. Há uma oposição de origem humilde, composta em parte por negros e mestiços que apontam processos de exclusão e de desigualdades raciais. Não podemos mais rechaçar essa oposição como um bando de criminosos cuja traição se basearia em mentiras fabricadas pela direita fascistoide.

Durante o período em que o senhor esteve exilado, pôde estabelecer o contato entre o movimento social negro norte-americano e o da América Latina, até então, quase desconhecido daquele. Esteve com movimentos inspiradores, como os Panteras Negras. Atualmente, muitos desses lutadores ainda pagam o preço da sua resistência, vários estão presos desde os anos 1970, condenados à pena de morte ou à prisão perpétua nos EUA. Como pode ser possível que se fale tão pouco desses presos políticos?

Como sabemos, a mídia é dominada pelo poder econômico e não lhe interessa divulgar esses casos. Mas não é só o poder econômico, também a ideologia pode contribuir para isso. Não é fato novo para mim. Na década de 1940, quando o Brasil passava por um processo de redemocratização depois do regime do Estado Novo de Getúlio Vargas, eu ajudei a fundar o Comitê Democrático Afro-Brasileiro.
Aguinaldo Camargo e Sebastião Rodrigues Alves participaram, além de outras lideranças, e nós nos reuníamos na sede da União Nacional de Estudantes, a UNE, uma organização de esquerda. O Comitê era aberto e defi niu como prioridade imediata a luta pela libertação dos presos políticos do regime. Entretanto, quando essa libertação foi conquistada e nós negros queríamos tratar das questões específi cas relacionadas à discriminação racial, nossos companheiros brancos de esquerda não aceitaram. Taxaram-nos de racistas e exigiram que fizéssemos autocrítica. Não entramos nessa conversa, evidentemente. O Comitê morreu de morte matada. Depois, na época em que eu voltava do exílio no final dos anos de 1970, havia um movimento pela anistia ampla e irrestrita. Mas a liderança esquerdista desse movimento não reconhecia a prisão dos negros por discriminação racial como uma forma de perseguição política. Morriam trabalhadores negros nas prisões, como continua acontecendo hoje. Nós negros consideramos isso uma questão política. Mas, para as forças de esquerda, presos políticos seriam apenas os fi lhos de classe média e alta, quase todos brancos, que roubavam bancos, jogavam bombas ou sequestravam embaixadores. Esses, em muitos casos, efetivamente haviam cometido atos de violência, enquanto não raro negros são presos e torturados sem terem cometido crime algum.

Qual a importância que o senhor credita ao hip hop, no Brasil, para o movimento negro e para a população negra em geral? É um movimento herdeiro das lutas que pioneiros como o senhor travaram?

Considero o hip hop um movimento muito importante, sobretudo no aspecto da autoestima, pois as letras de muitas músicas e a atuação social de muitos de seus integrantes ajudam os jovens negros e as jovens negras a elevar o conceito que têm de si mesmos e de sua comunidade. Certamente, o hip hop cuida de muitas questões que são as versões atualizadas dos problemas que o movimento negro tem enfrentado desde sempre, e o hip hop oferece para a juventude uma referência, uma esperança e uma visão diferente daquela que a sociedade dominante e os meios de comunicação cultivam e que a juventude reconhece como mentirosa e interesseira. Entretanto, creio que seus protagonistas tenham pouco acesso aos referenciais históricos das lutas anteriores, e, nesse sentido, sua condição de herdeiros seja um pouco simbólica. Por exemplo, me parece que eles conhecem mais a história do movimento negro nos Estados Unidos, o discurso de Malcolm X e Martin Luther King, e os referenciais do reggae da Jamaica do que os fatos e os discursos do movimento negro no Brasil dos séculos 20 e 21. Pode ser que eu esteja equivocado, espero que sim!

Depois de séculos de lutas, hoje vemos uma juventude negra que está conseguindo chegar às universidades, ter mais oportunidades econômicas, formando uma elite intelectual negra. Como o senhor compararia a atual situação da juventude negra com a da época do senhor, com a da Frente Negra? Quais os conselhos que daria a essa juventude?

As entidades negras atualmente promovem muitas iniciativas análogas às da Frente Negra. O Estatuto de Igualdade Racial e todos os outros dispositivos legais, programas governamentais e instituições ou órgãos de governo dedicados às políticas públicas de igualdade racial, por exemplo, são conquistas concretas, frutos da atuação política do movimento negro. Nenhum deles foi uma bênção ou dádiva dos governantes ou políticos, muito ao contrário. Se há uma crítica ao Estatuto, é porque, em razão da ferrenha oposição contra ele nos setores conservadores que dominam a política brasileira, o processo de negociação de sua aprovação no Senado impôs uma série de aparentes retrocessos na letra da lei em relação a programas de governo já implantados como resultado da atuação do movimento negro. Mas foi o movimento negro que conseguiu implantar esses programas, então ele está longe de se limitar a atacar o governo. Foi ele que inseriu na Constituição de 1988, por exemplo, o direito das comunidades quilombos à titulação de suas terras. O conselho que dou para essa juventude é estudar, aprender, conhecer e se preparar para, então, se engajar: agir, criar, interagir e participar da construção das coisas. Cada um tem seu talento e sua área de interesse. O importante é se colocar a serviço do avanço e dedicar-lhe as suas energias.

Muito se fala do movimento negro no âmbito urbano, mas o Brasil assistiu, nos últimos anos, ao crescimento do movimento negro rural, particularmente o movimento quilombola, para o qual também o senhor teve especial importância na garantia do direito fundiário das comunidades quilombos. Qual a importância da questão da terra para o movimento negro, hoje?
Como fruto da mobilização política do movimento negro, a Constituição de 1988 estabeleceu o direito à titulação das terras das comunidades chamadas “remanescentes de quilombos”. Em 1989, como fruto do trabalho do Memorial Zumbi e do movimento negro como um todo, criou-se a Fundação Cultural Palmares, que seria responsável pelo processo de titulação. Entretanto, a Fundação é um órgão do Ministério da Cultura que não dispõe dos recursos humanos ou fi nanceiros para executar o trabalho de titulação. Essa tarefa passou, então, para o Ministério da Reforma Agrária. Entretanto, a Fundação Palmares dá parecer sobre a questão fundamental da condição quilombola, que determina o direito à titulação. O grande argumento para negar o direito de uma comunidade é alegar que ela não tem ou não provou que tem antecedentes históricos que a qualifi quem como remanescente de quilombo. O processo tem sido muito lento. Alguns anos atrás, a Fundação Palmares publicou um levantamento em que identificou a existência de mais de três mil comunidades quilombos em todo o país, ressalvando que certamente não conseguiu realizar um levantamento exaustivo ou defi nitivo. A questão da titulação esbarra, evidentemente, em poderosos interesses contrariados que, no contexto rural, ainda exercem a violência como forma de se impor.
Vale observar, também, que é negra a grande maioria dos sem-terras hoje organizados e conduzindo uma luta que tem sido definida como um dos mais importantes fenômenos sociais e políticos do século 21. A importância da terra está fundamentalmente ligada ao fato de que as cidades estão inchadas, inviabilizadas, e não dão conta de oferecer condições de vida dignas à população que já as habita, tendo grande parte dela migrado do interior. A economia rural baseada na agroindústria não tem condições de sustentar a população rural, porque não oferece trabalho em condições dignas. A produção agrícola baseada em unidades pequenas, familiares ou comunitárias, é a única solução para o campo e ela precisa, hoje, de subsídios e políticas de Estado para se viabilizar. As comunidades quilombos fazem parte integral dessa solução e precisam de subsídios específicos e de políticas específi cas para o seu desenvolvimento como unidades comunitárias rurais.

Na América Latina em geral, a questão étnica tem ganhado uma importância fundamental nas lutas políticas dos povos, em países como Bolívia, Equador, México – com diferentes tons, mas sempre realçando o fator étnico sobre o fator classe. No Brasil, o fator étnico de maior potencial é justamente o negro. Qual o papel que o fator étnico ocupa na luta política nacional? Será que ele poderá ocupar papel de semelhante preponderância na luta política?
Não recorro ao eufemismo “questão étnica” porque creio que seu uso reforça o equívoco da suposta acepção biológica do termo “raça”. Esta é uma pista falsa cuja manipulação abastece de grande e valiosa munição aqueles que procuram desmoralizar e deslegitimar a nossa luta. A categoria social de “raça” é uma realidade socialmente construída que independe das justifi cações genéticas e biológicas. Estas constituem apenas um pequeno episódio no milenar processo histórico de construção das categorias sociais de “raça”, da subordinação e desumanização ideológica de grupos raciais e da discriminação racial institucionalizada em sociedades capitalistas plurirraciais modernas e contemporâneas. Os grupos discriminados nessas sociedades não correspondem a nenhuma etnia, portanto, é conceitualmente confuso e cientificamente incorreto falar de “discriminação étnica” quando o alvo desse tratamento vem a ser a população negra ou indígena, por exemplo. Um negro no Brasil, na Venezuela ou na Costa Rica não é identifi cado como ibo, acã, zulu, hutu ou ioruba, mas como negro ou afrodescendente. Os indígenas nas Américas não são discriminados na sua condição de maias, incas, quéchuas, aimaras, cheyenne, iroquois, sioux, tupis ou guaranis, mas como indígenas.
Adotar o eufemismo “questão étnica” significa, a meu ver, uma tática defensiva que instaura a confusão conceitual entre nós e entrega os pontos aos adversários que alegam que nós, ao defendermos os nossos direitos, estamos sendo racistas. Ao aceitar a defi nição deles, identificando a categoria social de raça com o critério genético biológico, nós nos submetemos ao discurso hegemônico que desmoraliza nossa própria luta e deslegitima nossa própria experiência histórica de opressão e discriminação. Dito isso, creio que fica evidente que considero o “fator racial” como uma questão eminentemente política e não a separo de uma suposta “outra” luta política “maior”. Considero a luta por justiça social e pela dignidade dos povos como parte integral da luta por nações mais justas e seguras, por uma comunidade internacional mais justa e coesa, e por um futuro de vida humana capaz de sustentar com dignidade nossa população, nossos ambientes e nosso planeta.
(Publicado em Desinformémonos. Colaboraram Rafael Gomes e Gabriela Moncau)
18/11/2010 – www.brasildefato.com.br

Postado por Marcello Blum

Negritude – Por Kabenguele Munanga

Nos Estados Unidos

 

Após séculos de imitação cega, alguns escritores negros tomam consciência de que, de todos os grupos étnicos povoando os Estados Unidos – anglo-saxões, italianos, alemães,poloneses, judeus etc. – eles são os únicos a sofrer uma lavagem cerebral, levando-os até a acreditar que são naturalmente inferiores e não têm história. Esses escritores preocuparam-se em estabelecer a verdade e exorcizar entre seus irmãos de raça o profundo complexo de rejeição inculcado durante séculos. Limitemo-nos apenas aos dois mais conhecidos, o Dr. Du Bois e Langston Hughes, o Pai da Negritude e o representante do movimento conhecido sob o nome de Renascimento Negro, respectivamente.

W.E.B. Du Bois (nascido em 1863) fez seus estudos nas Universidades de Fusk, Harvard e Berlim, onde se doutorou em Filosofia. Seus trabalhos como historiador revelaram aos companheiros negros um passado africano do qual não se deviam envergonhar.

Sou negro e me glorifico deste nome; sou orgulhosos do sangue negro que corre em minhas veias…

Declara ele, sem hesitação[1]. Em 1900, foi secretário do Primeiro Congresso Pan-Africano, convocado em Londres por um advogado de Trindade, Henry Sylvester Williams, movimento do qual se tornou presidente depois da morte deste último. É considerado o pai do pan-africanismo contemporâneo, que, antes dos africanos, protestou contra a política imperialista na África, em favor da independência, na perspectiva de uma associação de todos os territórios para defender e promover sua integridade.Sem pregar a volta para a África dos negros americanos, defendia os direitos destes enquanto cidadãos da América e exortava os africanos a se libertarem em sua própria terra. Por ter defendido a volta às origens, Du Bois merece também o nome de Pai da negritude.

Sua influência foi considerável sobre personalidades africanas de primeiro plano, tais como Asikiwe Nandi, futuro presidente da Nigéria, Kwame N‘ Krumah, primeiro presidente da República de Gana, cujo mito do pan-africanismo foi uma das idéias-força, Jomo Kenyatta, primeiro presidente da República do Quênia.

Du Bois exercerá também profunda ascendência sobre os escritores negros americanos. Seu livro almas negras tornou-se verdadeira bíblia para os intelectuais do movimento Renascimento negro (entre 1920 e 1940). Reagindo, por sua vez, contra os estereótipos e preconceitos inveterados circulando a respeito do negro, longe de lamentar-se de sua cor, como acontecia com alguns no passado, o movimento reivindica-a, encontrando nela fonte de glória. Tratava-se de ter a liberdade de expressar-se como se é, e sempre se foi; de defender o direito ao emprego, ao amor, à igualdade, ao respeito; de assumir a cultura, o passado de sofrimento, a origem africana.

Todo esse programa é revelado de forma concisa e sem arrogância num parágrafo célebre de um artigo da revista The Nation, de 23 de junho de 1926, considerado o manifesto do movimento, ou, ainda, a declaração de independência do artista negro:

 

Nós, criadores da nova geração negra, queremos exprimir nossa personalidade sem vergonha nem medo. Se i8sso agrada aos brancos, ficamos felizes. Se não, pouco importa. Sabemos que somos bonitos. E feios também. O tantã chora, o tantã ri. Se isso agrada à gente de cor, ficamos muito felizes. Se não, tanto faz. É para o amanhã que construímos nossos sólidos templos, pois sabemos edifica-los, e estamos erguidos no topo da montanha, livres dentro de nós.

 

Langston Hughes (nascido em 1902, de pai branco e mãe negra) foi também muito prestigiado pelos iniciadores da negritude. Quando foi a Paris, tornou-se amigo pessoal de Leon Damas e de Senghor. Não à vontade na civilização ocidental, segundo ele dura, forte e fria, seu coração bate nos tantãs africanos e contempla a sarabanda das luas selvagens.

 

Todos os tantãs do mato batem no meu sangue. Todas as luas selvagens e ferventes do mato brilham na minha alma.

 

No entanto, ele não procurou fugir do combate cotidiano do seu povo. É na América que ele ficará, pois escreverá: Eu também sou a América.

 

Na Europa

 

Quando os estudantes negros dos países colonizados começaram a povoar as universidades européias, particularmente as de Paris e Londres, perceberam aos poucos algumas contradições, notadamente em relação à política de assimilação e às rivalidades entre as potências. O mito da civilização ocidental como modelo absoluto, tal como era ensinando nas colôn9oas, começou a desfazer-se assim que os africanos pisaram o solo europeu.

 

Estávamos orgulhosos de sermos franceses, apesar de negros africanos.

 

Declarou Senghor.

 

Revoltamo-nos, às vezes, por sermos considerados apenas consumidores de civilizações. As contradições da Europa: a idéia não ligada ao ato, a palavra ao gesto, a razão ao coração e daí à arte. Estávamos preparados para gritar: hipocrisia!.

 

Era o desencanto.

 

Além do mais, os múltiplos contatos entre estudantes negros de diversas procedências abriam-lhes os olhos sobre a sorte reservada a seu povo em toda a parte. Assim, chegaram rapidamente a uma consciência racial (não-racista). Eles se convenceram de que a opressão sofrida não era apenas a de uma classe minoritária sobre uma outra majoritária inferiorizada, mas ao mesmo tempo a de uma raça, independentemente da classe social.

As duas guerras mundiais de que participaram os africanos permitiram-lhes tomar conhecimento das grandes divisões em que vivia a Europa e o mundo dito civilizado de modo geral. Os negros viram-se envolvidos nos conflitos de seus dominadores, com os quais nada tinham a ver diretamente. Perceberam que os brancos não eram super-homens, e sim homens capazes de barbaridades pavorosas. Ocorreu, com elas, uma verdadeira desmistificação.

A Segunda Guerra Mundial serviu como ponto de partida da descolonização, ou seja, da luta de libertação. A esse respeito, o pastor Sithole, criticando o Império Britânico na África austral escreveu:

Vocês disseram que os alemães não têm o direito de dominar o mundo. Os ingleses também não têm o direito de manter os africanos na sua dependência.[2]

A experiência das duas guerras, o desencanto dos intelectuais negros nas metrópoles e os escritos das personalidades negras americanas já mencionados são fatos, entre outros, que explicam a negritude na diáspora européia, particularmente na francofonia.

Entre os precursores, duas personalidades marcantes: René Maran (1887-1960) e o Dr. Price-Mars, do Haiti (1876-1969).

René Maran, nascido na Martinica de pais guianenses, foi criado na França, considerando-se inteiramente francês. Engajado na administração colonial francesa, trabalhou em Obanguichari (antigo império centro-africano), onde morou treze anos. Familariaziou0se com a população negra dessa região, cuja língua aprende. De suas observações e anotações publicou um romance, Batouala, considerado um verdadeiro romance negro de excelente qualidade literária (1921). Batouala é um relato objetivo sobre a vida de um chefe de etnia. Os negros nele descritos têm qualidades e defeitos. Além do mais, Maram mostra que eles observam, pensam e criticam seus mestres europeus com uma lógica implacável, e que suas queixas têm fundamento. Por fim, o autor convidava com urgência os seus colegas escritores franceses a ficarem cada vez mais de olho no que estava sendo feito na África em nome da civilização. Infelizmente, seu apelo não foi atendido. Pelo contrário, perdeu sua carreira na administração colonial, acusado de calúnia e de ódio.

Etnógrafo, professor e diplomata, o Dr. Price-Mars publicou, em 1928, o livro Ainsi parla l’oncle (Assim falou o tio). Nele denuncia as fraquezas das produções culturais de imitação francesa, revaloriza o folclore haitiano, o dialeto crioulo, a religião vodu, reconhecendo oficialmente as ori8gens negras africanas da cultura haitiana, o que é uma maneira de devolver a memória a seu povo.

 

Temos a chance de sermos nós mesmos, a condição de não recusarmos nenhuma parte de nossa herança cultural, que constitui 80% da África.

 

Um tal programa era, sem dúvida nenhuma, mais um prenúncio à negritude e caminhava na mesma direção da obra de Du Bois e dos defensores do Renascimento negro. A convergência era certamente generalizada. Em 1956, quando do Primeiro congresso dos Escritores e Artistas Negros em Paris, Price-Mars foi eleito por unani8midade presidente da Associação Africana de Cultura. Como Du Bois, é visto como grande pensador do mundo negro.

 

No Quartier Latin

 

Os estudantes negros de Paris reencontram a memória do passado africano não só mediante os relatos negros americanos, Maran e o renascimento literário haitiano animado por Price-Mars, mas também por iniciativa própria, pelos etnólogos e artistas europeus de boa vontade e por alguns africanos com estudos feitos no fim do século XIX.

Em 1906, o cientista alemão Leo Frobenius escreve sobre a existência real de uma civilização africana, caracterizada pelo que ele mesmo chamou de estilo africano,  dominando todo o continente, como expressão de seu ser. Esse jeito manifesta-se nos gestos de todos os povos negros, na sua plástica, dança, máscaras, crenças religiosas, formas sociais, no seu destino etc. Neste sentido, a idéia de uma África com negros bárbaros era uma invenção européia.

A arte negra, considerada até o fim da Primeira Guerra Mundial, primitiva e inferior, é redescoberta por uns poucos artistas, que vêem nela os modelos clássicos que lhes foram negados. Os pintores cubistas da escola francesa, ao entrarem em contato com essa iconografia, por volta de 1907, constatam que a sua pretensa inovação artística já era realizada na África. As obras não se preocupam em mostrar as impressões visuais, elas expressam a idéia que o artista tem de um objeto ou de uma pessoa. Daí a expressão arte abstrata relacionada a Picasso e raque, que sem dúvida nenhuma se inspiraram na estatuária africana.

Para os criadores da negritude. Repetimos, a convergência de eventos na América e na Europa foi particularmente importante. Reapareceram a memória e a dimensão histórica amputadas. Certamente, seus pés e mãos ainda estavam presos às amarras coloniais, mas eles tinham o que dizer e responder nos debates que animaram o Quartier Latin, na década de trinta, sobre temas literários e políticos, debates nos quais foi-lhes dito que não tinham nenhuma civilização original e nada traziam à história do mundo. Eles tinham o que responder e começaram. As glórias passadas da África, as riquezas, o diário necessário ao equilíbrio do mundo futuro, os tantãs e as danças, a emoção, a intuição, enfim, tudo o que podia ser expresso.

Um novo nome, um conceito, todo um vocabulário nasce nesse contexto, para onde se canalizavam os debates: a negritude, quer dizer, a personalidade negra, a consciência negra.

Em junho de 1932 publicou-se Legitime Défense (legítima Defesa), uma revista que teve só um número. A iniciativa foi de alguns estudantes negros antilhanos (Étienne Léro, René Menil, Jules Monnero e outros). Nela criticavam os escritores de seu país, que sempre plagiaram os modelos literários franceses. Como Price-Mars, no Haiti, essa equipe defendida a personalidade antilhana esmagada durante os trezentos anos de escravidão e de colonização: pregava não apenas a libertação do estilo e da forma, mas também a da imaginação e do temperamento negros. Mirando-se no exemplo dos escritores americanos ligados ao movimento Renascimento, os moços acreditavam que o intelectual devia assumir cor, raça e tornar-se o porta-voz das aspirações do povo oprimido, em vez de escrever livros onde a sua pigmentação não pudesse ser adivinhada. Tal era a mensagem da Legitime Défense, título sugestivo que despertaria a consciência sonolenta de muitos jovens antilhanos e africanos.

Depois da morte da revista, em 1934, dois anos passados, nasce uma ova revista, retomando a mesma bandeira e reagrupando todos os estudantes negros em Paris, sem distinção de origem, por isso foi batizada de Étudiant Noir (Estudante Negro).

Opondo-se também à política de assimilação cultural, o pessoal da Étudiant Noir reivindica a liberdade criadora do negro e condena a imitação ocidental. Aponta como meios de libertação a volta às raízes africanas, o comunismo e o surrealismo. Sendo as duas últimas  consideradas ideologias européias, decide-se por despoja-las de seu caráter doutrinal, transformando-as em ferramentas ou técnicas. Dava-se um grande passo em relação à Legitime Défense, pois, segundo Leon Damas, co-definidor da negritude, a Étudiant Noir nunca consentiu em seguir sem reserva os mestres europeus, modernos ou antigos.

O grupo da revissta era dominado por três personalidades marcantes: o martiniquense Aimé Cesiare, que criou a palavra negritude, o guianense Leon Damas e o senegalês Léopold Sedar Senghor, cercados de Léonar Sainville, Aristide Maugée, Birago Diop, Ousmane Soce e dois irmãos Achille. A eles se devem as grandes obras da literatura negra africana de expressão francesa, e podem ser considerados os fundadores do movimento da negritude.

 

Objetivos da negritude

 

O exame da produção discursiva dos escritores da negritude permite levantar três objetivos principais: buscar o desafio cultural do mundo negro (a identidade negra africana), protestar contra a ordem colonial, lutar pela emancipação de seus povos oprimidos e lançar o apelo de uma revisão das relações entre os povos para que se chegasse a uma civilização não universal como a extensão de  uma regional imposta pela força – mas uma civilização do universal, encontro de todas as outras, concretas e particulares.

 

O desafio, a questão da identidade

 

Entre os três objetivos que acabamos de levantar, o que impressiona imediatamente por sua amplitude e pela variedade das disciplinas mobilizadas à sua compreensão é a afirmação e a reabilitação da identidade cultural, da personalidade própria dos povos negros. Poetas, romancistas, etnólogos, filósofos, historiadores etc. quiseram restituir à África o orgulho de seu passado, afirmar o valor de suas culturas, rejeitar uma assimilação que teria sufocado a sua personalidade. Tem-se a tendência, sob várias formas, de fazer equivaler os valores das civilizações africanas e ocidental. É a esse objetivo fundamental que correspondem as diversas manifestações do conceito de negritude.

Para Césaire, a negritude é o simples reconhecimento do fato de ser negro, a aceitação de seu destino, de sua história, de sua cultura. Mas tarde, Césaire irá redifini-la em três palavras: identidade, fidelidade, solidariedade.

A identidade consiste em assumir plenamente, com orgulho, a condição de negro, em dizer, cabeça erguida: sou negro. A palavra foi despojada de tudo o que carregou no passado, como desprezo, transformando este último numa fonte de orgulho para o negro.

A fidelidade repousa numa ligação com a terá-mãe, cuja herança deve, custe o que custar, demandar prioridade.

A solidariedade é o sentimento que nos liga secretamente a todos os irmãos negros do mundo, que nos leva a ajudá-los e a preservar nossa identidade comum. Césaire rejeita todas as máscaras brancas que o negro usava e faziam dele uma personalidade emprestada.

Senghor entende identidade própria como o conjunto dos valores culturais do mundo negro, exprimidos na vida, nas instituições, nas obras. É a proclamação-celebração sobre todos os tons da identidade, da personalidade coletiva, visando o retorno às raízes do negro côo condição de um futuro diferente da redução presente. Os negros decidem assumir o desprezo para fazer dele fonte de orgulho. Tal reação devia, para ser adequada, retomar os mesmos termos da agressão cultural, neutralizá-los, desenvenena-los antes de recarregá-los de um novo sentido. A negritude aparece aqui como uma operação de desintoxicação semântica e de constituição de um novo lugar de inteligibilidade da relação consigo, com os outros e com o mundo.

De seu lado, o eminente historiador Joseph Ki-Zerbo exorta os africanos a estudarem em sua história confiscada em proveito de seus mestres europeus, corrigindo o que foi escrito sem e contra eles. Com outros historiadores do mundo, sublinha a importância da memória, necessária às operações do espírito e indispensável à coesão da personalidade individual e coletiva.

 

Pegue uma pessoa, despojando-a brutalmente de todos os dados gravados em sua cabeça. Inflija-lhe, por exemplo, uma amnésia total. Essa pessoa torna-se um ser errante num mundo onde não compreende mais nada. Despojada de sua história, ela estranha a si mesma, aliena-se. A história é a memória das nações. Os povos e as coletividades são frutos da história.[3]

 

Para Cheik Anta Diop, a identidade cultural de qualquer povo corresponde idealmente à presença simultânea de três componentes: o histórico, o lingüístico e o psicológico. No entanto, o fator histórico parece o mais importante, na medida em que constitui  o cimento que une os elementos diversos de um povo, através do sentimento de continuidade vivido pelo conjunto da coletividade. O essencial para cada comunidade é reencontrar o fio condutor que a liga a seu passado ancestral, o mais longínquo possível. Nesse sentido, segundo o autor, o estudo da história permite ao negro receptar a sua nacionalidade e tirar dela o benefício moral necessário para reconquistar seu lugar no mundo moderno.

Os historiadores negros africanos esmiúçam os grandes impérios e reinos de ontem, mostrando a África negra não como uma tabula rasa, e sim como um teatro de brilhantes culturas e civilizações, cujos atuais vestígios desmentem as teses colonialistas. Afirmam, ainda, que, a partir das descobertas arqueológicas a paleontológicas mais recentes, a África é o berço da humanidade. Estabelecem uma relação marcante centre as civilizações negras africanas e a do Egito faraônico, enfatizando sua origem negra, contrariamente ao que certa egiptologia tendenciosa considerava uma verdadeira falsificação moderna da história.

As pesquisas de Yoro Diaw, no Senegal, Sarbah, Casely Hayford, Aggrey, S. Johnson e N. Azikiwe, na Nigéria, L. Dube, na África do Sul, e Apolo Kaguwa, na África oriental, situam-se na mesma perspectiva. Elas exprimem uma preocupação de afirmação baseada num passado que, graças aos seus impérios, instituições e figuras épicas, em nada fica a dever ao conquistador (Sow et alii, 1980, p. 146).

As análises do pensamento africano moderno põem claramente em evidência todo este esforço, centrado na valorização do passado e na vontade de construir ideologias, baseadas na reconquista de identidade, fazendo história como sujeito dela.

 

Luta pela emancipação

 

Identidade, fidelidade e solidariedade constituem como já vimos, três aspectos de uma só personalidade cultural negra africana, tal como a perceberam os protagonistas da negritude. Cerca-la, celebra-la, reivindica-la contra a máscara branca imposta pela teoria da assimilação, era o principal objetivo do movimento da negritude, praticamente o único antes da última guerra.

Mas durante a Segunda Guerra e depois dela (desde 1943), o movimento ganhou uma dimensão política, aproximando-se da proposta essencial do pan-africanismo. Na atmosfera internacional dessa guerra, um esforço esmagador foi exigido dos colonizados para salvar uma civilização em chamas. A crise desperta no negro um desejo de afirmação cada vez maior. Ultrapassando os limites da literatura, a negritude aspira ao poder, anima a ação política e a luta pela independência. A criação poética torna-se um ato político, uma revolta contra a ordem colonial, o imperialismo e o racismo. O movimento da negritude deu um vigoroso impulso às organizações políticas e aos sindicatos africanos, esclarecendo-os na sua caminhada à independência nacional. Conquistadas as soberanias, continuou a servir na causa da unidade africana, ao mesmo tempo em que oferecia uma quadro ideológico a partir do qual seus protagonistas, tornados homens de Estado, iam pensar o desenvolvimento econômico e social e abordar o sistema da representação dos valores culturais de seus respectivos países.

Esse pensamento, representado particularmente pelo presidente-poeta Senghor e seus ministros, não convenceu a todos. Embora a busca da identidade diante da assimilação colonial pudesse conciliar todos os negros, não era fácil, no entanto, realizar um acordo sobre questões de opção e orientação política, escolha do modelo de desenvolvimento e do tipo de relação a se manter com as antigas metrópoles e os grandes blocos ideológicos. Nesse  sentido, críticas foram feitas ao presidente Leópold Sedar Senghor, principalmente à sua atitude em relação à francofonia. Entendida como a política da promoção e expansão da língua dos deuses, o francês reagruparia países diversos, os mais desenvolvidos e os mais pobres, numa aliança ambígua e ameaçadora ao futuro das línguas negras africanas. M. Towa, filósofo da República dos Camarões, diagnosticando a armadilha do neocolonialismo escreveu:

 

L. S. Senghor, em nome da negritude, propõe-nos a francofonia, isto é, o  fortalecimento e o desenvolvimento do francês como ideal e fundamento da nossa política e cultura. A negritude senghoriana manifesta assim abertamente sua verdadeira natureza: é a ideologia quase oficial do neocolonialismo, o cimento da prisão onde quer deixar-nos trincados e que devemos quebrar[4].

 

Outras análise mostraram também como, através da francofonia, poder-se-ia manter e consolidar a influência da língua francesa nos novos países, as antigas colônias, consolidação essa que se realizaria com o consentimento dos líderes africanos. Daí a expressão neocolonialismo lingüístico, que é a vertente cultural da dominação econômica.

Um grande descrédito caiu sobre a negritude. No entanto, não podemos desconsiderar todo o movimento por causa da posição pessoal de Senghor.

 

Repúdio ao ódio: diálogo com outras culturas

 

Além da busca da identidade cultural e da ação política, o terceiro objetivo fundamental da negritude é o repúdio ao ódio, procurando o diálogo com outros povos e culturas, visando a edificação daquilo que Senghor chamou civilização do universal. Este aspecto parece-nos já atingido pelo terceiro componente da definição da negritude de Césaire: a solidariedade. Primordialmente, os negros apóiam-se no mundo inteiro. Mas o negro não quer isolar-se do resto do mundo. A questão é contribuir para a construção de uma nova sociedade onde todos os mortais poderão encontrar seu lugar.

 

Diferentes acepções e rumos da negritude

 

Há cerca de cinqüenta anos nascia a negritude enquanto conceito e movimento ideológico. Durante esse meio século muito se escreveu sobre o assunto. Várias interpretações, às vezes ambíguas, foram formuladas, de acordo com o dinamismo da realidade do mundo negro no continente africano e na diáspora.

Percorrendo a história do conceito, poder-se-ia descobri-las. Segundo Bernard Lecherbonnier[5], as diversas definições da negritude giram entre duas interpretações antinômicas: uma mística e outra ideológica. A primeira chama a si, em função da descoberta do passado africano anterior à colonização, a perenidade de estruturas de pensamento e uma explicação do mundo, almejando um retorno às origens para revitalizar a realidade africana, perturbada pela intervenção ocidental. A segunda propõe esquemas de ação, um modo de ser negro, impondo uma negritude agressiva ao branco, resposta a situações históricas, psicológicas e outras, comuns a todos os negros colonizados. As duas concepções são coerentes. No entanto, a mítica seria interpretada como uma marginalização do gruo negro, podendo levá-lo, a médio ou longo prazo, ao desaparecimento. A ideológica conduziria a uma fusão da problemática negra com a dos colonizados de todas as origens, aproximando-se, portanto, da teoria marxista.

Enquanto mito, interpreta-se a negritude como realidade voltada ao passado, sonhadora e contemplativa, ególatra e auto-suficiente, e não de combate, projetada para o futuro. Evidentemente, há um certo perigo em se confundir os meios e as finalidades. Mas acredita-se que o mito é importante, na medida em que ajuda a nova ideologia a se estabelecer. As linhas-força que serão pensadas para a frente e justificadas pela análise da situação presente pertence à ideologia (de luta), mas podem ter sucesso quando apoiadas por uma vontade coletiva, reflexo de um passado real ou mítico.

Entre as duas interpretações, existe uma variedade de definições.

 

 

MUNANGA, Kabengele. Negritude. Usos e sentidos. 2 ed.  São Paulo: Ática, 1988, p. 32-51.


[1]           DU BOIS, W. E. B. Ames noires. In BIMWENYI-KWESHI, p. 140.

[2] BIMWENYI-KWESHI, º op. cit., p. 138.

[3] KI-ZERBO, Joseph. Apud BIMWENYI-KWESHI,  Op. cit., p. 151

[4] TOWA, M. Lépoldo Sedar Senghor: negritude ou servitude? Yaondé: editions Clé, 1971, p. 99-115.

[5] Initiation a la littérature negro-africaine. Paris: Fernand Nathan, 1977, p. 105.

Prefácio de Os condenados da terra, por Jean Paul Sartre

PREFÁCIO a Os condenados da terra, de Franz Fanon

Jean-Paul Sartre

Não faz muito tempo a terra tinha dois bilhões de habitantes, isto é, quinhentos milhões de homens e um bilhão e quinhentos milhões de indígenas. Os primeiros dispunham do Verbo, os outros pediam-no emprestado. Entre aqueles e estes, régulos vendidos, feudatários e uma falsa burguesia pré-fabricada serviam de intermediários. Às colônias a verdade se mostrava nua; as “metrópoles” queriam-na vestida: era preciso que o indígena as amasse. Como às mães, por assim dizer. A elite européia tentou engendrar um indigenato de elite; selecionava adolescentes, gravava-lhes na testa, com fero em brasa, os princípios da cultura ocidental, metia-lhes na boca mordaças sonoras, expressões bombásticas e pastosas que grudavam nos dentes; depois de breve estada na metrópole, recambiava-os, adulterados. Essas contrafacções vivas não tinham mais nada a dizer a seus irmãos; faziam eco; de Paris, de Londres, de Amsterdã lançávamos palavras: “Partenon! Fraternidade!”, e, num ponto qualquer da África, da Ásia, lábios se abriam: “… tenon!…nidade!” Era a idade de outro.

Isto acabou. As bocas passaram a abrir-se sozinhas; as vozes amarelas e negras falavam ainda do nosso humanismo, mas para censurar a nossa desumanidade. Escutávamos sem desagrado essas corteses manifestações de amargura. De início houve um espanto orgulhoso: Quê! Eles falam por eles mesmos! Vejam só que fizemos deles! Não duvidávamos que aceitassem o nosso ideal porquanto nos acusavam de não sermos fiéis a ele; por esta vez a Europa acreditou em sua missão: havia helenizado os asiáticos e criado esta espécie nova: os negros greco-latinos. Ajuntávamos, só para nós, astutos: deixemos que se esgoelem, isso os alivia; cão que ladra não morde.

Surgiu uma outra geração que alterou o problema. Seus escritores, seus poetas, com incrível paciência trataram de nos explicar que nossos valores não se ajustavam bem à verdade de sua vida, que não lhes era possível rejeita-los ou assimila-los inteiramente. Em suma, isso queria dizer: de nós fizestes monstros, vosso humanismo nos supõe universais e vossas práticas racistas nos particularizam. E nós os escutávamos despreocupados; os administradores coloniais não são pagos para ler Hegel, aliás lêem-no pouco, mas não precisam desse filósofo para saber que as consciências infelizes se emaranham nas próprias contradições. Nenhuma eficácia. Por conseguinte, perpetuemos-lhes a infelicidade, que dela não resultará coisa alguma. Se houvesse, diziam-nos os peritos, uma sombra de reivindicação em seus gemidos,  outra não seria que a de integração. Não se trata de outorga-la, é claro, isso arruinaria o sistema, que repousa, como se sabe, na superexploração. Mas bastaria acenar-lhes com essa patranha: viriam correndo. Quanto à possibilidade de revolta, estávamos tranqüilos. Que indígena consciente iriam massacrar os filhos da Europa com o fim único de se tornar europeu como eles? Numa palavra, estimulávamos essas melancolias e não achamos mau, uma vez, conceder o prêmio Goncourt a um negro. Isso ocorreu antes de 39.

1961. Escutai: “Não percamos tempo com litanias estéreis ou mimetismos nauseabundos. Deixemos essa Europa que não cessa de falar do homem enquanto o massacra por toda a parte onde o encontra, em todos as esquinas de suas próprias ruas, em todas as esquinas do mundo. Há séculos… que em nome de uma suposta  ´aventura espiritual´ vem asfixiando a quase totalidade da humanidade”. Este tom é novo. Quem ousa adotá-lo? Um africano, homem do Terceiro Mundo, antigo colonizado. Acrescenta ele: “A Europa adquiriu uma velocidade tão louca, tão desordenada… que a arrasta para o abismo, do qual é melhor que nos afastemos.” Em outras palavras: ela está atolada. Uma verdade que não é boa de dizer mas da qual – não é mesmo, meus caros co-continentais? – estamos todos intimamente convencidos.

Cumpre fazer uma ressalva, porém. Quando um francês, por exemplo, diz a outros franceses: “Estamos atolados!” – o que, pelo que sei, se verifica quase todos os dias desde 1930 – trata-se de um discurso passional, ardente de cólera e amor, em que o orador se compromete com todos os seus compatriotas. E depois geralmente acrescenta: “A menos que…” Sabe-se o que isto significa: é impossível enganar-se a este respeito: se suas recomendações não forem seguidas à risca, então e somente então o país se desintegrará. Enfim, é uma ameaça seguida de um conselho, e essas conversas chocam tanto menos quanto jorram da intersubjetividade nacional. Quando Fanon, ao contrário, diz que a Europa cava a sua própria ruína, longe de soltar um grito de alarma, apresenta um diagnóstico. Este médico não pretende nem condena-la sem apelação – há tais milagres – nem lhe fornecer os meios de cura; constata que ela agoniza. De foram baseando-se nos sintomas que pôde recolher. Quanto a trata-la, não. Ele tem outras preocupações na cabeça; pouco se lhe dá que ela arrebente ou sobreviva. Por este motivo, seu livro é escandalosos. E se murmurais, entre divertidos e embaraçados: “Que é que ele nos propõe?”, deixais de perceber a verdadeira natureza do escândalo, uma vez que Fanon não vos “propõe” absolutamente nada; sua obra – tão abrasadora para outros – para vós permanece gelada; amiúde fala de vós, mas nunca a vós. Acabaram-se os Goncourt negros e os Nobel amarelos; não voltará mais o tempo dos laureados colonizados. Um ex-indígena “de língua francesa” sujeita esta língua a exigências novas, serve-se dela para dirigir-se apenas aos colonizados: “Indígenas de todos os países subdesenvolvidos, uni-vos!”. Que rebaixamento; para os pais, éramos os únicos interlocutores; os filhos nem nos consideram ais como interlocutores admissíveis: somos os objetos do discurso. Evidentemente Fanon menciona de passagem nossos crimes famosos, Sétif, Hanói, Madagascar, mas não perde o seu temo a condená-los; utiliza-os. Se desmonta as táticas do colonialismo , o complexo jogo das relações que unem e opõem os colonos aos “metropolitanos”, faz isso para seus irmãos; seu objetivo é ensiná-los a desmantelar-nos.

Numa palavra, oi Terceiro Mundo se descobre e se exprime por meio desta voz. Sabemos que ele não é homogêneo e que nele se encontram ainda povos subjugados, outros que adquiriram uma falsa independência, outros que se batem para conquistar a soberania, outros enfim que obtiveram a liberdade plena mas vivem sob a constante ameaça de uma agressão imperialista. Essas diferenças nasceram da história colonial, isto é, da opressão. Aqui a Metrópole contentou-se em pagar alguns feudatários; ali, dividindo para reinar, fabricou em bloco uma burguesia de colonizados. Mais além matou dois coelhos de uma só cajadada: a colônia é ao mesmo tempo de exploração e de povoamento. Assim a Europa multiplicou as divisões, as oposições, forjou classes e por vezes racismos, tentou por todos os meios provocar e incrementar a estratificação das sociedades colonizadas. Fanon não dissimula nada: para lutar contra nós, a antiga colônia deve lutar contra ela mesma. Ou melhor, as duas formas de luta são uma só. No fogo do combate, todas as barreiras interiores devem derreter-se. A impotente burguesia de negocistas e compradores, o  proletariado urbano, sempre privilegiado, o lumpenproletariat das favelas, todos têm de se alinhar nas posições das massas rurais, verdadeiro reservatório do exército nacional e revolucionário; nas regiões cujo desenvolvimento foi deliberadamente sustado pelo colonialismo, o campesinato, quando se revolta, aparece logo como a classe radical: conhece a opressão nua, suporta-a muito mais que os trabalhadores da s cidades e, para que não morra de fome, precisa nada mesmos que de um estouro de todas as estruturas. Triunfando, a Revolução nacional será socialista; detido seu ímpeto, a burguesia colonizada toma o poder, e o novo Estado, a despeito de uma soberania formal, continua nas mãos dos imperialistas. O exemplo de Katanga é bastante ilustrativo[1]. Assim, a unidade do Terceiro Mundo não está concluída: é um empreendimento em curso, que passa pela união, em cada país, antes de também depois da independência, de todos os colonizados, sob o comando da classe camponesa. Eis o que Fanon explica a seus irmãos da África, da Ásia, da América latina: realizaremos todos em conjunto e por toda a parte o socialismo revolucionário ou seremos derrotados um a um por nossos antigos tiranos. Não dissimula nada, nem as fraquezas, nem as discórdias, nem as mistificações. Aqui o movimento começa mal; ali, após êxitos, fulminantes, perde velocidade; noutra parte está parado: para que se reinicie, é necessário que os camponeses lancem sua burguesia ao mar. O leitor é severamente acautelado contra as alienações mais perigosas: o líder, o culto da personalidade, a cultura ocidental e, também o retorno do longínquo passado da cultura africana; a verdadeira cultura é a Revolução; isso que fizer que ela se forja a quente.  Fanon fala em voz alta; nós, os europeus, podemos ouvi-lo: a prova é que temos nas mãos este livro. Não teme ele que as potências coloniais tirem proveito de sua sinceridade?

Não. Não teme nada. Nossos processos estão peremptos; podem talvez retardar a emancipação, mas não a impedirão. E não imaginemos que poderemos reajustar os nossos métodos: o neocolonialismo, sonho preguiçoso das Metrópoles, é vão; as “Terceiras Forças” não existem ou são falsas burguesias que o colonialismo já colocou no poder. Nosso maquiavelismo tem poucos poderes sobre este mundo extremamente vigilante que desmascarou uma após outra as nossas mentiras. O colono só tem um recurso: a força, quando esta ainda lhe sobra: o indígena só tem uma alternativa: a servidão ou a soberania. Que importa a Fanon que leiamos ou não a sua obra? É a seus irmãos que ele denuncia nossas velhas artimanhas, para as quais não dispomos de sobressalentes. É a eles que Fanon diz: a Europa pôs as patas em nossos continentes, urge golpeá-las até que ela as retire; o momento nos favorece; nada acontece em Bizerta, em Elizabethville, no deserto argelino, que não chegue ao conhecimento de toda a Terra: os blocos tomam partidos contrários, encaram-se como respeito; aproveitemos essa paralisia, entremos na história e que nossa irrupção a torne universal pela primeira vez; na falta de outras armas, a perseverança da faca será suficiente.

Europeus, abri este livro, entrai nele. Depois de alguns passos na noite, vereis estrangeiros reunidos ao pé do fogo, aproximai-vos, escutai; eles discutem a sorte que reservam às vossas feitorias, aos mercenários que as defendem. Eles vos verão talvez, mas continuarão a falar entre si, sem mesmo baixar a voz. Essa indiferença fustiga o coração: os pais, criaturas da sombra, vossas criaturas, eram almas mortas, vós lhes dispensáveis a luz, eles só se dirigiam a vós, e vós não perdíeis tempo em responder a esses zumbis. Os filhos não fazem caso de vós; um fogo os ilumina e aquece, e vós vos sentireis furtivos, noturnos, transidos; a cada um a sua vez; nessas trevas de onde vai surgir uma outra aurora, os zumbis sóis vós.

Nesse caso, direis, joguemos este livro pela janela. Por que temos de o ler se não foi escrito para nós? Por dois motivos. O primeiro é que Fanon vos explica a seus irmãos e desmonta para eles o mecanismo de nossas alienações; aproveitai para vos descobrir a vós mesmos em vossa verdade de objetos. Nossas vítimas nos conhecem por suas feridas e seus grilhões; é isto que torna seus testemunho irrefutável. Basta que nos mostrem o que fizemos delas para que conheçamos o que fizemos de nós, Isso é útil? Sim, visto que a Europa está na iminência de rebentar. Mas, direi vós ainda, vivemos na Metrópole e reprovamos os excessos. É verdade: não sois colonos, mas não sois melhores do que eles. São vossos pioneiros, vós os enviastes para o ultramar, eles vos enriqueceram; vós os tínheis prevenido: se fizessem correr muito sangue, vós os reprovaríeis com desdém; da mesma forma, um Estado – qualquer que seja – mantém no estrangeiro uma turba de agitadores, de provocadores e espiões, aos quais reprova quando são apanhados. Vós, tão liberais, tão humanos, que levai os amor da cultura até ao preciosismo, fingis esquecer que tendes colônias e que nelas se praticam massacres em vosso nome. Fanon revela a seus camaradas – a alguns dentre eles, sobretudo, que continuam um pouco ocidentalizados demais –a solidariedade dos “metropolitanos” e seus agentes coloniais. Tende a coragem de o lar, por esta primeira razão de que ele fará com que vos sintais envergonhados, e a vergonha, como disse Marx, é um sentimento revolucionário. Vede: eu também não posso desprender-me da ilusão subjetiva. Eu também vos digo: “Tudo está perdido, a menos que…”  Europeu, furto o livro de um inimigo e faço dele um meio de curar a Europa. Aproveitai.

Eis o segundo motivo: se rejeitarmos a lenga-lenga fascista de Sorel, veremos que Fanon é o primeiro desde Engels a repor em cena a parteira da história. E não se creia que um sangue demasiado ardente ou desventuras da infância lhe tenham dado para a violência não sei que gosto singular: ele se faz intérprete da situação, nada mais. Mas isso basta para que ele constitua, etapa por etapa, a dialética que a hipocrisia liberal oculta de nós e que nos produziu tanto quanto a ele.

No século passado a burguesia considerava os operários invejosos, corrompidos por apetites grosseiros, mas teve o cuidado de incluir esses selvagens em nossa espécie: se não fossem homens e livres, como poderiam vender livremente sua força de trabalho? Na França, na Inglaterra, os humanismo pretender ser universal.

Com o trabalho forçado, dá-se o contrário; nada de contrato; além disso, é preciso intimidar; patenteia-se portanto a opressão. Nossos soldados no ultramar rechaçam o universalismo metropolitano, aplicam ao gênero humano o numerus clausus; uma vez que ninguém pode sem crime espoliar seus semelhante, escraviza-lo ou mata-lo, eles dão por assente que o colonizado não é o semelhante do homem. Nossa tropa de choque recebeu a missão de transformar essa certeza abstrata em realidade: a ordem é rebaixar os habitantes do território anexado ao nível do macaco superior para justificar que o colono os trate como bestas de carga. A violência colonial não tem somente o objetivo de garantir o respeito desses homens subjugados; procura desumaniza-los. Nada deve ser poupado para liquidar as suas tradições, para substituir a língua deles pela nossa, para destruir a sua cultura sem lhes dar a nossa; é preciso embrutecê-los pela fadiga. Desnutridos, enfermos, se ainda resistem, o medo concluirá o trabalho: assestam-se os fuzis sobre o camponês; vêm civis que se instalam na terra e o obrigam a cultivá-la para eles. Se resiste, os soldados atiram, é um homem morto; se cede, degrada-se, não é mais um homem; a vergonha e o temor vão fender-lhe o caráter, desintegra-lhe a personalidade. A coisa é conduzida a toque de caixa, por peritos: não é de hoje que datam os “serviços psicológicos”. Nem a lavagem cerebral. E, no entanto, malgrado tantos esforços, o objetivo não é atingido em parte nenhuma: no Congo, onde se cortavam as mãos dos negros, nem em Angola onde, bem recentemente, furavam-se os lábios dos descontentes para os fechar com cadeados. E não afirmo que seja impossível converter um homem num animal: digo que não se chaga a tanto sem o enfraquecer consideravelmente; as bordoadas não bastam, é necessário recorrer à desnutrição. É o tédio, com a servidão. Quando domesticamos um membro de nossa espécie, diminuímos o seu rendimento e, por pouco que lhe demos, um homem reduzido à condição de animal doméstico acaba por custar mais do que produz. Por esse motivo os colonos vêem-se obrigados a parar a domesticação no meio do caminho: o resultado, nem homem nem animal, é o indígena. Derrotado, subalimentado, doente, amedrontado, mas só até certo ponto, tem ele, seja amarelo, negro ou branco, sempre os mesmos traços de caráter: é um preguiçoso, sonso e ladrão, que vive de nada e só reconhece a força.

Pobre colono: eis sua contradição posta a nu. Deveria, dizem, como faz o gênio, matar as vítimas de suas pilhagens. Mas isso não é possível. Não é preciso também que as explore? Não podendo levar o massacre até ao genocídio e a servidão até ao embrutecimento, perde a cabeça, a operação de desarranjo e uma lógica implacável há de conduzi-la até à descolonização.

Não de imediato. A princípio o europeu reina: já perdeu mas não se dá conta disso; ainda não sabe que os indígenas são falsos indígenas; atormenta-os, conforme alega, para destruir ou reprimir o mal que há neles. Ao cabo de três gerações, seus instintos perniciosos não renascerão mais. Que instinto? Os que compelem os escravos a massacrar o senhor? Como não reconhece nisto a sua própria crueza voltada contra ele? A selvageria dos camponeses oprimidos, como não reencontra nela sua selvageria de colono, que eles absorveram por todos os poros e de que não estão curados? A razão é simples. Esse personagem arrogante, enlouquecido por todo o seu poder e pelo medo de o perder, já não se lembrar realmente que foi um homem: julga-se uma chibata ou um fuzil; chegou a acreditar que a domesticação das “raças inferiores” se obtém através do condicionamento dos seus reflexos. Negligencia a memória humana, as recordações indeléveis; e depois, sobretudo, há isto que talvez ele jamais tenha sabido: nós não nos tornamos o que somos senão pela negação íntima e radical do que fizeram de nós. Três gerações? Desde a segunda, mal abriram os olhos, os filhos viram os pais serem espancados. Em termos de psiquiatria, ei-los “traumatizados”. Para a vida inteira. Mas essas agressões incessantemente renovadas, longe de os induzir à submissão, atiram-nos numa contradição insuportável pela qual cedo ou tarde o europeu pagará. Depois disso, o aprendizado a que por sua vez serão submetidos, aprendizado de humilhação, dor e fome, suscitará em seus corpos uma ira vulcânica cujo poder é igual ao da pressão que se exerce sobre eles. Será, dizei vós, que só conhecem a força? Por certo; de início será apenas a do colono e, pouco depois, a deles, isto é, a mesma que recai sobre nós da mesma maneira que o nosso reflexo vem do fundo de um espelho ao nosso encontro. Não nos iludamos; por essa cólera louca, por essa bile e esse fel, por seu desejo permanente de nos matar, pela contração constante de músculos poderosos que têm medo de se esticar, eles são homens: pelo colono, que os quer servos, e contra ele. Cego ainda, abstrato, o ódio é o seu único tesouro. O Patrão provoca-o porque procura bestializá-lo, falha em destruí-lo porque seus interesses o detêm a meio caminho. Assim, os falsos indígenas ainda são humanos, pela força e a impotência do opressor que se transformam neles numa obstinada recusa à condição animal. Quanto ao mais, já se sabe: são preguiçosos, é claro, e isso é sabotagem. Dissimulados, ladrões, sem dúvida; seus pequenos furtos assinalam o começo de uma resistência ainda desorganizada. Isso não basta; para que se afirmem têm de investir desarmados contra os fuzis. Estão os seus heróis, e outros se fazem homens assassinando europeus. São mortos. Bandidos e mártires, seu suplício exalta as massas aterrorizadas.

Aterrorizadas, sim. Neste novo momento a agressão colonial se interioriza em Terror entre os colonizados. Não me refiro somente ao temor que experimental diante de nossos inesgotáveis meios de repressão como também ao que lhes inspira seu próprio furor. Estão entalados entre as armas que apontamos contra eles e as tremendas pulsões, os desejos de carnificina que sobem do fundo do coração e que eles sempre reconhecem, porque não é de início a violência deles, mas a nossa, voltada para trás, que se avoluma e os dilacera; e o primeiro movimento desses oprimidos é ocultar profundamente essa cólera inconfessável que a sua moral e a nossa reprovam e que, todavia, é o último reduto de sua humildade. Leiamos Fanon: descobriremos que, no tempo de sua impotência, a loucura sanguinária é o inconsciente coletivo dos colonizados.

Essa fúria contida, que não se extravasa, ainda à roda e destroça os próprios oprimidos. Para se livrarem dela, entrematam-se: as tribos batem-se umas contra as outras por não poderem atacar de frente o verdadeiro inimigo – e podemos contar com a política colonial para alimentar essas rivalidades; o irmão, empunhando a faca contra o irmão, acredita destruir, de uma vez por todas, a imagem detestada de seu aviltamento comum. Mas essas vítimas expiatórias não lhes aplacam a sede de sangue. Abstendo-se de marchar contras as metralhadoras, eles se tornarão nosso cúmplices: vão por sua própria autoridade acelerar os progressos dessa desumanização que lhes repugna. Sob o olhar divertido do colono, premunir-se-ão contra eles mesmos com barreiras sobrenaturais, oura reavivando velhos mitos terríveis, ora atando-se fortemente com ritos meticulosos; assim o obsesso livra-se de sua exigência profunda abandonando-se a manias que o solicitam a todo instante. Dançam, e isto os ocupa, aliviando-lhes os músculos dolorosamente contraídos. De resto, a dança exprime por mímica, secretamente, muitas vezes sem que o saibam, o Não que não podem dizer, os homicídios que não se atrevem a cometer. Em certas regiões valem-se deste último recurso: a possessão. O que era outrora o fato religioso em sua simplicidade, uma certa comunicação do fiel com o sagrado, se transforma numa arma contra o desespero e a humilhação; os zars, as loas, os Santos descem neles, governam-lhes a violência e a dissipam em transes até ao esgotamento. Ao mesmo tempo esses altos personagens os protegem; isso quer dizer que os colonizados se defendem da alienação colonial voltando-se para a alienação religiosa. No fim de contas, o único resultado é a acumulação de duas alienações, cada qual reforçada pela outra. Assim, em certas psicoses, cansados de serem insultados todos os dias, os alucinados imaginam de repente ouvir uma voz de anjo que nos cumprimenta; por outro lado, não cessam as graçolas, que dia em diante alternam com a saudação. É uma defesa e é o fim de sua aventura: a pessoa está dissociada, o doente se encaminha para a demência. Acrescentemos, para alguns infelizes rigorosamente selecionados, essa outra possessão de que já falei anteriormente: a cultura ocidental. No lugar deles, direis vós, eu preferia meus zars à Acrópole. Bom, compreendestes. Não completamente, porém, porque não estais no lugar deles. Ainda não. De outro modo, saberíeis que não podem escolher e acumulam. Dois mundos, isso faz duas possessões: dançam a noite inteira e de manhã apinham-se na igreja para ouvir missa; a fenda aumenta sem parar. Nosso inimigo trai seus irmãos e se faz nosso cúmplice; seus irmãos fazem outro tanto. O indigenato é uma neurose introduzida e mantida pelo colono entre os colonizadores com o consentimento deles.

Reclamar e renegar, a um só tempo, a condição humana: a contradição é explosiva. Efetivamente explode, vem o sabemos. E vivemos no tempo da deflagração: quer o aumento da natalidade amplie a miséria, quer os recém-chegados devam recear viver um pouco mais que morrer, a torrente da violência derruba todas as barreiras. Na Argélia e em Angola os europeus são massacrados onde aparecem. É o momento do bumerangue, o terceiro tempo da violência: ela se volta contra nós, atinge-nos e, como das outras vezes, não compreendemos que é a nossa. Os “liberais” ficam aparvalhados; reconhecem que não fomos bastante polidos com os indígenas, que teria sido mais justo e mais prudente conceder-lhes certos direitos na medida do possível; eles pretendiam apenas ser admitidos em massa e sem padrinhos nesse clube fechadíssimo que é a nossa espécie; e eis que esse desencadeamento bárbaro e louco não os poupa assim como não poupa os maus colonos. A Esquerda Metropolitana inquieta-se: conhece a verdadeira sorte dos indígenas, a opressão impiedosa de que são objeto, não lhes condena a revolta, sabendo que tudo fizemos para provoca-la. Mas, ainda assim pensa ela, há limites: esses guerrilheiros deveriam empenhar-se em mostrar certo cavalheirismo; seria o melhor meio de provar que são homens. Às vezes ela os censura: “Vocês estão se excedendo, não os apoiaremos mais”. Eles não dão bola: ela bem que pode pegar esse apoio e pendurar no pescoço. Desde que sua guerra começou, eles perceberam esta verdade rigorosa: nós todos valemos pelo que somos, todos nos aproveitamos deles, e eles não têm que provar nada, não dispensarão tratamento de favor a ninguém. Um dever único, um único objetivo: combater o colonialismo por todos os meio.s E os mais avisados dentre nós estariam, a rigor, prontos a admiti-lo, mas não podem deixar de ver nessa prova de força o recurso inteiramente desumano de que se serviram os sub-homens para se fazer outorgar uma carta de humanidade: vamos concedê-la o mais depressa possível e que eles tratem então, por métodos pacíficos, de a merecer. Nossa bela alma é racista.

Ela só terá a lucrar com a leitura de Fanon. Essa violência irreprimível, ele o demonstra cabalmente, não é uma tempestade absurda nem a ressurreição de instintos selvagens e nem mesmo um efeito do ressentimento; é o próprio homem que se recompõe. Sabíamos, creio eu, e esquecemos esta verdade: nenhuma suavidade apagará as marcas da violência: só a violência é que pode destruí-las. E o colonizado se cura da neurose colonial, passando o colono pelas armas. Quando sua raiva explode, ele reencontra sua transparência perdida e se conhece na medida mesma em que se faz; de longe consideramos a guerra como o triunfo da barbárie; mas ela procede por si mesma à emancipação progressiva do combatente, liquidando nele e fora dele, gradualmente, as trevas coloniais. Uma vez iniciada, é impiedosa. É necessário permanecer aterrorizado ou tornar-se terrível, quer dizer: abandonar-se às dissociações de uma vida falsificada ou conquistar a unidade natal. Quando os camponeses tocam nos fuzis, os velhos mitos empalidecem, e caem por terra, uma a uma, as interdições. A arma do combatente é a sua humanidade. Porque, no primeiro tempo da revolta, é preciso matar; abater um europeu é matar dois coelhos de uma só cajadada, é suprimir ao mesmo tempo um opressor e um oprimido: restam um homem morto e um homem livre; o sobrevivente, pela primeira vez, sente um solo nacional sob a planta dos pés. Nesse instante a Nação não se fasta dele; ele a encontra aonde for, onde estiver – nunca mais longe, ela se confunde com sua liberdade. Mas, após a primeira surpresa, o exército colonial reage: então é necessário unir-se ou deixar-se massacrar. As discórdias tribais atenuam-se, tendem a desaparecer em primeiro lugar porque põem em perigo a Revolução e, mais profundamente, porque não tinham outra função que desviar a violência para falsos inimigos. Quando continuam – como no Congo – é porque são alimentadas pelos agentes do colonialismo. A Nação põe-se em marcha; para cada irmão ela está em toda a parte onde outros irmãos combatem. Seu amor fraternal é o inverso de ódio que eles nos votam: irmãos pelo fato de que cada um deles matou ou poderia de um instante para outro ter matado. Fanom mostra a seis leitores os limites da “espontaneidade”, a necessidade e os perigos da “organização”. Mas, seja qual for a imensidade da tarefa, a cada desdobramento da empreitada a consciência revolucionária se aprofunda. Desvanecem-se os derradeiros complexos; não nos venham falar no “complexo de dependência” do soldado do Exército de Libertação Nacional.  Livre dos seus antolhos, o camponês toma conhecimento das suas necessidades: matavam-no mas ele tentava ignorá-las; descobre-as agora como exigências infinitas. Nessa violência popular – que dura cinco anos, oito anos como no caso dos argelinos – não se podem distinguir as necessidades militares, sociais e políticas. A guerra, suscitando o problema do comando e das responsabilidades, estabelece novas estruturas que serão as primeiras instituições da paz. Eis então o homem instaurado até as tradições novas, filhas futuras de um horrível presente, ei-lo legitimado por um direito que vai nascer, que nasce cada dia no fogo da batalha. Com o último colono morto, reembarcado ou assimilado, a espécie minoritária desaparece, cedendo lugar à fraternidade socialista. E isso ainda não é suficiente: esse combatente queima as etapas; cuidais que ele não arriscará a pele para se reencontrar ao nível do velho homem “metropolitano”. Vede sua paciência: é possível que ele sonhe algumas vezes com um novo Dien-Bien-Phu[2]; mas ficai certos de que não conta realmente com isto; é um mendigo lutando, em sua miséria, contra ricos poderosamente armados. Esperando as vitórias decisivas e muitas vezes sem nada esperar, atormenta seus adversários até ao enfado. Isso é inseparável de perdas tremendas; o exército colonial torna-se feroz: patrulhas, operações de limpeza, reagrupamentos, expedições punitivas; mulheres e crianças são massacradas. Sabe disto esse homem novo; ele começa sua vida pelo fim; considera-se um morto virtual. Será morto, e não somente aceita o risco mas tem a certeza de que será eliminado. Esse morto virtual perdeu a mulher e os filhos e viu tantas agonias que antes quer vencer que sobreviver; outros aproveitarão a vitória, não ele, que está cansado demais. Contudo, essa fadiga do coração está no princípio de uma coragem inacreditável. Encontramos nossa humanidade do lado de cá da morte e do desespero, ele a encontra do lado de lá dos suplícios e da morte. Fomos os semeadores de ventos; ele é a tempestade. Filho da violência, extrai dela a cada instante a sua humanidade; fomos homens à custa dele; ele se faz homem à nossa custa. Um outro homem, de melhor qualidade.

Aqui Fanon faz alto. Mostrou o caminho; porta-voz dos combatentes, reclamou a união, a unidade do continente africano contra todas as discórdias e todos os particularismos. Atingiu seu objetivo. Se quisesse descrever integralmente o fato histórico da descolonização, teria de falar e mós, o que certamente não é seu propósito. Mas o livro, depois que o fechamos, continua a acossar-nos, apesar de seu autor, porque sentimos o vigor dos povos em revolução e respondemos com a força. Há, portanto, um novo momento da violência e é para nós ,desta vez, que temos de nos voltar, porque ela nos está transformando na medida em que o falso indígena se transforma através dela. Cada qual poderá conduzir suas reflexões como quiser. Contanto, porém, que tenha isto em mente: na Europa de hoje, completamente aturdida com os golpes que lhe são desferidos na França, na Bélgica, na Inglaterra, a menor distração do pensamento é uma cumplicidade criminosa com o colonialismo. Este livro não precisava de prefácio, tanto menos porque não se dirige a nós. Contudo, eu lhe fiz um para levar a dialética até ao fim. É necessário que nós, europeus, nos descolonizemos, isto é, extirpemos, por meio de uma operação sangrenta, o colono que há em cada um de nós. Examinemo-nos, se tivermos coragem, e vejamos o que se passa conosco.

Encaremos primeiramente este inesperado: o strip-tease de nosso humanismo. Ei-lo inteiramente nu e não é nada belo: não era senão uma ideologia mentirosa, a requintada justificação da pilhagem; sua ternura e seu preciosismo caucionavam nossas agressões. Têm boa aparência os não-violentos: nem vítimas nem verdugos! Vamos! Se não sois vitima,s quando o governo que referendastes num plebiscito e quando o exército em que serviram vossos jovens irmãos levaram a cabo, sem hesitação nem remorso, um “genocídio”, sois indubitavelmente verdugos. E se escolheis ser vítimas, arriscar um ou dois dias de cadeia, escolheis simplesmente livrar-vos de uma embrulhada. Mas não vos livrareis; é mister permanecer nela até ao fim. De resto é necessário compreender isto: se a violência tivesse começado esta note, se nunca a exploração nem a opressão tivessem existido na face da terra, talvez a não-violência alardeada pudesse apaziguar a contenda. Mas se o próprio regime e até os vossos não-violentos pensamentos estão condicionados por uma opressão milenar, vossa passividade só serve para vos colocar do lado dos opressores.

Sabeis muito vem que somos exploradores. Sabeis que nos apoderamos do ouro e dos metais e, posteriormente, do petróleo dos “continentes novos” e que os trouxemos para as velhas metrópoles. Com excelentes resultados: palácios, catedrais, capitais industriais; e quando a crise ameaçava, estavam ali os mercados coloniais para a amortecer ou desviar. A Europa, empanturrada de riquezas, concedeu de jure a humanidade a todos os seus habitantes; entre nós, um homem significa um cúmplice, visto que todos nós lucramos com a exploração colonial. Este continente gordo e lívido acabou por dar no que Fanon chama com justeza o “narcisismo”. Cocteau irritava-se com Paris, “esta cidade que fala o tempo todo de si mesma”. E a Europa, que faz ela? E esse monstro supereuropeu, a América do Norte? Que tagarelice: liberdade, igualdade, fraternidade, amor, honra, pátria, que seu eu? Isso não nos impedia de fazermos discursos racistas, negro sujo, judeu sujo, etc. Bons espíritos, liberais e ternos – neocolonialistas, em suam – mostravam-se chocados com essa inconseqüência; erro ou má-fé: nada mais conseqüente, em nosso meio, que um humanismo racista, uma vez que o europeu só pode fazer-se homem fabricando escravos e monstros. Enquanto houve um indígena, essa impostura não foi desmascarada; encontrávamos no gênero humano uma abstrata postulação de universalidade que servia para encobrir práticas mais realistas: havia, do outro lado dos mares, uma raça de sub-homens que, graças a nós, em mil anos talvez, teria acesso à nossa condição. Em resumo, confundíamos o gênero com a elite. Hoje o indígena revela sua verdade; de repente, nosso clube tão fechado revela sua fraqueza: não passava de uma minoria. Há coisa pior: uma vez que somos os inimigos do gênero humano; a elite exibe sua verdadeira natureza: uma quadrilha de bandidos. Quereis um exemplo? Lembrai-vos destas palavras grandiloquentes: como é generosa a França! Generosos, nós? E Sétif? E esses oito anos de guerra feroz que custaram a vida da mais de um milhão de argelinos? Mas compreendamos que não nos censuram por termos traído não sei que missão, pela boa razão de que não tínhamos nenhuma. É a própria generosidade que está em causa; essa bela palavra sonora só tem um sentido: estatuto outorgado. Para os novos homens emancipados que nos enfrentam, ninguém tem o poder nem o privilégio de dar nada a ninguém. Cada qual tem todos os direitos. Sobre todos. E nossa espécie, quando um dia se fizer a si mesma, não se definirá como a soma dos habitantes do globo mas como a unidade infinita de suas reciprocidades. Paro aqui. Concluiríeis o trabalho sem dificuldade. Basta que olheis de frente, pela primeira e última vez, as nossas aristocráticas virtudes; elas rebentam, e como sobreviveriam à aristocracia de sub-homens que as engendrou? Há alguns anos, um comentarista burguês – e colonialista – só achou isto para defende o Ocidente: “Nós não somos anjos, mas pelo menos temos remorsos”. Que confissão! Outrora nosso continente tinha outros sustentáculos: o Partenon, Chartres, os Direitos do Homem, a suástica. Sabemos agora o que valem e não pretendemos mais salvar-nos do naufrágio senão pelo sentimento muito cristão de nossa culpabilidade. É o fim, como vedes: a Europa faz água por todos os lados. Que aconteceu então? Simplesmente isto: éramos os sujeitos da história e atualmente somos os objetos. Inverteu-se a correlação de forças, a descolonização está em curso; tudo o que nossos mercenários podem tentar é retardar-lhe a conclusão.

É preciso ainda que as velhas “Metrópoles” metam o bedelho, empenhando todas as suas forças numa batalha, de antemão, perdida. Essa velha brutalidade colonial, que fez a glória duvidosa dos Bugeaud[3],vamos reencontra-la, no fim da aventura, decuplicada, insuficiente. Envia-se o contingente para a Argélia, e ele lá se mantém há sete anos sem resultado. A violência mudou de sentido; vitoriosos, nós a exercíamos sem que ela parecesse alterar-nos: decompunha os outros e a nós, os homens, mas nosso humanismo continuava intacto; unidos pelo lucro, os metropolitanos batizavam com os nomes de fraternidade e amor a comunidade de seus crimes. Agora, a violência, por toda parte bloqueada, volta-se contra nós através de nosso soldados, interioriza-se e nos possui. Começa a involução: o colonizado se recompõe e nós, fanáticos e liberais, colonos e “metropolitanos”, nós nos decompomos. Já o furor e o medo estão nus; mostram-se a descoberto nas “pexotadas” de Argel. Onde estão agora os selvagens? Onde está a barbárie? Não falta nada, nem mesmo o tantã. As buzinas ritmam “Argélia Francesa” enquanto os europeus queimam vivos os muçulmanos. Não faz muito tempo, lembra Fanon, psiquiatras em Congresso afligiam-se com a criminalidade indígena. Esses homens se entrematam, diziam eles, isso não é normal; o córtex do argelino deve ser subdesenvolvido. Na África central outros estabeleceram que “o africano utiliza muito pouco seus lobos frontais”. Esses sábios achariam interessante prosseguir hoje sua investigação na Europa e particularmente entre os franceses. Porque nós também, de alguns anos para cá, devemos estar sofrendo de preguiça frontal: Os Patriotas assassinam um pouco os seus compatriotas; em caso de ausência, fazem ir pelos ares o porteiro e a casa. É apenas um início: a guerra civil está prevista para o outono ou a próxima primavera. Nossos lóbulos, porém, parecem em perfeito estado. Não será que, por não poder esmagar o indígena, a violência se concentra, se acumula dentro de nós e procura uma saída? A união do povo argelino produz a desunião do povo francês: em todo o território da ex-metrópole as tribos dançam e preparam-se para o combate. O terror deixou a África para instalar-se aqui, porque há os furiosos que com toda a simplicidade querem obrigar-nos a pagar com nosso sangue a vergonha de termos sido batidos pelo indígena e há também os outros, todos os outros, igualmente culpado – após Bizerta, após os linchamentos de setembro, quem foi à rua para dizer: chega? – mas bem mais sossegados: os liberais, os duros dos duros da Esquerda mole. Neles também a febre sobe. E o mau humor. Mas que cagaço! Mascaram a raiva sob mitos, sob ritos complicados; para retardar o ajuste de contas final e a hora da verdade, puseram à nossa frente um Grande Feiticeiro cuja unção é manter-nos a todo custo na escuridão. Inutilmente; proclamada por uns, recalcada pelos outros, a violência volteia: um dia explode em Metz, no outro em Bordéus; passou por aqui, passará por ali; é o jogo do anel. Por nossa vez, passo a passo, percorremos o caminho que leva ao indigenato. Mas para que nos tornássemos inteiramente indígenas seria necessário que nosso solo fosse ocupado pelos antigos colonizados e que morrêssemos de fome. Isto não acontecerá; não, é o colonialismo decaído que nos possui, é ele que nos cavalgará dentro em breve, decrépito e soberbo; aí estão nosso zar, nossa loa. E vós vos persuadireis, lendo o último capítulo de Fanon, que é preferível ser um indígena no pior momento da miséria que um ex-colono. Não é bom que um funcionário da polícia seja obrigado a torturar dez horas por dia; nessa marcha, seus nervos ficam abalados a menos que se proíba aos algozes, em seu próprio interesse, de faze horas suplementares. Quando se quer proteger, com o rigor das leis, o moral da Nação e do Exército, não é bom que esta desmoralize sistematicamente aquela. Nem que um país de tradição republicana confie centenas de milhares de seus jovens a oficiais golpistas. Não é bom, compatriotas, vós que conheceis todos os crimes cometidos em nosso nome, não é realmente bom que não digamos nada a ninguém, nem sequer a nossa alma, por temor de termos que nos julgar. A princípio ignoráveis, concedo, depois tivestes dúvidas, presentemente sabeis, mas continuais calados. Oito anos de silêncio, isto degrada. E em vão: hoje o sol ofuscante da tortura está no zênite, alumia o país inteiro; sob essa luz não há mais um riso que soe justo, um rosto que não tria nossos desgostos e cumplicidades. Basta hoje que dois franceses se encontrem para que haja um cadáver entre eles. E quando eu digo: um… A França, outrora, era o nome de um país; tomemos cuidado para que não seja em 1961 o nome de uma neurose.

Nós nos curaremos? Sim. A violência como a lança de Aquiles, pode cicatrizar as feridas que ela mesma fez. Hoje estamos agrilhoados, humilhados, doentes de medo, arruinados. Felizmente isso ainda não é suficiente para a aristocracia colonialista; ela não pode concluir sua missão retardadora na Argélia enquanto não tiver primeiro acabado de colonizar os franceses. Recuamos cada dia diante da luta, mas ficai certos de que não a evitaremos: os matadores precisam dela e vão precipitar-se sobre nós e moer-nos de pau. Assim terminará o tempo dos feiticeiros e dos fetiches: ou nos bateremos ou apodreceremos nas prisões. É o momento final da dialética: condenais esta guerra mas ainda não ousais declarar-vos solidários com os combatentes argelinos; eles vos obrigarão a lutar. Talvez então, levados à parede, desenfreareis enfim essa violência nova que velhos crimes requentados suscitam em vós. Mas isto, como dizem, é outra história. A do homem. Aproxima-se o tempo, estou certo disso, em que nós nos juntaremos àqueles que a fazem.

(Setembro de 1961)

SARTRE, Jean-Paul. Prefácio. In FANON, Franz. Os condenados da terra. 2 ed. Trad. J. L. de Melo. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1979, p. 3-21.


[1] Katanga é a província mais rica do Congo, devido aos seus depósitos de cobre, cobalto e urânio. Quando da independência do país, em junho de 1960, Katanga tentou ser um Estado autônomo. As tropas do governo moveram-se contra ela em agosto de 1960, mas foram barradas no estado de minas de diamante de Kasai e massacraram centenas de pessoas das tribos Baluba. Paralelamente, Joseph Mobutu deu um golpe militar em setembro de 1960, depondo o Primeiro Ministro Patrice Lumumba (1925-1961), que foi morto em circunstâncias misteriosas em fevereiro…

[2] Batalha de 5 meses ocorrida  entre 1953/1954 e que resultou em 7 mil franceses mortos e 11 mil deles, totalmente estropiados, sujeitados aos vietnamitas.

[3] Figura importante na conquista e colonização da Argélia.

Da violência colonial e a descolonização – Frantz

FANON – Trecho do Cap. I – Da violência – de Os condenados da terra

Libertação nacional, renascimento nacional, restituição da nação ao povo. Commonwealth, quaisquer que sejam as rubricas utilizadas ou as novas fórmulas introduzidas, a descolonização é sempre um fenômeno violento. Em qualquer nível que a estudemos – encontros interindividuais, denominações novas dos clubes desportivos, composição humana das cocktails-parties, da polícia, dos conselhos administrativos dos bancos nacionais ou privados – a descolonização é simplesmente a substituição de uma “espécie” de homens por outra “espécie” de homens. Sem transição, há substituição total, completa, absoluta. Sem dúvida poder-se-ia igualmente mostrar o aparecimento de uma nova nação, a instalação de um novo Estado, suas relações diplomáticas, sua orientação política, econômica. Mas nós preferimos falar precisamente desse tipo e tabula rasa que caracteriza de saída toda descolonização. Sua importância invulgar decorre do fato de que ela constitui, desde o primeiro dia, a reivindicação mínima do colonizado. Para dizer a verdade, a prova do êxito reside num panorama social transformado de alto a baixo. A extraordinária importância de tal transformação é ser ela querida, reclamada, exigida. A necessidade da transformação existe em estado bruto, impetuoso e coativo, na consciência e na vida dos homens e mulheres colonizados. Mas a eventualidade dessa mudança é igualmente vivida sob a forma de um futuro terrificante na consciência de uma outra “espécie” de homens e mulheres: os colonos.

A descolonização, que se propõe mudar a ordem do mundo, é, está visto, um programa de desordem absoluta. Mas não pode ser o resultado de uma operação mágica, de um abalo natural ou de um acordo amigável. A descolonização sabemo-lo, é um processo histórico, isto é, não poder ser compreendida, não encontra a sua inteligibilidade, não se torna transparente para si mesma senão na exata medida em que se faz discernível o movimento historicizante que lhe dá forma e conteúdo. A descolonização é o encontro de duas forças congenitamente antagônicas que extraem sua originalidade precisamente dessa espécie de substantificação que segrega e alimenta a situação colonial. Sua primeira confrontação se desenrolou sob o signo da violência, e sua coabitação – ou melhor, a exploração do colonizado pelo colono – foi levada a cabo com grande reforço de baionetas e canhões. O colono e o colonizado são velhos conhecidos. E, de fato, o colono tem razão quando diz que “os” conhece. É o colono que fez e continua a fazer o colonizado. O colono tira a sua verdade, isto é, os seus bens, do sistema colonial.

A descolonização jamais passa despercebida porque atinge o ser, modifica fundamentalmente o ser, transforma espectadores sobrecarregados de inessencialidade em atores privilegiados, colhidos de modo quase grandiosos pela roda-vida da história. Introduz no ser um ritmo próprio, transmitido por homens novos, uma nova linguagem, uma nova humanidade. A descolonização é, em verdade, criação de homens novos. Mas esta criação não recebe sua legitimidade de nenhum poder sobrenatural; a “coisa” colonizada se az no processo mesmo pelo qual se liberta.

Há portanto na descolonização a exigência de um reexame integral da situação colonial. Sua definição pode, se queremos descrevê-la com exatidão, estar contida na frase bem conhecida: “Os últimos serão os primeiros”. A descolonização é a verificação desta frase. É por isto que, no plano da descrição toda descolonização é um triunfo.

Exposta em sua nudez, a descolonização deixa entrever através de todos os seus poros, granadas incendiárias e facas ensangüentadas. Porque se os últimos devem ser os primeiros isto só pode ocorrer em conseqüência de um combate decisivo e mortal entre dois protagonistas. Esta vontade de fazer chegar os últimos à cabeça da fila, de os fazer subir com cadência (demasiado rápida, dizem alguns) os famosos escalões que definem uma sociedade organizada, só pode triunfar se se lançam na balança todos os meios, inclusive a violência, evidentemente.

Não se desorganiza uma sociedade, por mais primitiva que seja, com tal programa se não se está decidido desde o início, isto é, desde a formulação mesma deste programa, a destruir todos os obstáculos encontrados no caminho. O colonizado que resolve cumprir este programa, tornar-se o motor que o impulsiona, está preparado sempre para a violência. Desde seu nascimento percebe claramente que este mundo estreito, semeado de interdições, não pode ser reformulado senão pela violência absoluta.

O mundo colonial é um mundo dividido em compartimentos. Sem dúvida é supérfluo, no plano da descrição, lembrar a existência de cidades indígenas e cidades européias, de escolas para indígenas e escolas para europeus, como é supérfluo lembrar o apartheid na África do Sul. Entretanto, se penetrarmos na intimidade desta divisão, obteremos pelo menos o benefício de por em evidência algumas linhas de força que ela comporta. Este enfoque do mundo colonial, de seu arranjo, de sua configuração geográfica, vai permitir-nos delimitar as arestas a partir das quais se há de reorganizar a sociedade descolonizada.

O mundo colonizado é um mundo cindido em dois. A linha divisória, a fronteira, é indicada pelos quartéis e delegacias de polícia. Nas colônias o interlocutor legal e institui8cional do colonizado, o porta-voz do colono e do regime de opressão é o gendarme ou o soldado. Nas sociedades de tipo capitalista, o ensino religioso ou leigo, a formação de reflexos morais transmissíveis de pai a filho, a honestidade exemplar de operários condecorados ao cabo de cinqüenta anos de bons e leais serviços, o amor estimulado da harmonia e da prudência, formas estéticas do respeito pela ordem estabelecida, criam em torno do explorado uma atmosfera de submissão e inibição que torna consideravelmente mais leve a tarefa das forças da ordem. Nos países capitalistas, entre o explorado e o poder interpõe-se uma multidão de professores de moral, de conselheiros, de “desorientadores”. Nas regiões coloniais, ao contrário, o gendarme e o soldado, por sua presença imediata, por suas intervenções diretas e freqüentes mantêm contacto com o colonizado e o aconselham a coronhadas ou com explosões de napalm, a não se mexer. Vê-se que o intermediário não torna mais leve a opressão, não dissimula a dominação. Exibe-as, manifesta-as com a boa consciência das forças da ordem. O intermediário leva a violência à casa e ao cérebro do colonizado.

A zona habitada pelos colonizados não é complementar da zona habitada pelos colonos. Estas duas zonas se opõem mas não em função de uma unidade superior. Regidas por uma lógica puramente aristotélica, obedecem ao princípio da exclusão recíproca: não há conciliação possível, um dos termos é demais. A cidade do colono é uma cidade sólida, toda de pedra e ferro. É uma cidade iluminada, asfaltada, onde os caixões de lixo regurgitam de sobras desconhecidas, jamais vistas, nem mesmo sondadas. Os pões do colono nunca estão à mostra, salvo talvez no mar, mas nunca ninguém está bastante próximo deles. Pés protegidos por calçados fortes, enquanto que as ruas de sua cidade são limpas, lisas, sem buracos, sem seixos. A cidade do colono é uma cidade saciada, indolente, cujo ventre está permanentemente repleto de boas coisas. A cidade do colono é uma cidade de brancos, de estrangeiros.

A cidade do colonizado, ou pelo menos a cidade indígena, a cidade negra, a medina[1], a reserva, é um lugar mal afamado, povoado de homens mal afamados. Aí se nasce não importa onde, não importa como. Morre-se não importa onde, não importa de quê. É um mundo sem intervalos, onde os homens estão uns sobre os outros, as casas umas sobre as outras. A cidade do colonizado é uma cidade faminta, faminta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma cidade acocorada, uma cidade ajoelhada, uma cidade acuada. É uma cidade de negros, uma cidade de árabes. O olhar que o colonizado lança para a cidade do colono é um olhar de luxúria, um olhar de inveja. Sonhos de posse. Todas as modalidades de posse: sentar-se à mesa do colono, deitar-se no leito do colono, com a mulher deste, se possível. O colonizado é um invejosos. O colono sabe disto; surpreendendo-lhe o olhar, constata amargamente mas sempre alerta: “Eles querem tomar o nosso lugar”. É verdade, não há um colonizado que não sonhe pelo menos uma vez por dia em se instalar o lugar do colono.

Este mundo dividido em compartimentos, este mundo cindido em dois, é habitado por espécies diferentes. A originalidade do contexto colonial reside em que as realidades econômicas, as desigualdades, a enorme diferença dos modos de vida não logram nunca mascarar as realidades econômicas, as desigualdades, a enorme diferença dos modos de vida não logram nunca mascarar as realidades humanas. Quando se observa em sua imediatidade o contexto colonial, verifica-se que o que retalha o mundo é antes de mais nada o fato de  pertencer ou não a tal espécie, a tal raça. Nas colônias a infra-estrutura econômica é igualmente uma superestrutura. A causa é conseqüência: o indivíduo é rico porque é branco, é branco porque é rico. É pior isso que as análises marxistas devem ser sempre ligeiramente distendidas cada vez que abordamos o problema colonial. Não há nem mesmo conceito de sociedade pré-capitalista, bem estudado por Marx, que não exigisse ser repensado aqui. O servo é de essência diferente da do cavaleiro, mas uma referência ao direito divino é necessária para legitimar essa diferença estatutária. Nas colônias o estrangeiro vindo de qualquer parte se impôs com o auxílio dos seus canhões e das suas máquinas. A despeito do sucesso da domesticação, malgrado a usurpação, o colono continua sendo um estrangeiro. Não são as fábricas nem as propriedades nem a conto no banco que caracterizam em primeiro lugar a “classe dirigente”. A espécie dirigente é antes de tudo a que vem de fora, a que não se parece com os autóctones, “os outros”.

FANON, Franz. Os condenados da terra. 2 ed. Trad. J. L. de Melo. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1979, p. 25-30.


[1] Cidade árabe ao lado da qual se erguem edificações para europeus