Sobre Cláudias e Adelaides: se “uma piada é só uma piada” porque não rimos do tombo da própria mãe?

Sobre Cláudias e Adelaides: se “uma piada é só uma piada” porque não rimos do tombo da própria mãe? [1]

Por: Deivison Mendes Faustino (Deivison Nkosi)[1]

 

 

“Muito engraçado a bandida sendo arrastada. Lembrei do camarada fazendo isso com um cachorro esses tempos atras…kkkkkkkkkkkkkkkkkkk”[2].

 

“Atenção, não é a intenção do site formar aqui atitudes preconceituosas e nem ser preconceituoso. São apenas piadas, assim como existe sobre loiras, machismo, portugueses, japoneses, gordos, gagos, bêbados, entre outros temas.[3]

 

 

No dia 16 de março, um caso desastroso toma conta dos noticiários: policiais militares sobem o morro para mais uma incursão bélica na Região de Madureira, na cidade do Rio de Janeiro, e durante a incursão atingem gravemente a uma mulher e dois jovens. Ao perceber se tratar de  uma mulher de meia idade – perfil tipológico de difícil enquadramento nos estereótipos reservados aos jovens vitimados por policiais nos morros – os policiais pegam a mulher ferida e jogam no porta-malas da viatura policial. A pesar do protesto de familiares e vizinhos, seguem em alta velocidade pelas ruas de Madureira num caminho que segundo os moradores da Região não é o mais rápido para o Pronto-Socorro… durante o trajeto, como ocorre num filme antigo de comédia, o porta-malas da viatura se abre deixando a vítima cair no asfalto como um saco de batatas, e como se não bastasse, a sua roupa se enrosca no para-choques traseiro da viatura, enquanto a viatura policial a arrastou por 350 metros, dilacerando sua carne no asfalto.

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Seria cômico se não fosse um ser humano ou alguma forma de vida que não merecesse o nosso sentimento de alteridade: uma outra coisa ontologicamente distinta de nós o suficiente para não despertar em nenhum momento a pergunta: e se fosse a minha mãe? Entretanto, ao assistir ao vídeo em um site de notícias, um internauta –  provavelmente sem saber de quem se tratava, mas de porte das informações recorrentemente veiculadas a cerca das incursões policiais nos morros cariocas – escreve: “Muito engraçado a bandida sendo arrastada. Lembrei do camarada fazendo isso com um cachorro esses tempos atras…kkkkkkkkkkkkkkkkkkk” (Sic). Num contexto completamente distinto,  vemos uma frase escrita logo abaixo da barra de menu de um site de piadas avisando que as anedotas contidas na página “piada de preto” não tem intensão de formar “atitudes preconceituosas e nem ser preconceituoso”, pois se trata apenas de piadas “assim como existe sobre loiras, machismo, portugueses, japoneses, gordos, gagos, bêbados, entre outros temas”.

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A reflexão sobre esses dois comentários nos levantam as seguintes perguntas: Existe riso inocente? Pode um simples riso recriminado com o mesmo status político de um tapa na cara ou um tiro? Supondo que sim, que o riso assuma dimensões políticas, a busca por uma convivência solidária entre os seres humanos justificaria a sua interdição? Existem temas sob o qual não se deve rir? Ou o riso tem licença poética para ignorar ou transgredir (auto)censuras impostas pelas diversas coerções sócio individuais que se colocam a frente daquilo que realmente desejamos, sentimos e pensamos? Não seria forçar a barra, trazer a reflexão sobre o riso para o campo político, atribuindo-lhe causas e consequências sociais?

Em um texto intitulado Ensaio sobre a significação do cômico, Henri Bergson (2004) afirma que o riso é sempre um dado social. Independente de suas reações fisiológicas,  há que se entender que é apenas em sociedade que ele surge e é possível. O riso para ele assume a dimensão de uma sanção social, na medida em que apenas o que é considerado um desvio ou uma coisa negativa  pode ser ridicularizado. O cômico é sempre o que foge a ordem e isso significa que o riso é uma punição social que visa, em ultima instância reestabelecer a ordem social.

Pressupõe-se neste sentido que a pessoa alvo do riso ficará envergonhada e voltará à ordem normal. Não é a mudança brusca da ordem que causa o riso, mas o involuntário da mudança: tropeçar, por exemplo, é não conseguir acompanhar a fluidez da vida pela rigidez do seu corpo, como o tombo de alguém pulou do ônibus em movimento.  A rigidez é socialmente suspeita e a  deformidade (do corpo ou da mente), risível por que deforma a norma, desviando a nossa atenção para além daquilo que conhecemos. Rimos sempre de uma coisa que se parece humana, ou de uma pessoa que aparente ser outra coisa que não humana, e é neste aspecto a questão racial se torna relevante à nossa análise, pois nem sempre uma pessoa negra é considerada uma pessoa. Para o padrão eurocêntrico de ser humano, o Branco (europeu, ocidental) é a única expressão possível de homem e mulher e o Negro, por vezes é representado como se fosse uma pessoa branca, comicamente pintada de negra.

Em  1579 o médico francês Laurent Joubert vai escrever um tratado sobre o riso, sustentando essa sua dimensão eminentemente política (ALBERTI, 1995). Segundo ele, nós rimos antes de qualquer coisa, daquilo que é feio e impróprio e não merece compaixão. O ridículo é aquele que se torna alvo do riso dos outros. Para Elias (1993), o “processo civilizador” característico da modernidade destaca-se por sua busca de controle do corpo e ridicularização daqueles sujeitos que “não conseguiam se controlar”. O indivíduo que não se controlava ou aparenta estar fora dos critérios de controle socialmente descritos, será alvo de uma distinção hierarquizada que o desvaloriza diante dos outros, ridicularizando-se.

O ato de ridicularizar alguém, seja pelas normas de etiquetas ou por outros atributos socialmente desvalorizados, vai assumindo na modernidade a mesma importância que os embates físicos e podiam ter como consequência a exclusão social da pessoa alvo do riso. Aquele que fosse ridicularizado poderia perder suas formas de sustento.  Na França pré-revolução, por exemplo, o pecado não tem nenhum valor, mas a ridicularização poderia levar um indivíduo à morte.

Assim, a dimensão política do riso é destacada por autores diversos, como é o caso de George Minois (2003) quando nos explica em seu estudo sobre os Bobos da Corte que o seu papel era expressar verdades que ferem.  O Bobo tinha autorização social para falar de forma risível aquilo que ninguém mais tinha coragem de dizer, alertando a corte de seus limites e equívocos, conformando-se numa figura bastante importante para a manutenção da ordem. A piada, ou outras formas de se fazer rir, aparecem aqui como uma forma de falar a verdade, ou pelo menos, de se falar o que se realmente pensa, e não pode ser dito.

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É sempre de alguém ou de alguma coisa que rimos, e neste sentido, a piada aparece como um entre outros meios de se fazer rir.  Em sua ultima peça, intitulada Doente imaginário (2003), Moliére descreve uma estória que revela a perspectiva da corte em relação à (já concorrente) burguesia ascendente. Na peça, o autor conta a história da filha de um rico e avarento burguês, que se apaixona a contragosto de seu pai por um rapaz, enquanto o pai deseja que ela se case com um médico, a fim de ganhar consultas gratuitas. Dessa forma o autor ridicularizava os burgueses que queriam adquirir hábitos corteses, mostrando como os médicos vão se aproveitar de sua inocência para ganhar poder. O riso assume aqui a dimensão do confronto entre a nobreza ameaçada, onde se posicionava Moliére, e a burguesia ascendente, colocando-a como expressão do ridículo.

No mesmo sentido, mas por outros caminhos, Baktin (1987) afirmará que o riso faz parte de uma visão de mundo. Em sua pesquisa ele mostra como que o riso pode representar a rebelião contra o tom sério e solene das instituições oficiais e os seus aparatos de repressão bélica e ideológica.  Assim, analisa o carnaval medieval como momento em que a ordem se inverte. O Carnaval é visto como uma festa dos loucos; um momento profano em que se pode inclusive criticar o sagrado, ou pelo menos, aquilo que se impõe oficialmente como sagrado.  Ele fala do quanto essas festas populares são uma critica a essa oficialidade. Em consonância com essa reflexão o professor Jorge Leite nos relembra em suas aulas que não foi a toa que durante a ditadura no Brasil, a Pornochanchada foi o gênero estético mais fértil. Enquanto o Estado  a partir dos militares e dos grandes empresários dizia: o Brasil é feito por nós a pornochanchada devolvia toda uma produção que dizia implícita ou explicitamente o Brasil é feito pornôs, romantizando as pessoas  que não queriam trabalhar e preferiam ficar a cortejando garotas para o sexo.

O ponto onde quero chegar é que o riso exprimido por pessoas, ou indivíduos, que estão sempre e inescapavelmente relacionados ao seu tempo, cultura, história e dilemas políticos de toda ordem e em todas as suas dimensões de poder.  Se a política é a guerra empreendida por outros meios, como diria o filósofo francês Michael Foucault, qual é o lugar do riso em sua dimensão política, em uma sociedade marcada pela negação radical da humanidade daqueles que se  consideram “outros”?  Ao me deparar com o comentário alocado no inicio deste texto sou obrigado a questionar:  quem é passível de ser ridicularizado e o que essa ridicularização tem em comum com a recusa de enxergar no “Outro” (ou pelo menos em alguns tipos de outros) um humano como “eu”.

 

“Ninguém ri do tombo da própria mãe”

O provérbio africano que nomeia esse capítulo é aqui retomado para introduzir o seguinte questionamento: até que ponto o inocente ato de rir de (ou fazer) uma piada racista sustenta ou expressa uma negação racializada da humanidade daqueles que são objeto do riso?   Não pretendo com isso dizer que o riso é sempre repudiável e muito menos que existam temas que mereçam o status de tabu (acima da piada do bem e do mal), mas refletir como muitas vezes o humor se coloca a serviço de um conjunto de ações voltadas à negação da humanidade.

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O filme Bamboozled, de Spike Lee, oferece um cenário inquietante para pensarmos essas questões: Em um mundo nada diferente do nosso, produtores televisivos discutem como alavancar a audiência de sua programação, até que um dos profissionais – não por acaso um homem negro – tem a ideia de recuperar os já socialmente repudiados personagens Black Face[4], de forma que fosse possível reconfigurar o seu teor originalmente racista e ao mesmo tempo, dialogar com o imaginário estadunidense a cerca dos estereótipos relacionados ao Negro. Entretanto, dado às pressões econômicas pela audiência, os jogos de poder a ela relacionados e os caminhos escolhidos pelos indivíduos envolvidos, vê-se o surgimento de um programa que retoma e atualiza os preconceitos raciais mais profundos naquele país, recuperando e atualizando as características essencializantes atribuídas aos negros – muito corpo e pouco cérebro –  para leva-las ao limite em uma expressão caricaturadamente risível.

O nome do filme[5] se torna inteligível quando os personagens negros percebem que suas criações estéticas  têm o poder de voltar-se contra eles próprios, na medida em que o riso provocado, em sua dimensão eminentemente política, não é algo que se faz com eles, mas contra eles, legitimando a sua própria negação. A pergunta que proponho lançar é a seguinte: por que diabos, o negro precisa ser considerado ridículo? Se ridículo é sempre a mãe dos “Outros”, e nunca a “nossa”, como se produz esse processo de outrificação do Negro, a ponto de os não-negros (e muitas vezes os negros socializados nessa forma de ver o mundo) não se ofenderem, ou pior, não visualizarem nenhuma ofensa nesse processo de outrificação? Ou se quisermos colocar a pergunta de outra forma, até que ponto a piada de negro não esconderia, e de certa forma legitimaria, a mesma indiferença que autoriza a rir de uma mãe sendo arrastada viva[6] por uma viatura policial em plena via pública?

Frantz Fanon, importante pensador martinicano do racismo, oferece um importante aporte para pensar essa questão. Para ele a sociedade racista nos relega ao seguinte esquema de interpretação: ser Negro é estar distante do Branco e, portanto, distante de toda concepção de humanidade. O extranhamento em relação à humanidade do Negro surge exatamente quando o Branco não o reconhece como igual, mas como Outro:

“Preto sujo!” Ou simplesmente: “Olhe, um preto!”

Cheguei ao mundo pretendendo descobrir um sentido nas coisas, minha alma cheia do desejo de estar na origem do mundo, e eis que me descubro objeto em meio a outros objetos. Enclausurado nesta objetividade esmagadora, implorei ao outro. Seu olhar libertador, percorrendo meu corpo subitamente livre de asperezas, me devolveu uma leveza que eu pensava perdida e, extraindo-me do mundo, me entregou ao mundo. Mas, no novo mundo, logo me choquei com a outra vertente, e o outro, através de gestos, atitudes, olhares, fixou-me como se fixa uma solução com um estabilizador. Fiquei furioso, exigi explicações… Não adiantou nada. Explodi. Aqui estão os farelos reunidos por um outro eu. (FANON, 2008, p.103. Grifos nossos.)

“É o Branco que cria o Negro” (FANON, 1968) na medida em que desconsidera sua humanidade, tornando-o “objeto em meio a outros objetos”, aprisionando-o naqueles referenciais fetichizados que deixou de reconhecer em si. Espera-se assim que o Negro (o Outro) seja sempre emotivo, sensual, viril, lúdico, colorido, infantil, banal; o mais próximo possível da natureza (animal) e distante da civilização.  Estas imagens criadas no seio da situação colonial tinham a função de desarticular os sistemas de referência do povo colonizado para que suas “linhas de força” não atuassem contra a imposição de uma forma específica de relação de produção, útil a determinadas fases de acumulação capitalista.

No universo cômico, espera-se que o negro seja sempre um Mussum alcólotra e inocente, um Tião Macalé desdentado e risível[7], porque aqui, se há alguma valorização do “outro”, ela se faz pela mistificação fantasmagórica de seus atributos, de forma a confirmar, mesmo que pela valorização reificada a superioridade do branco. O negro só pode ser sublime na medida em que se revele o mais grotesco possível diante de uma razão, beleza e  verdade brancas. De sublime na verdade só resta o prazer do riso que a sua imagem jocosa proporciona ao  espectador informado pelos estereótipos que ele personifica e reforça. Se o grotesco é aquilo está confinado às grutas quaresmáticas do processo civilizador, resta ao Negro esperar o carnaval para surgir em público e lembrar ao ocidente o seu eu negado, antes que a quarta-feira de cinzas o relegue novamente às sobras da humanidade ocidental.

O Negro é suspeito nato até que prove o contrário, pois espia para dentro de grutas imaginárias aquilo que o ocidente trás de mais selvagem, sádico e desumano.  É a figura que permite à sociedade carioca, algumas poucas décadas depois da ditatura, dormir sossegada com a notícia de ocupação das ruas (das favelas) por tanques de guerra militares. É a figura animalizada que reforça o quão humano, belo, bom e verdadeiro é todo aquele que se afasta deste referencial macaqueado. O Negro é o outro e, portanto, o riso do tombo de sua mãe, ou dos seus filhos  não exige grandes conflitos éticos: não se trata de um ser humano como eu, mas um Outro, radicalmente oposto ao Nós, “cidadãos de bem”.

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A política é a guerra feita por outros meios, e neste sentido, sou obrigado a concluir que o diretor do Zorra Total e o policial que arrastou Cláudia Silva Ferreira pelo asfalto de Madureira têm muito em comum porque ambos, embora por meios distintos anulam, cada um com sua arma, a possibilidade efetiva de nos vermos e fazermos uns nos outros como humanos. A causa-morte de Cláudia deve ser compreendida para além do asfalto que lhe consumiu a carne em frente de câmeras portáteis; deve ser compreendida para além dos tiros que interromperam violentamente o seu trajeto de casa à padaria, para ser explicada em cada Mussum, Adelaide, Tião Macalé e tantas outras representações animalizadas ou coisificadoras que autorizaram, direta ou indiretamente, um tratamento aos moradores da favela que despreze qualquer sentimento de alteridade.

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Morro com Claudia em sua agonia de dor contra o asfalto cinza do Rio de Janeiro… Morro, mas de uma morte que não se inicia com o tiro perpetrado pelo policial, mas a cada piada desferida quase sempre contra a humanidade do “Outro”, seja ele(a) lá quem for.

 

Referências

Alberti, Verena. “O riso, as paixões e as faculdades da alma”. Textos de História. Revista da Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília. Brasília, UnB, v.3, n.1, 1995, p.5-25.

BAKHTIN, Mikhail, A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, São Paulo, Hucitec/ UNB, 1987

BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. São Paulo: Martins  Fontes, 2004.

ELIAS, N. O processo civilizador: Formação do Estado e Civilização. Rio de Janeiro:  Jorge Zahar Ed., 1993, v. II.

 FANON. F. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Editora Fator, 1983.

_______. Sociologia dúne révolution. «L’an V de la Revólution algerienne ». François Maspero. París. 1968 (petite collection maspero)

MINOIS, Georges, O riso sensato do bobo da corte in História do riso e do  escárnio, São Paulo, Unesp, 2003

Molière. Jean-Baptiste Pocquelin Le Malade maginaire. Paris: Bordas. 2003.

 

Filmes utilizados: 

Bamboozled. Diretor: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee  Ano: 2000. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=VnCkHKlwFnA. Acesso em 23 de fevereiro de 2014.

O riso dos outros. Diretor: Pedro Arantez. Ano 200. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=uVyKY_qgd54. Acesso em 20 de fevereiro de 2014.

 

 

[1] Grupo KILOMBAGEM.

[2] Comentários escritos por um leitor do jornal G1.Globo a respeito das imagens de auxiliar de limpeza Cláudia Silva Ferreira sendo arrastada pelo asfalto por uma viatura policial no Rio de Janeiro. http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/03/arrastada-por-carro-da-pm-do-rio-foi-morta-por-tiro-diz-atestado.html. Acesso em 17 de março de 2013.

[3] Anuncio de destaque na página PIADA DE PRETO, de um site de piadas “temáticas” escolhidas por tópicos: http://selecaodepiadas.webnode.com.br/piadas-de-pretos/.

[4] A Black Face é uma performance teatral estadunidense que se apropriava dos estereótipos racistas para representar os negros. Ver nesse sentido: http://en.wikipedia.org/wiki/Blackface.

[5] A palavra bamboozled pode ser traduzida como:  “AHH! PEGADINHA DO MALANDRO!!!!”,

[6] O caso em questão gerou muita polêmica e em resposta, foi divulgado um atestado de óbito aferindo os tiros anteriormente recebidos como verdadeira causa da morte de Claudia. O laudo no entanto, não comenta, e nem poderia ser diferente diante da repercussão negativa que o caso assumiu, se o fato de a mulher ter sido arrastada antecipou sua morte por ferimento a bala ou se ela já estava morta no momento em que o seu corpo rola dentro do porta-malas da viatura em movimento em direção ao asfalto. Por um caminho ou por outro, “a trapalhada” policial não resultou apenas na interrupção de uma vida, mas na anulação de sua dignidade.

[7] Referencia a dois personagens bastantes presentes no imaginário social brasileiro: o primeiro interpretado pelo ator de Antônio Carlos Bernardes Gomes (1941-1994) representa o Musum, uma das personagens do programa Os Trapalhões, veiculado pela Rede Globo. E o segundo, o Tião Macalé, interpretado pelo ator Augusto Temístocles da Silva Costa (1926-1993).

[1] Texto apresentado como trabalho de conclusão de curso para a disciplina Sociologia do Riso, com o Prof. Dr. Jorge Leite – UFSCAR 2014

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A Comunidade Awramba e os quatro pilares da igualdade (gênero, o direito das crianças, a ajuda aos desafortunados, e a honestidade)

Entrevista com o líder Ethiope Zumra Nuru:

Título original: Zumra Nuru: His Awramba Community and His Quest for Utopia. Retirado de: http://www.ezega.com/News/NewsDetails.aspx?Page=news&NewsID=1472

Zumra Nuru, o fundador e co-presidente do Awramba Comunidade

Addis Abeba, Etiópia, 04 de maio de 2009 (Ezega.com) – Zumra Nuru nunca teve a chance de ir à escola. Ele não consegue ler ou escrever. No entanto, como uma criança, ele era um garoto muito curioso. Quando ele tinha 2 anos de idade, ele questionou a mãe sobre religião. Um dia, comeu um pedaço de carne oferecido por seus vizinhos cristãos. Mas de acordo com a tradição, este feito ofendeu sua família muçulmana, incluindo sua mãe. Sua mãe pegou a carne dele e jogou fora. Ele estava muito triste e perguntou a sua mãe, “porque eu não posso ter essa carne?”

Sua mãe respondeu: “ela pertence ao povo cristão”. Zumra perguntou “O que é cristão, eles não são seres humanos?” Sua mãe respondeu: “Sim, eles são”. Zumra seguido de “Não somos seres humanos também?” E sua mãe respondeu: “Sim, nós somos seres humanos, também. “” Então, por que não podemos ter a mesma carne? “Zumra perguntou. Sua mãe não podia responder.

Quando ele se virou de 4 anos de idade, ele começou a questionar sobre o comportamento dos seres humanos. Ele observou a injustiça sobre a desigualdade de gênero, maus-tratos da exploração, os idosos no trabalho, punição cruel das crianças, e relações entre as pessoas desonestas.

Quando ele trouxe várias questões que o incomodavam dentro de casa, seus pais e parentes o considerou pessoa mentalmente doente. Quando ele completou 13 anos ele foi expulso de sua casa de família. Na idade de 20 anos, ele decidiu viajar para lugares para pregar sua ideologia. Em 1980 (CE), fundou a associação membro então com 19 anos chamado Awramba Comunidade. Naquela época, esse grupo foi banido pela sociedade e seus seguidores considerados radicais. Em algum momento, eles foram forçados a fugir de suas casas, suas terras confisicated, e seu líder, Numra Nuru, preso por vários meses.

Awramba foi fundada em Fogera Woreda na Zona Sul Gonder do Estado Regional Amhara. Atualmente, a comunidade tem 403 membros em 109 famílias, que vivem mais de 17 hectares de terra. A Comunidade Awramba tem suas próprias regras e regulamentos. Formulado por Zumra, a comunidade tem quatro pilares de regras para a sua sociedade. Trata-se de equidade de gênero, o direito das crianças, o princípio de ajudar os menos afortunados, velhos e doentes, e o princípio da honestidade.

A Comunidade Awramba não segue nenhuma religião, e eles acreditam na honestidade e amor por todos os seres humanos – esta é a sua religião. Crianças e mulheres são respeitados e iguais para adultos do sexo masculino. Eles têm casa-tutores para crianças de 3-5 anos e uma biblioteca (fora da cabana de barro) e poucas salas de aula. Quando Zumra é questionado sobre afiliações étnicas ou religiosas, ele simplesmente diz “nós pertencemos a cada grupo étnico, não um ou outro, afinal, nós somos criaturas de um só Deus (seja qual for o nome dele), e só temos um pai. Como podemos escolher uma, enquanto nós podemos ter tudo? ”

Eden Habtamu de Ezega Notícias reuniu-se com Zumra Nuru, 62, e sua esposa Enani Kibret, 35 anos, e entrevistou-os em um hotel em Adis Abeba. Zumra estava em visita a Adis Abeba depois de ter sido convidado por estudantes Universidade de Adis Abeba para compartilhar sua experiência.

Ezega.com: Estou muito satisfeito em tê-lo para a minha entrevista, você poderia por favor apresente-se, onde você nasceu e onde você crescer?

Zumra: Eu sou Zumra Nuru, o fundador e co-presidente da Comunidade Awramba. Eu nasci em Tsimada Wogeda. Eu cresci em Esti Woreda em Gonder.

Ezega.com: O que te levou a chegar a tais ideias surpreendentes e formar essa comunidade exemplar?

Zumra: eu vim com essa ideia de coisas que eu já vi na minha família. Meus pais eram agricultores. Ambos passaram o dia todo na fazenda, mas quando voltou para casa que era hora de meu pai para descansar, mas nunca para minha mãe. Depois que ela tem sido através do mesmo dia cansativo com o meu pai, ela tinha que fazer tudo em casa. Ela era esperada para cozinhar, limpar a casa, e nós, os filhos, lavar o pé do meu pai, servir a refeição tradicional. No topo de que, quando minha mãe não podia cuidar da casa na hora, meu pai abusado, insultado e, por vezes, prejudicado o seu. Eu só queria saber por que isso tinha que acontecer com a minha mãe como se ela tivesse força extra ou algo assim. Mas eu percebi mais tarde que isso não foi um evento isolado que só aconteceu em nossa casa, e isso estava acontecendo em todas as famílias. Na época, eu acreditei (como eu faço agora) que o homem como pai e as mulheres como uma mãe deve ser envolvida em funções de acordo com suas capacidades e ambos devem ser respeitados e tratados igualmente.

A segunda coisa que notei foi que o direito das crianças não é respeitado em nossa sociedade como deveria ser. Muitas vezes, as crianças estão envolvidas em tarefas que não levam em conta as suas capacidades para fazer as coisas.

A terceira questão que eu tenho é, muitas vezes, os menos afortunados e os velhos não tem ninguém para cuidar deles. Podem até não ter nada para comer e um lugar para morar. Mas os mais jovens e mais forte está tendo o bom tempo e não tem tempo para cuidar dos menos afortunados da nossa sociedade.

Quarto, eu vi as pessoas sofrendo, matar e roubar um do outro. Eu sabia que nós, como as pessoas estávamos fazendo algo para os outros que odiaríamos se acontecesse conosco. Eu ficava perguntando por quê? Como é que diferem dos animais, se não pensar e agir humanamente? Quando eu perguntei aos meus pais a essas perguntas, meus pais achavam que eu era doente mental. Mas eu não conseguia obter respostas para minhas perguntas, nem prova de que eu estava realmente doente mental.

Ezega.com: Como você teve a coragem de ensinar a seus princípios e ter sucesso contra todas as probabilidades?

Zumra: Eu não posso responder essas coisas. Não é completamente coisa um humano. Eu não aprendi essas questões de ninguém. Comecei a fazer perguntas desde que eu tinha quatro anos. É um dom de Deus – na verdade uma responsabilidade. Já passei por um momento muito difícil, então você pode dizer que é mais um fardo.

Ezega.com: As pessoas estão ouvindo você agora e você tem a sua comunidade. Você está feliz que você é passado o tempo em que ninguém estava escutando, e você foi considerado doente mental?

Zumra: eu vou dizer é um pouco melhor agora do que era antes. Pelo menos as pessoas estão ouvindo. Mas o que importa para mim é quando as pessoas não só ouvir, mas também colocar os nossos ensinamentos em prática. Então eu vou ser muito feliz.

Ezega.com: Você acredita que ele é prático e realista que você pode persuadir a sociedade a seguir tais regras?

Zumra: Isso é exatamente o que me deixa doente. Eu não sabia como dizer o que estou pensando e sentindo. É um fardo para mim. Às vezes eu desejo que eu poderia fugir de minha consciência, mas eu simplesmente não posso. As pessoas que eu amo muito nem mesmo me entender. Eu costumo fugir por um mês ou vinte dias, apenas para encontrar alguma ruptura, mas estarei de volta para casa e começar a ensinar embora eles me consideravam uma pessoa louca.

Sou grato pela aceitação que recebemos de todos nos últimos 5-6 anos. Tenho tido problemas com freqüência e minha comunidade também tem sido muitas vezes em apuros. Temos vindo a migrar de um lugar para outro só porque as pessoas não entenderam o que estávamos tentando fazer. Sou grato, pelo menos, que somos reconhecidos como uma comunidade inofensivo agora.

Ezega.com: Qual foi o seu principal objetivo quando formou a “Awramaba” comunidade?

Zumra: Geralmente, além de meus permeáveis quatro pontos, eu queria alcançar as pessoas alfabetizadas em toda parte assim que os meus pensamentos alcançar a maior população. Eu queria paz e amor entre todos os seres humanos. Acredito que pouco a pouco as pessoas estão ouvindo o que estamos dizendo. Temos muitos visitantes da Etiópia e de todo o mundo. Eu só queria tirar o que estava me incomodando há muito tempo. Acho que fiz um pouco para chegar ao coração humano, mas ainda há muito para você, a próxima geração.

Ezega.com: Deixe-me vir até você, Enani. Zumra parece um pouco cansado com o discurso que tem vindo a dar em lugares diferentes. Eu entendo que “Awramba” tem treze comissões que ajudam a comunidade a sua função corretamente. Será que você menciona alguns deles e suas funções e responsabilidades?

Enani: Ok, temos comitê de desenvolvimento que consulta a comunidade para ser mais produtivo e eficaz. Comitê de recepção é responsável por acolher e confortar os nossos hóspedes e visitantes. Comissão de queixa tem o dever de ouvir as queixas e encontrar soluções, mesmo que seja raro ver reclamações em nossa comunidade. Detectores de problemas, Higiene, Segurança, legisladores, apoiantes de Presbíteros, nutre Maternidade, e facilitadores do trabalho de campo são algumas das comissões.

Ezega.com: Como muitos dos membros da comunidade Awramba passou a ter ensino superior? Eles estão contribuindo com alguma coisa de volta para sua comunidade?

Enani: Como você sabe nosso número é muito pequeno. Cinco estudantes formados em universidades e, atualmente, 11 estão estudando em diferentes campos. Alguns deles estão nos assistindo e os outros estão trabalhando por conta própria.

Ezega.com: Em relação às facilidades na sua comunidade, o que lhe falta a mais e, portanto, precisam da ajuda de fora?

Enani: Precisamos de uma moderna máquina de tecelagem que pode funcionar facilmente e é mais produtivo. O que estamos usando é muito laborous e menos produtivos.

Ezega.com: Ouvi dizer que você tem dezessete hectares de terra para 403 pessoas; é suficiente para a sua comunidade para viver e cultivar em?

Enani: Não, não é suficiente. Abordamos o governo para nos dar mais terra para que possamos ser mais produtivo. Podemos até exportar nossos produtos no exterior e melhorar a nossa vida no processo. Todos em nossa comunidade está ansiosa para trabalhar em qualquer campo. Nós apenas deseja ter mais terra e algumas máquinas modernas.

Ezega.com: Finalmente, o conselho que você deseja dar aos seus concidadãos?

Enani: Eu acredito que o maior tesouro que temos neste mundo é nós, seres humanos. Independentemente de tudo o mais, eu gostaria que entender que somos da mesma origem, devemos amar e respeitar um ao outro. Este é o meu maior desejo e conselhos para o meu companheiro etíopes.

Ezega.com: Agradeço-lhe, de fato. Tenha uma boa noite.

Enani: Não se preocupe! E Boa Noite

Zumra: Obrigado e boa noite

This article was written by Eden Habtamu reporting for Ezega.com from Addis Ababa, Ethiopia. She can be reached by email atNews@Ezega.com. The article can be reprinted in full or in part elsewhere but only by giving full credit to Ezega.com. If reprinted on a website, we ask that you place this active link: Ezega Ethiopian News, pointing to http://www.Ezega.com.

 

Racismo e Cultura por Frantz Fanon

FANON, Frantz. Racismo e Cultura. FANON, Frantz. Em defesa da revolução africana. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1980, p. 35-48.

1A reflexão sobre o valor normativo de certas culturas, decretado unilateralmente, merece que lhe prestemos atenção. Um dos paradoxos que mais rapidamente encontramos é o efeito de ricochete de definições egocêntricas, sóciocêntricas. Em primeiro lugar, afirma-se a existência de grupos humanos sem cultura; depois, a existência de culturas hierarquizadas; por fim, a noção da relatividade cultural.

Da negação global passa-se ao reconhecimento singular e específico. É precisamente esta história esquartejada e sangrenta que nos falta esboçar ao nível da antropologia cultural.

Podemos dizer que existem certas constelações de instituições, vividas por homens determinados, no quadro de áreas geográficas precisas que, num dado momento, sofreram o assalto directo e brutal de esquemas culturais diferentes. O desenvolvimento técnico, geralmente elevado, do grupo social assim aparecido autoriza-o a instalar uma dominação organizada. O empreendimento da desculturação apresenta-se como o negativo de um trabalho, mais gigantesco, de escravização económica e mesmo biológica.

A doutrina da hierarquia cultural não é, pois, mais do que uma modalidade da hierarquização sistematizada, prosseguida de maneira implacável.

A moderna teoria da ausência de integração cortical dos povos coloniais é a sua vertente anátomico-fisiológica. O surgimento do racismo não é fundamentalmente determinante. O racismo não é um todo, mas o elemento mais visível, mais quotidiano, para dizemos tudo, em certos momentos, mais grosseiro de uma estrutura dada.

Estudar as relações entre o racismo e a cultura é levantar a questão da sua acção recíproca. Se a cultura é o conjunto dos comportamentos motores e mentais nascido do encontro do homem com a natureza e com o seu semelhante, devemos dizer que o racismo é sem sombra de dúvida um elemento cultural. Assim, há culturas com racismo e culturas sem racismo.

Contudo, este elemento cultural preciso não se enquistou. O racismo não pode esclerosar-se. Teve de se renovar, de se matizar, de mudar de fisionomia. Teve de sofrer a sorte do conjunto cultural que o informava.

Como as Escrituras se revelaram insuficientes, o racismo vulgar, primitivo, simplista, pretendia encontrar no biológico a base material da doutrina. Seria fastidioso lembrar os esforços empreendidos nessa altura: forma comparada do crânio, quantidade e configuração dos sulcos do encéfalo, características das camadas celulares do córtex, dimensões das vértebras, aspecto microscópico da epiderme, etc.

O primitivismo intelectual e emocional aparecia como uma consequência banal, um reconhecimento de existência.

Tais afirmações, brutais e maciças, dão lugar a uma argumentação mais fina. Contudo, aqui e ali, vêm ao de cima algumas ressurgências. É assim que a “labilidade emocional do Negro”, “a integração subcortical do Árabe”, “a culpabilidade quase genérica do Judeu”, são dados que se encontram em alguns escritores contemporâneos. Por exemplo, a monografia de J. Carothers, patrocinada pela OMS, exibe, a partir de “argumentos científicos”, uma lobotomia fisiológica do Negro de África.

Estas posições sequelares tendem, no entanto, a desaparecer. Este racismo que se pretende racional, individual, determinado, genotípico e fenotipíco, transforma-se em racismo cultural. O objecto do racismo é, não descriminar o homem particular, mas uma certa forma de existir. No limite, fala-se de mensagem, de estilo cultural. Os “valores ocidentais” unem-se singularmente ao já célebre apelo à luta da “cruz contra o crescente”.

Sem dúvida, a equação morfológica não desapareceu completamente, mas os acontecimentos dos últimos trinta anos abalaram as convicções mais firmes, subverteram o tabuleiro de xadrez, reestruturaram um grande número de relações.

A lembrança do nazismo, a miséria comum de homens diferentes, a escravização comum de grupos sociais importantes, o surgimento de “colónias europeias”, quer dizer, a instituição de um regime colonial em plena Europa, a tomada de consciência dos trabalhadores dos países colonizadores e racistas, a evolução das técnicas, tudo isto alterou profundamente o aspecto do problema.

Temos de procurar, ao nível da cultura, as consequências deste racismo.

O racismo, vimo-lo, não é mais do que um elemento de um conjunto mais vasto: a opressão sistematizada de um povo. Como se comporta um povo que oprime? Aqui, encontram-se constantes.

Assiste-se à destruição dos valores culturais, das modalidades de existência. A linguagem, o vestuário, as técnicas são desvalorizados. Como dar conta desta constante? Os psicólogos que tem tendência para tudo explicar por movimentos da alma pretendem colocar este comportamento ao nível dos contactos entre particulares: crítica de um chapéu original, de uma maneira de falar, de andar …

Semelhantes tentativas ignoram voluntariamente o carácter incomparável da situação colonial. Na realidade, as nações que empreendem uma guerra colonial não se preocupam com o confronto das culturas. A guerra é um negócio comercial gigantesco e toda a perspectiva deve ter isto em conta. A primeira necessidade é a escravização, no sentido mais rigoroso, da população autóctone.

Para isso, é preciso destruir os seus sistemas de referência.

A expropriação, o despojamento, a razia, o assassínio objectivo, desdobram-se numa pilhagem dos esquemas culturais ou, pelo menos, condicionam essa pilhagem. O panorama social é desestruturado, os valores ridicularizados, esmagados, esvaziados. Desmoronadas, as linhas de força já não ordenam. Frente a elas, um novo conjunto, imposto, não proposto mas armado, com todo o seu peso de canhões e de sabres.

No entanto, a implantação do regime colonial não traz consigo a morte da cultura autóctone. Pelo contrário, a observação histórica diz-nos que o objectivo procurado é mais uma agonia continuada do que um desaparecimento total da cultura preexistente. Esta cultura, outrora viva e aberta ao futuro, fecha-se, aprisionada no estatuto colonial, estrangulada pela canga da opressão. Presente e simultaneamente mumificada depõe contra os seus membros. Com efeito, define-os sem apelo. A mumificação cultural leva a uma mumificação do pensamento individual. A apatia tão universalmente apontada dos povos coloniais não é mais do que a consequência lógica desta operação. A acusação de inércia que constantemente se faz ao “indígena” é o cúmulo da má-fé. Como se fosse possível que um homem evoluísse de modo diferente que não no quadro de uma cultura que o reconhece e que ele decide assumir. É assim que se assiste à implantação dos organismos arcaicos, inertes, que funcionam sob a vigilância do opressor e decalcados caricaturalmente sobre instituições outrora fecundas…

Estes organismos traduzem aparentemente o respeito pela tradição, pelas especificidades culturais, pela personalidade do povo escravizado. Este pseudo-respeito identifica-se, com efeito, com o desprezo mais consequente, com o sadismo mais elaborado. A característica de uma cultura é ser aberta, percorrida por linhas de força espontâneas, generosas, fecundas. A instalação de “homens seguros” encarregados de executar certos gestos é uma mistificação que não engana ninguém. É assim que as djemaas cabilas nomeadas pelas autoridades francesas são reconhecidas pelos autóctones. São dobradas por uma outra djemaa eleita democraticamente. E naturalmente a segunda dita a maior parte das vezes a sua conduta à primeira.

A preocupação constantemente afirmada de “respeitar a cultura das populações autóctones” não significa, portanto, que se considerem os valores veiculados pela cultura, encarnados pelos homens. Bem depressa se adivinha, antes, nesta tentativa uma vontade de objectivar, de encaixar, de aprisionar, de enquistar. Frases como: “eu conheço-os”, “eles são assim”, traduzem esta objectivação levada ao máximo. Assim, conheço os gestos, os pensamentos, que definem estes homens…

O exotismo é uma das formas desta simplificação. Partindo daí nenhuma confrontação cultural pode existir. Por um lado, há uma cultura na qual se reconhecem qualidades de dinamismo, de desenvolvimento, de profundidade. Uma cultura em movimento, em perpétua renovação. Frente a esta, encontram-se características, curiosidades, coisas, nunca uma estrutura.

Assim, na primeira fase, o ocupante instala a sua dominação, afirma maciçamente a sua superioridade. O grupo social, subjugado militar e economicamente, é desumanizado segundo um método polidimensional.

Exploração, torturas, razias, racismo, liquidações colectivas, opressão racional, revezam-se a níveis diferentes para fazerem, literalmente, do autóctone um objecto nas mãos da nação ocupante.

Este homem objecto, sem meios de existir, sem razão de ser, é destruído no mais profundo da sua existência. O desejo de viver, de continuar, torna-se cada vez mais indeciso, cada vez mais fantasmático. É neste estádio que aparece o famoso complexo de culpabilidade. Wright2 dedica-lhe nos seus primeiros romances uma descrição muito pormenorizada.

Contudo, progressivamente, a evolução das técnicas de produção, a industrialização, aliás limitada, dos países escravizados, a existência cada vez mais necessária de colaboradores, impõem ao ocupante uma nova atitude. A complexidade dos meios de produção, a evolução das relações económicas, que, quer se queira quer não, arrasta consigo a das ideologias, desequilibram o sistema. O racismo vulgar na sua forma biológica corresponde ao período de exploração brutal dos braços e das pernas do homem. A perfeição dos meios de produção provoca fatalmente a camuflagem das técnicas de exploração do homem, logo das formas do racismo.

Não é, pois, na sequência de uma evolução dos espíritos que o racismo perde a sua virulência. Nenhuma revolução interior explica esta obrigação de o racismo se matizar, de evoluir. Por toda a parte há homens que se libertam, abalando a letargia a que a opressão e o racismo os tinham condenado.

…)

CONVITE: Bate-papo sobre África, colonialismo e eugenia

O Curso de Ciências sociais da FAFIL – Fundação Santo André tem o prazer de convidá-lo para um bate-papo que discutirá as relações recíprocas entre capitalismo, colonialismo e eugenia, enfatizando os seus impactos vividos pelos africanos no continente a na diáspora. 

O bate-papo será dividido nos seguintes encontros temáticos:

  • I encontro (12/05/2012): Holocaustos invisívisibilizados: O colonialismo europeu e subdesenvolvimento do continente africano. Deivison Nkosi (FAUSTINO, D.M.)
  • II encontro (19/05/2012): Imprerialismo, racismo e eugenia: a reação do pensamento conservador no século XIX e XX no brasil.  Weber Lopes Góes (GÓES, W. L)

 

Local: Sala 25 da FAFIL – 10HS (Sab) – Fundação Santo André – Av, Príncipe de Gales, 821- Vila Príncipe de Gales – Santo André – SP.

 

Ementas

Holocaustos invisívisibilizados: O colonialismo europeu e subdesenvolvimento do continente africano (FAUSTINO, D.M.,)

RESUMO:

Esta exposição tem como objeto analisar os impactos dos colonialismos europeus na dinâmica geral das sociedades africanas, considerando estes períodos como objeto privilegiado para se compreender as relações entre o capitalismo, colonialismo e o racismo moderno. O ponto de partida para discussão será a desconstrução do mito da África como “infância da humanidade”, a partir da apresentação de elementos que evidenciam a contribuição dos africanos ao desenvolvimento humano universal, e a consequente cobiça que a região despertava (e ainda desperta) no mercado internacional. Será considerada a existência anterior de rotas escravagistas abertas pelo contexto de islamização de importantes Estado/Nações do situados ao norte do continente e a sua subsequente conversão compulsória em Estados Raptores entre os séculos VII e XV de nossa era (MOORE, 2007) para  posteriormente, analisar as diferenças no relacionamento entre a África e Europa durante o primeiro (mercantilista) e o segundo colonialismo (industrial-monopolista), considerando os seus efeitos sociais, bem como as diversas reações (resistência) e acomodações empreitadas pelos africanos nestes períodos.

Palavras-chave: Colonialismo, holocausto, racismo, acumulação primitiva de capital, imperialismo, neo-colonialismo, escravidão.  

Referências Bibliográficas

Davis Mike. Holocaustos coloniais/ Mike Davis, Tradução de alda Porto. – Rio de Janeiro: Record. 2002

FANON. F., Os condenados da terra. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira S.A, 1968.

_______., Em defesa da revolução Africana. Lisboa. Livraria Sá da Costa. 1969.

MOORE, C. Racismo e Sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007

N’KRUMAH, Kwame. Neocolonialismo: Último Estágio do Imperialismo. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1967

RODNEY, Walter. Como a Europa subdesenvolveu a África. Seara Nova, Lisboa, 1975

SERRANO, Carlos. Memória D’Africa: a temática africana em sala de aula/ Carlos Serrano. Maurício Waldman. 3. Ed. São Paulo: Cortez. 2010

Imprerialismo, racismo e eugenia: a reação do pensamento conservador no século XIX e XX no brasil. (GÓES, W.L.)

RESUMO:

A proposta da atividade tem como finalidade abordar os impáctos do imperialismo no final do século XIX e início no XX concatenado com o Pensamento Conservador no Brasil; faremos um percurso referente a trajetória teórica referente aos ideólogos do racismo no Brasil com enfoque em Renato Kehl,  este enquanto o protagonista do percussor da eugenia no Brasil do qual foi um dos principais influentes da teoria da Eugenia em nosso país; fundou a Sociedade Eugênica de São Paulo no ano de 1918, cuja finalidade era estudar as leis da hereditariedade, descendência e caminhos para a melhoria da espécie humana. Além da divulgação dos conhecimentos sobre Eugenia, a Sociedade Eugênica tinha como escopo estudar as populações imigrantes visando racionalizar a sua reprodução por meio de exames pré-nupciais entre outr as propostas. Por fim, a preocupação de Renato Kehl nada mais foi em dar resposta aos supostos problemas encontrados pelas elites do nosso país, por esta razão, ele mergulhou nos principais temas daquele contexto: imigração, educação, sanitarismo e relações étnico-raciais.   

Palavra Chave: Ciência e Ideologia; Eugenia; Ideologia do Racismo; Pensamento Conservador; Renato Khel.

Referências bibliográficas

BLACK, Edwin. A Guerra contra os fracos – A eugenia e a campanha norte-americana para criar uma raça superior. São Paulo: A Girafa Editora, 2003.
DIWAN, Pietra. A raça pura – uma história da eugenia no Brasil e no mundo. São Paulo: Contexto, 2007.
KEHL, Renato. A cura da fealdade: eugenia e medicina social. São Paulo: Monteiro Lobato Editores, 1923.
____________ Lições de eugenia. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1929.
 ____________ Por que sou eugenista: 20 anos de campanha eugênica (1917-1937). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1938.
LUKÁCS, Georg. El Asalto a La Razón: La trayetotia del irracionalismo desde Schelling hasta Hitler. Fundo de Cultura Económica, México Buenos Aires, 1959.
MIRANDA, Carlos Alberto Cunha. Uma estranha noção de ciência: repercussões do pensamento eugênico no Brasil. In: Clio Revista de Pesquisa Histórica. Nº 27.1, 2009. Recife: Editora da Universitária, UFPE, 2009.
PICHOT, André. A sociedade pura: de Darwin a Hitler. Porto Alegre: Instituto Piaget, 2000.
SANTOS, Ricardo Augusto dos. Quem é bom, já nasce feito? – Uma leitura do eugenismo de Renato Kehl (1917 – 37). In: Revista Intellectus/ Ano 04 Vol. II – ISSN 1676 – 7640. Rio de Janeiro, 2005.
STEPAN, Nancy L. A hora da Eugenia: raça, gênero e nação na Améri ca Latina. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.

Minhas experiências com o “Caso Pinheirinho”

Por Felipe Choco (Grupo Kilombagem)    

 Se fossemos categorizar o que humanamente representa um choque, poderemos dizer que temos dois tipos, ou duas fases: há aquele choque que de tão forte, nos gruda, nos derrete, nos paralisa. Outro tipo é o choque que nos expele, quase como em uma catapulta, que consciente ou inconscientemente nos mobiliza, tira-nos da inércia do corpo parado, sem movimento.

     A invasão das polícias e guardas locais e estaduais de São Paulo no bairro Pinheirinho em São Jose dos Campos (SJC) foi um Choque para além da Tropa. Mentiras, conversas e informações desencontradas, traições criminosas por parte do governo do Estado, quebra de pacto federativo, documentos judiciais praticamente adulterados, arbitrariedade e declaração de guerra, dentro do que foi calculado como um “estupro social” e a nítida expressão do “ódio ao povo trabalhador, pobre”.

credito: Roosevelt Cassio

     O que dizer a uma criança que aos 10 anos vê o seu querido cachorro de estimação ser alvejado a sangue frio por um homem de farda, respaldado por poderes inimagináveis pela mente infantil? Aos dez anos de vida pouco importam as razões para tal. Algo que se tinha afeto morreu. E de forma brutal.

     O que dizer sobre a impotência de um adolescente de 13 anos ao tentar defender o teto de sua família, seu espaço onde “cair vivo”, portando apenas um estilingue com uma mochila cheia de pedras, contra 2.000 policiais, dois helicópteros, sprays de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo, armas menos letais – com balas de borracha – e armas extremamente letais– com balas de ferro e pólvora?

credito: andre nery folha pe

     Oito anos de construção da vida – no bairro. Oito mil pessoas – no barro. Oito dias após esse ataque de guerra do governo de São Paulo em 22 de Janeiro de 2012, contra o fruto do desenvolvimento desigual e combinado do sistema do capital, netos da Lei de Terras e do pós-abolição, 507 relatos foram colhidos dos moradores socializados na igualdade de estarem sem moradias, por homens e mulheres embebidos da inércia do corpo em movimento, após o choque da invasão. Bom, seja a parcela que tomou posição a favor ou contrária à invasão orquestrada pelo maestro Geraldo Alckmin, o que é fato é que não se pode ficar indiferente. “É a ideologia, estúpido!”, nos diria Slavoj Zizek no seu livro “Primeiro como Tragédia, Segundo como Farsa”. Há ainda quem duvide disto?

     Se engana quem pensa que a justiça é cega. Cega ela nunca foi, porque sempre olhou muito bem para seus protegidos. Classista, pró proprietários. Mudam-se os nomes e ramos dos beneficiados, porém, a parte que os cabem nesse latifúndio está, na maior parte das vezes, muito bem protegida. Donos de terras, bancos e empresas. Vários. Empresários!

     O senhor Naji Nahas, libanês com cidadania brasileira, grande especulador financeiro, pivô da quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1989, dono da Selecta, conglomerado de 27 empresas, estranha proprietária da área que compreende o que restou do bairro Pinheirinho, sabe bem o que é justiça. Como não saberia, já que mais uma vez a justiça lhe devolveu o que é seu, digamos, pelo Direito. Com a reintegração da posse do terreno – que inicialmente a polícia disse aos moradores que era apenas uma operação “pente fino”, até acionarem o “pente do chumbo grosso” – esse senhor ganha e muito com a venda do mesmo, para que se desconte da dívida com a prefeitura, parte de sua massa falida. Aliás, o que são 1.600 famílias de trabalhadores, perto de um empresário e dos possíveis rendimentos dessas terras?

     Bom, palavras são coisas, são representações do real; e no momento o que é comum aos refugiados do Pinheirinho é que todos ficaram sem palavras!  

creditos: anderson barbosa

     Com o objetivo de ir contra esse fator, que retomo a ideia posta acima sobre a coleta dos relatos da ação criminosa, a fim de apurar os fatos, a partir de quem vivenciou e estava desarmado nisso tudo. Dentro de uma ação respeitosamente articulada pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE), durante praticamente toda a segunda-feira do dia 30 de Janeiro de 2012, em SJC, onde voluntários doaram seu tempo para o objetivo de apurar a verdade do que ocorreu, tendo como ponto máximo a Audiência Pública na Câmara dos Vereadores da cidade, a qual contou com a presença e de relatos que chocavam a cada palavra desde pessoas até então anônimas para a nossa república federativa, até representantes do movimento dos moradores, parlamentares e representantes diretos do governo federal.

     Até um procurador da república, secretário nacional de articulação social, relatou em referência ao dia da invasão covarde, que estava no local pelo motivo de ter uma reunião agendada as 09:00h com os interessados no futuro da área e das famílias em questão, crente de que estava vigorando a liminar que dava mais 15 dias de respiro para os moradores, teve de correr dos policiais durante a invasão e retornar com a lembrança de seu próprio ferimento causado por um tiro de arma menos letal – de bala de borracha.

     Ouvir que a ordem dada aos funcionários do Hospital Público Municipal de São José dos Campos era de receber todos os feridos enquanto indigentes e liberá-los enquanto indigentes, dói aos ouvidos e causa um rebuliço no estômago. Mesmo quando já esperamos tal atitude.

     Saber que guardas civis municipais deram tiros com armas de fogo em direção da população, sem distinção, da mesma forma em que o sistema do capital abstrai a individualidade dos indivíduos que produzem as riquezas sociais, e exploram sem distinção desde que a valorização do valor (capital) seja garantida, nos demonstra que naquele momento, qualquer bala perdida encontrada no corpo de qualquer ser humano indesejável cumpriria sua função. Nisso, um corajoso indivíduo de nome David, encontra-se num hospital se recuperando do resultado de uma dessas balas sem distinção que atingiram ligamentos de seu corpo próximo à região da coluna vertebral, deixando-o com a perna esquerda sem os movimentos. Fato que ocorreu quando tentava proteger a vida de seu filho.

     Ouvir relatos de pessoas dizendo que perderam seus empregos por terem faltado apenas um dia para o exercício de sua função, em razão da confusão que gerou a reintegração, simplesmente por serem “descobertos” como “ex-moradores do Pinheirinho”, no momento em que mais necessitam de uma seguridade financeira, é de balançar qualquer estrutura emocional! O emprego a ser perdido deveria ser dos mandantes e executores dessa barbárie.

     Por parte do governo federal, espera-se mais que a lamentação, sobre o que em 1977 Fela Kuti cantou em referência ao fruto da invasão da polícia nigeriana à Comuna de Kalakuta, isto é, tristeza, lágrimas e sangue (sorow, tears and blood). Desapropriar o terreno e atrelá-lo a um projeto habitacional passa a ser a medida cabível e legalmente possível. Primeira dose do remédio anti-trauma. Inclusive, muitos apontaram que tal medida já está atrasada. Pois poderia ter evitado esse episódio catastrófico.

creditos: Reuters - roosevelt cassio

     Se para Gyorgy Lukács o ponto mais alto do ser humano é a arte, por expressar o empírico da existência individual vivida no cotidiano, em conexão com a experiência humana genérica, geral nas suas relações e expressões, podemos dizer que a arte da guerra, pintada por Eduardo Cury (prefeito de SJC), Geraldo Alckmin (governador de SP), juíza Márcia Loureiro, juiz estadual Rodrigo Capez e Coronel Messias, contra a população excedente (para as empresas e governo), contra os indesejáveis de São José, pode ser colocado como o ponto mais baixo do que se pode chamar de humanidade, ao se referir à figura dessas pessoas e instituições representadas.

     Como bem nos alarmou Istvan Meszaros quando em sua última passagem por São Paulo, em julho de 2011, o que nos resta é: “Socialismo, ou, Barbárie se tivermos sorte”. Nisso, a vida segue, mas traumas permanecem. Porém, a melhor citação que caberia para o momento seria a do grande rábula (advogado não diplomado do século XIX) Luiz Gama, um dos melhores, senão o melhor entre os abolicionistas em sua época, quando proferiu publicamente: “O escravo que mata o seu senhor, em quais circunstâncias for, o faz em legítima defesa!” 

     Muitas águas ainda estão para rolar no seguimento do fevereiro que é carnaval, e das águas de março. Audiências públicas, relatórios a serem entregues às instâncias municipal, estadual, federal e aos órgãos internacionais, a fim de que os bárbaros causadores da barbárie sejam responsabilizados. Há muitas outras informações que não estão escritas nesse texto. Escrevê-las todas não é o objetivo do que está sendo exposto, até porque relatórios contendo a integridade dos fatos, inclusive das articulações de bastidores, estão sendo produzidos para tornarem-se públicos. O que deve ser entendido nessas linhas é que a tragédia está posta, só tomemos muito cuidado com as farsas!                 

                                                       Felipe “Choco”, 01 de Fevereiro de 2012        

Education from an Afrocentric perspective

This ppt (Education from an Afrocentric perspective) was presented at the CUMBRE MUNDIAL DE JUVENTUD AFRODESCENDIENTE  – Costa Rica 2011

The goal is to conduct a critical dialogue in relation to myths about Africa and African descent in the world.
The presentation shows that Africans contributed actively to the development of universal human

all presentations of this blog are free to download

Deivison Nkosi – Kilombagem Group – Brazil

O movimento negro e a saúde da população negra

Aproveito este espaço para divulgar minha dissertação de mestrado

 

A PERCEPÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO DO ABC PAULISTA SOBRE A SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA: AGENDAS, AÇÕES E PARCERIAS . FAculdade de Medicina do ABC – Santo André – SP – 2010

Orientador Prof. Dr. Marco Akerman

 

reumo

Esta dissertação discute as relações entre o movimento negro da Região do ABC Paulista e à saúde da população negra.    A percepção do movimento negro sobre a saúde da população negra, as suas agendas prioritárias e o potencial de adesão das organizações deste movimento social às ações de saúde são analisadas sob a ótica de representantes do próprio movimento negro, entendido aqui como interlocutor privilegiado de diálogo entre as demandas de saúde da população negra e o setor saúde.

Ao relacionar a importância do movimento negro como importante sujeito de promoção á saúde da população negra, o autor discute algumas especificidades deste movimento social, concluindo que o mesmo, apesar de sua diversidade programática, apresenta grande potencial de adesão a ações de parcerias com o setor saúde. A diversidade programática observada nas diferentes organizações do movimento negro se expressa em potencialidades diversas e complementares de abordagem em relação temática saúde, a saber: a atuação sobe os determinantes sociais; a atuação comunitária de sensibilização e multiplicação de informação e as ações voltadas ao controle social das políticas públicas de saúde. A concretização de possíveis parcerias entre o movimento negro e o setor saúde fica condicionada a dois fatores relevantes: o reconhecimento e enfrentamento do racismo e do racismo institucional presente no setor saúde; oferta por parte do setor saúde de formação e qualificação das organizações do movimento para atuarem nas ações de saúde.

abstract

This dissertation aims to discuss the perception of the black movement from ABC Paulista regarding the health of black population.

The perception of this movement about the health of black population, their primordial schedule, the potential support from the organizations in this social movement to the actions of health, are being analyzed under the representatives of the black movement’s view, known here as a privileged speaker of the dialog between the health demands of black population and the health sector. The hypothesis that the black movement from ABC Paulista has little or none access to the produced literature concerning the health of black population has been confirmed, as well as the hypothesis that some institutions have already started actions in health area while other institutions aren’t willing to arrange it’s prior in their schedule.

Relating the importance of the black movement as an important mean of promoting health to the black population, the author discusses

 

ACESSE A DISSERTAÇÃO AQUI

http://kilombagem.org/wordpress/wp-content/uploads/2016/08/Dissertação-de-mestrado-movimento-negro.pdf

UNEafro pressiona MEC por material didático público para ENEM‏

 

 

ENEM: UNEafro pressiona MEC por material didático público para livre reprodução

 

Cursinhos Comunitários e Populares são uma realidade em todo o Brasil. A falta de investimentos na Escola Pública e a manutenção do Ensino Superior como espaço de privilégio tem dado fôlego às iniciativas populares de organização de espaços educacionais alternativos. Hoje defendemos a ideia de que há um grande movimento nacional de cursinhos alternativos, comunitários e populares, ainda desorganizado, mas ativo e muito representativo.

 

A UNEafro-Brasil constitui-se como uma das maiores redes de Cursinhos Comunitários ou Populares que se dedicam à prática cotidiana da educação popular e à luta política por uma Educação de qualidade, anti-racista e comprometida com a autonomia dos sujeitos.

 

Apesar das possíveis diferenças de atuação, método e finalidade política, há sem dúvida uma necessidade comum em todas as experiências de cursinhos alternativos, comunitários e populares: o material didático.

 

Vivemos um momento acirrado de mercantilização da Educação. Sabemos o quão lucrativo é o mercado editorial voltado para publicações de apostilas e livros pré-universitários. E também somos vítimas dele.

 

Com base nessa realidade, a UNEafro-Brasil, a partir de debate e encaminhamento surgido em sua 4ª Assembleia Geral, realizada nos dias 29, 30 e 31 de Julho de 2011, na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema – SP, enviou ao MEC uma Carta contendo as seguintes reivindicações:

 

1 – Elaboração de Material Didático Preparatório para ENEM e disponibilização do conteúdo público para reprodução livre para estudo por parte de todos os Cursinhos Comunitários e Populares do Brasil e a elaboração de material para aplicação de Simulados de Exame do ENEM, voltado para alunos estes Cursinhos;

2 – Disponibilização deste mesmo material impresso para os estudantes do 3º ano do Ensino Médio em todo o Brasil;

 

3 – Viabilizar em médio prazo, a disponibilização deste material impresso, a ser distribuído às redes de Cursinhos Comunitários e Populares devidamente cadastradas no MEC;

 

O próximo passo dessa iniciativa será promover debates sobre a importância de um material didático público para livre reprodução, voltado para o ENEM, em nossos Cursinhos, bem como em Escolas Públicas e redes sociais, com o intuito de pressionar o MEC a atender essa tão importante demanda.

 

Clique AQUI e saiba mais sobre as deliberações da 4ª Assembleia Geral da UNEafro.

Carta Aberta em defesa da Saúde da População Negra em Santo André

 

 

 

 

 

 

 

Carta que será entregue pelo Movimento Negro à Prefeitura de Santo André- SP reinvindicando a retomada das políticas de saúde da população negra

 

 

 


Santo André, 16 de maio de 2011

 

A/C do Secretário da Saúde Sr. Nilson Bonome

C.C.: Conselho Municipal de Saúde de Santo André

C.C.: Comissão de Políticas Públicas do Conselho Municipal de Saúde

Excelentíssimo Sr. Nilson, vimos por meio desta solicitar explicações pelo não funcionamento do Comitê Técnico de Saúde da População Negra e a interrupção das ações previstas no Plano Municipal de Saúde da População Negra.

Buscando superar as desigualdades raciais em saúde, o Ministério da Saúde publica em 2008 uma Portaria com o Plano Operativo da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra – PNSIPN aprovada nas três esferas de gestão do Sistema Único de Saúde. Em dezembro deste mesmo ano, o Conselho Municipal de Saúde do Município de Santo André dá um passo à frente no debate sobre a equidade racial em saúde na região e aprova o Plano Municipal de Saúde da População Negra.

Este Plano, aprovado pelo conselho e fruto de intensa mobilização da sociedade civil e principalmente representantes da secretaria municipal de saúde, prevê ações de fortalecimento ao controle social; aprimoramento dos sistemas de informação e fomento à pesquisa sobre condições de saúde da população negra, capacitação dos profissionais para implementação do quesito cor, identificação e enfrentamento do racismo institucional e a transversalização da temática saúde da população negra nas políticas estratégicas da secretaria de saúde.

Para buscar viabilidade institucional e garantir a implementação do Plano, em 2009 foi criado no âmbito da Secretaria Municipal de Saúde e aprovado pelo Conselho Municipal de Saúde o Comitê Técnico de Saúde da População Negra, com participação garantida à integrantes do Conselho Municipal de Saúde e representantes do movimento negro do município. O funcionamento do Comitê, bem como a nomeação de representantes da gestão municipal seriam atribuição da Secretaria Municipal de Saúde.

No tempo de seu exercício o Comitê deliberou ações importantes tais como: a inserção da temática no âmbito do Departamento de Atenção à Saúde, articulação com o Programa de Aids e a realização da primeira fase da Campanha Direitos Humanos e Saúde, realizada em parceria com o Departamento de Humanidades da Prefeitura em 2010. No entanto, estas ações não superaram um caráter pontual e o próprio comitê foi sendo desarticulado..

Até o presente momento a Secretaria Municipal de Saúde não cumpriu seu compromisso de nomear os representantes da gestão para composição oficial no Comitê e este fato levou à trágica desarticulação silenciosa do mesmo enquanto instrumento de promoção da equidade em saúde.

Em conseqüência desta desarticulação, o Plano Municipal de Saúde da População Negra, aprovado pelo Conselho Municipal de Saúde só viu iniciar-se 1 das suas 8 ações estratégicas previstas para 2010-2011. As últimas 3 reuniões do Comitê foram canceladas e nos últimos 5 meses houve apenas uma única reunião que não pôde deliberar nada por falta de quorum e a ausência da representante oficial da gestão municipal de saúde.

A atual conjuntura nos preocupa e levanta o questionamento sobre o compromisso da Secretaria Municipal de Saúde com os princípios do SUS, haja vista que a equidade em saúde se configura com um dos pilares do sistema que nos obriga a pensar a saúde de acordo com as especificidades das populações. A Prefeitura de Santo André diz que “cuida da cidade”, mas infelizmente não é isso que estamos vendo em relação à saúde da população negra. A Política Nacional de Saúde da População Negra – PNSIPN é uma Lei Federal e o Plano Municipal de Saúde da População Negra, aprovado pelo Conselho Municipal de Saúde trazem prerrogativas que estão sendo ignorados com a desarticulação silenciosa do Comitê Municipal de Saúde da População Negra e a não implementação das ações previstas no Plano.

Lembramos que é responsabilidade da gestão garantir o funcionamento das ações previstas no referido Plano. O papel da Sociedade Civil é monitorar e cobrar o Estado, em casos como este em que as prerrogativas do SUS estão sendo ameaçadas.

A PNSIPN e o Plano Municipal de Saúde da População Negra são respostas às desigualdades raciais em saúde presentes no dia a dia de nossa sociedade e muitas vezes reproduzidas pelo SUS. A invisibilidade desta desigualdade e a morosidade ou inoperância da Prefeitura para responder adequadamente a esta situação, além de ameaçar o fortalecimento do SUS configuram-se como Racismo Institucional.

Assim:

Exigimos explicações sobre a atual conjuntura;

Reivindicamos a rearticulação do Comitê Técnico de Saúde da População Negra e a imediata nomeação oficial dos membros representantes da gestão, considerando as prerrogativas previstas no Plano Municipal de saúde da População Negra e o Estatuto Jurídico do Comitê;

Instamos à Retomada das ações previstas no Plano e retomada do debate sobre o fundo destinado a apoiar tais ações;

Cobramos um Balanço das ações já realizadas pelo Comitê e continuidade na Campanha Direitos Humanos e Saúde, com ênfase no monitoramento das ações de multiplicação de informação sobre a implementação do quesito cor (conforme previsto no projeto da campanha);

Exigimos a Definição oficial do um responsável técnico pela implementação do plano no âmbito da gestão municipal de saúde (conforme previsto no Plano Municipal de Saúde da População Negra

 

Assinam esta carta

ACMUN – Associação Cultural de Mulheres Negras – Paraná

AMNB – Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras

Associação de Arte e Cultura Afro-Brasileira Kizomba

Centro Cultural Capoeirando – Minas Gerais Comunidade Candaces

COMUNIDADE NEGRA DO CAMPANÁRIO

Instituto Afro Brasileiro de Desenvolvimento Econômico e Social do Estado de São Paulo

Fórum Nacional de Juventude Negra – FONAJUNE

 Grupo de Estudo sobre a Mulher – GEM/UFBA (Emanuelle Goes – Pesquisadora – Bahia)
Grupo Kilombagem

Movimento Negro Dandara Nago

MSP Brasil – Movimento Saúde dos Povos Círculo Brasil

Associação de Mulheres Negras Nzinga Mbandi

Negra Sim – Movimento de Mulheres Negras

OAB/CAAD

PPE EDUCAFRO

Projeto Avanço da Comunidade

Programa de Estudos e Debates dos Povos Africanos e Afro- Americanos- PROAFRO – RJ

Rede Nacional Afroatitudes

Rede Nacional de Controle Social e Saúde da População Negra

Rede Nacional Lai Lai Apejo – População Negra e Aids

Rede Sapatá

Fórum Estadual de Promoção da Igualdade racial da Paraíba

Representantes da Sociedade Civil no Comitê Municipal de Saúde da População Negra

A formação de pesquisadores negros, por Henrique Cunha Jr

texto copiado do site  http://www.comciencia.br/reportagens/negros/17.shtml : in 10 de agosto de 2006

A formação de pesquisadores negros

Henrique Cunha Jr.

Uma necessidade democrática
A história da formação social brasileira é a história do escravismo criminoso que produziu ao longo de quase 300 anos a imigração massiva de africanos. Como os processos de invasões européias no continente africano encontraram fortes resistências, as regiões de exploração e lutas variaram e se alternaram no tempo, fazendo com que os cativos africanos para aqui trazidos viessem de diversas regiões e culturas. Dado o imenso desenvolvimento técnico e social, para época, vivido pelos diversos países africanos, o Brasil absorveu e se beneficiou de mão-de-obra portadora de todas as técnicas e conhecimentos utilizados nos diversos campos da produção no país. O conhecimento produtivo do Brasil Colônia é fundamentalmente africano, nas áreas de mineração, produção de ferro, agricultura, produção de açúcar, manufaturas, tecelagem, construção. O mesmo se dá no campo da política, se considerarmos que os quilombos foram a forma mais sistemática da produção de contestação do estado escravista. Não paradoxalmente, as artes e a cultura se fundam também sobre as mesmas heranças africanas. Até as literaturas e as músicas ditas eruditas são realizadas por africanos e descendentes de africanos. Basta nomearmos os marcos das nossas artes e da nossa literatura para constatarmos tal evidência.

A produção da pesquisa científica no Brasil é iniciada nos finais do século XIX e início do XX, aí também, vamos encontrar a participação ativa de afrodescendentes. Há casos extremos como o do engenheiro Teodoro Sampaio, que filho de escrava, depois de formado na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, volta à Bahia para comprar a liberdade de sua mãe. Tornou-se geógrafo, sanitarista, pesquisador, está entre os fundadores da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

A contradição que nos preocupa é a de que, mesmo em face de inúmeras evidências históricas, ainda ser necessária a discussão sobre a pesquisa que trata da população negra e sobre a formação de pesquisadores negros. Os argumentos da história não são suficientes para a consciência de que existe um erro se perpetrando na composição dos corpus de pesquisadores brasileiros, nas temáticas eleitas pela ciência brasileira e sobretudo nas políticas científicas e de formação de pesquisadores no país. Surpreendente não é apenas a ausência de políticas nesta área, como também a falta de preocupações democráticas com a implantação destas. Num país que forma 6000 doutores por ano, temos que menos de 1% são negros e menos das teses 1% tratam temas de interesse das populações afrodescendentes.

“Ninguém discrimina ninguém, a razão disso é que o negro é pobre”, dizem. Errado, a razão é que os métodos de discriminação estão tão institucionalizados que não incomodam às consciências críticas. É tido natural o negro não entrar nos programas de pós-graduação. Examinando o histórico de cerca de dois mil mestres e doutores negros existentes no país, vemos que a faixa etária das candidaturas e os regimes de trabalhos estão fora dos perfis privilegiados pelas políticas e pelos programas de pós-graduação. A média dos pesquisadores negros ingressa no mestrado aos 35 anos, trabalha e precisa participar do sustento da família, o que é incompatível com o número e valores das bolsas. Os programas favorecem quem, em iniciação cientifica e artigos? Os pesquisadores negros vêm de ensino universitário noturno, que não dá oportunidades para a iniciação científica. As disciplinas de base dos temas pretendidos pelos pesquisadores negros não existem nas graduações. A única fonte de formação tem sido o próprio movimento negro. Os programas rejeitam pesquisadores militantes dos movimentos negros. Bancas de entrevista não conseguem superar a relação patroa-empregada existente nas nossas relações sociais cotidianas, tornando as entrevistas tensas e as pesquisadoras negras antipáticas. Fato mais notado entre as mulheres: “quem é antipático não entra, as negras ‘muito da exibida’ não entram”.

Mas, para os que entram, não há orientadores conheçam os temas, o que alimenta a dificuldade em se ter sucesso na pesquisa no tempo determinado. A universidade brasileira não confessa a sua ignorância nos temas de interesse dos afrodescendentes, sendo que única responsabilidade do insucesso fica por conta dos pesquisadores negros. O problema é grave, mais grave ainda é que nada disso tem sido questionado pela sociedade democrática acadêmica.

O que está ocorrendo
Está ocorrendo que as populações negras vivem em espaços geográficos que não recebem políticas públicas. São áreas sobre as quais o conhecimento científico é praticamente inexistente. Forma-se um círculo vicioso, nada se sabe; e nada se faz de coerente porque nada se sabe. As políticas universalistas do Estado se mostraram inócuas. No governo passado, através de pesquisa do IPEA concluiu-se o que os movimentos negros vinham dizendo há quase 30 anos: há a necessidade de políticas específicas. No entanto, quase nada se sabe sobre essas especificidades pois os pesquisadores e os atuais temas das pesquisas têm a ver com interesses que não são os das populações de descendência africana. Negro e afrodescendentes aqui são sinônimos, definições que vão além das denominações de raça e raça social. Estão ligados ao trânsito da história e a enfoques nos processos de dominação e na produção étnica da submissão neste país. Nós temos falado da necessidade de pesquisas e de produção de conhecimentos sobre os territórios de maioria afrodescendente. Mas não há pesquisa, não há política pública, não há solução objetiva dos problemas.

A democracia prevê a representação de todos os grupos sociais em todas as instâncias de decisão. No estágio atual do capitalismo, a pesquisa científica e os grupos de pesquisadores constituem um grupo privilegiado de exercício do poder, quer pela ação direta na participação nos órgãos de decisão do Estado, quer pela ação indireta através da difusão dos conhecimentos que justificam as ações dos poderes públicos. Os grupos sociais cujos membros não fazem pesquisa ficam alijados dessas instâncias de poder. A ausência de pesquisadores negros tem reflexo nas decisões dos círculos de poder. Vide que temas como a educação e a saúde dos afrodescendentes só passam para a pauta do Estado brasileiro depois que os movimentos negros, com esforços próprios, formaram uma centena de especialistas e pesquisadores nessas áreas e produziram um número relevante de trabalhos científicos.

Por que não existe mais pesquisa e mais pesquisadores? Por que não se quer ter. Não existe vontade política das instituições universitárias e muito menos dos órgãos de política científica do Estado. Os movimentos negros têm sido muito ativos nas propostas de políticas públicas de ações afirmativas para formação de pesquisadores negros. Estas propostas só têm recebido a atenção de setores isolados da sociedade e das fundações internacionais.

Finalizando sem terminar
São infindáveis as posições e contraposições que o tema encerra. Ainda temos uma mentalidade nacional avessa à existência de negros ou, pelo menos, insensível a qualquer manifestação de afirmação da existência de identidades negras. A aversão não é contra a existência material desses seres ditos negros, mas contra a existência política dos mesmos. Tal qual durante o período do escravismo criminoso, persiste a ótica dominante do medo branco com relação a onda negra. As idéias convenciam a sociedade que o perigo era negro, enquanto a criminalidade oficial branca do Estado e todos os processos de dominação impostos pela matriz européia não eram vistas como perigosos, danosos e dolosos para a sociedade. Tal mentalidade continua se processando, sob novas formas de inculcação, com os mesmos resultados de um certo pânico e pelo menos indisfarçável desconforto frente à visão da organização política, cultural e identitária de negros.

O país funciona bem, é democrático, a Constituição veda qualquer discriminação de raça, sexo ou religião. Essa é a visão conformista e utilitária da nossa situação: a harmonia. Quando algum pesquisador de pele clara se auto-denomina negro, correm os pares, as vezes até mais escuros que ele, a dissuadi-lo com uma enxurrada de argumentos e este passa a ser visto como o produtor da discórdia. “Quem é negro nesta sociedade? Somos todos mestiços. Temos todos um pouco de escravizado e escravizador no nosso passado.” Quem se denomina negro passa a ser o importador de temas estanhos à comunidade harmônica brasileira. As falácias desses argumentos não são analisadas com o rigor da comunidade científica, ficam no pseudo senso científico. As referências biologizantes do tema superam as referências políticas e sociais. Pesquisadores da história se esquecem dos conceitos da história social e se amparam no argumento biológico. Socialmente, nós não temos nada do escravizador, visto que este não mestiçou a sua propriedade com a nossa. Vejam que o escravizador sempre vendeu os filhos que teve como as escravizadas como mais um escravo. A nossa dita morenidade não está representada na distribuição de renda do país. Importada é a maioria ou quase totalidade das idéias científicas difundidas no país. Quais seriam os critérios da condenação de uma importação de idéias em particular? Ou só no campo das relações étnicas é que não é cientifico importar idéias? A crítica da importação também mostra uma ignorância sobre a nossa história social, já que os movimentos negros do Brasil, há mais de um século, pautavam essas temáticas.

É certo que nos damos bem, no campo informal. Pulamos carnaval juntos e jogamos futebol. Mas não estudamos juntos e, muito menos, pesquisamos juntos. “Mas é um problema social”. Não temos dúvida que é um imenso problema social, mas para o qual não se procura solução. Existem aqueles que nos dizem que têm em casa uma negra empregada e dizem que é como se fosse da família, mesmo que não dividam com ela o capital cultural, a educação dos filhos ou o seguro saúde da família. No Brasil, até o cachorro é membro da família.

Desde que organizamos a Associação de Pesquisadores Negros, em 2000, com intuito de acelerar o processo de pesquisa das temáticas de interesse dos afrodescendentes, tenho ouvido pelos corredores, e às vezes explicitamente, argumentos da ordem: pesquisa não tem cor; ou que as temáticas abordadas por nós não são suficientemente universais; ou seja, não fazem parte da ciência. Concordo que a pesquisa não tem cor, mas as políticas científicas, que não têm nada a ver com o cerne do fazer científico, essas têm os atributos de cor, de grupo social, de grupo histórico, de marginalizações e de produção das desigualdades sociais, econômicas e políticas. Quem detém o poder detém a primazia da ciência e determina quais temas são parte ou não da ciência. Veja que o mesmo universalismo científico fez com que todas as teorias racistas fossem produzidas, divulgadas e aplicadas pelos corpus científicos. Então, o argumento da universalidade da ciência não serve como científico, em face da própria história da sua construção eurocêntrica. Mesmo ainda por que as ciências físicas hoje travam um imenso debate sobre as idéias de generalização e universalização da ciência, visto as discordâncias sobre a natureza do tempo e do espaço, sobre a lógica da previsibilidade da ciência destruída pela teoria do caos. Podemos quase afirmar que não existe uma ciência universal, pelo menos nos moldes que era concebida há 30 anos atrás.

A formação dos pesquisadores negros passa por todos esses obstáculos ideológicos, políticos, preconceituosos, eurocêntricos, de dominações e até mesmo de inocências úteis vigentes nas instituições de pesquisa e nos órgãos de decisão sobre as políticas científicas. É fundamentalmente um problema político de concepção da sociedade e das relações sociais. Problema que a sociedade científica se nega a reconhecer como um problema, se negando a tratá-lo e colocá-lo na agenda das preocupações. O mesmo ocorre na esfera governamental, que de certa forma reflete o pensamento das instituições de pesquisa.

O capitalismo segue fabricando seus negros. Utiliza a produção científica para reatualizar as estratégias de dominação e subordinação desses negros produzidos. As definições sobre os negros e sobre nossas condições de vida seguem se alterando ao longo do último século. Para se ter uma idéia dessa dinâmica basta acompanhar as modificações que as Nações Unidas tiveram sobre a temática. Mas a média dos pesquisadores brasileiros permanece alheia a essas definições e redefinições. A maioria ainda pensa o negro no mesmo referencial racista e biológico do século XIX. Praticam as concepções da existência de raças humanas e de seus atributos. Vide, como exemplo, o imenso sucesso que o livro Casa Grande & Senzala ainda faz entre eles. Participam de um subdesenvolvimento científico mental nesse setor das relações étnicas, com graves conseqüências para as populações afrodescendentes. Sob um discurso de democracia e igualdade, impõe-se descasos e discriminações sobre a necessidade de pesquisas em temas de interesse da população negra e da formação de pesquisadores originários desse grupo social.

Henrique Cunha Jr. é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica do Programa de Pós-Graduação em Educação, da Universidade Federal do Ceará.

Atualizado em 10/11/2003

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